Seja por sempre e em todas partes conhecido, adorado, bendito, amado, servido e glorificado o diviníssimo Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria.

"Roma perderá a Fé e se tornará a sede do Anticristo"

Nossa Senhora em La Salette

Attende Domine, et miserere, quia peccavimus tibi.

Pax Domini sit semper tecum

Item 4º do Juramento Anti-modernista São PIO X: "Eu sinceramente mantenho que a Doutrina da Fé nos foi trazida desde os Apóstolos pelos Padres ortodoxos com exatamente o mesmo significado e sempre com o mesmo propósito. Assim sendo, eu rejeito inteiramente a falsa representação herética de que os dogmas evoluem e se modificam de um significado para outro diferente do que a Igreja antes manteve. Condeno também todo erro segundo o qual, no lugar do divino Depósito que foi confiado à esposa de Cristo para que ela o guardasse, há apenas uma invenção filosófica ou produto de consciência humana que foi gradualmente desenvolvida pelo esforço humano e continuará a se desenvolver indefinidamente" - JURAMENTO ANTI-MODERNISTA

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Eu conservo a MISSA TRADICIONAL, aquela que foi codificada, não fabricada, por São Pio V no século XVI, conforme um costume multissecular. Eu recuso, portanto, o ORDO MISSAE de Paulo VI”. - Declaração do Pe. Camel.

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Ao negar a celebração da Missa Tradicional ou ao obstruir e a discriminar, comportam-se como um administrador infiel e caprichoso que, contrariamente às instruções do pai da casa - tem a despensa trancada ou como uma madrasta má que dá às crianças uma dose deficiente. É possível que esses clérigos tenham medo do grande poder da verdade que irradia da celebração da Missa Tradicional. Pode comparar-se a Missa Tradicional a um leão: soltem-no e ele defender-se-á sozinho”. - D. Athanasius Schneider

"Os inimigos declarados de Deus e da Igreja devem ser difamados tanto quanto se possa (desde que não se falte à verdade), sendo obra de caridade gritar: Eis o lobo!, quando está entre o rebanho, ou em qualquer lugar onde seja encontrado".- São Francisco de Sales

“E eu lhes digo que o protestantismo não é cristianismo puro, nem cristianismo de espécie alguma; é pseudocristianismo, um cristianismo falso. Nem sequer tem os protestantes direito de se chamarem cristãos”. - Padre Amando Adriano Lochu

"MALDITOS os cristãos que suportam sem indignação que seu adorável SALVADOR seja posto lado a lado com Buda e Maomé em não sei que panteão de falsos deuses". - Padre Emmanuel

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Berços, não! Ataúdes!


O receio da prole é a falência da idéia cristã e o triunfo do paganismo. Para estabelecer a diferença entre a idéia cristã e a pagã a respeito da criança, é interessante investigar a arte clássica grega ou romana. Quão raras são as estátuas de crianças! O paganismo não dispensava cuidados à mãe e nem ao filho. Por outro lado, é no berço de uma criancinha que nasce o cristianismo, reproduzindo, eternamente, as suas mais cândidas passagens. Contemplai o quadro da Santíssima Virgem trazendo ao colo o Menino Jesus! A antigüidade não amou a criança, e uma era que se desinteressa por este mimo de Deus é uma era de paganismo.


Por Dom Tihamér Tóth




Respeito à vida da criança


Meus amados irmãos,


Dentro de alguns dias festejaremos o Natal, a vigília santa que recorda o nascimento do divino Infante. Em parte alguma essa festa traz tanta alegria como nos lares iluminados pela tagarelice inocente das crianças.


Nos dias que antecedem a noite de Natal, os pequenos rabiscam ou murmuram, antes de adormecer, o objeto dos seus sonhos, formulando-o numa ardente e humilde prece ao Menino Jesus. Eis porque, penetrando nessa alegria e anseios das crianças, a Igreja aformoseia esta cerimônia, acrescentando ao culto divino tradições ingênuas que tornam mais encantador o tempo do Natal.


Todavia, ficamos surpreendidos quando, decorridos apenas quatro dias, a Igreja apareça envolvida em luto, na ocasião de outra festa, cujo aspecto não pudera ser menos suave do que a primeira: a festa dos Santos Inocentes. Com efeito, o simples enunciado destas palavras sugere a evocação de um cortejo de criancinhas de cachos loiros, faces rosadas e olhos puros e cândidos. Quanta poesia e graça nesta magnífica visão! E a Igreja cobre-se de luto. Despe as vestes de lírio da Noite de Natal, e em vez de cobrir-se da púrpura onde crepita o triunfo dos mártires, envolve-se nos tons violáceos do luto onde a dor soluça no mistério do silêncio.


E por quê? As pequeninas almas, na envolvência da sua pureza imaculada, também prestam homenagem ao Divino Mestre! Mas estas almas não são as criancinhas da terra que vêm enfeitar o berço de Jesus; são pequeninas vítimas inocentes, cujo sacrifício revive o crime, o massacre espantoso de Herodes... e a Igreja cobre-se de luto.


O pecado de Herodes! Erro miserável, sacrifício hediondo de vidas em flor, sob pretexto de que elas vêm perturbar a tranquilidade e o repouso.


Há quanto tempo é morto Herodes! Há vinte séculos, nos estertores de uma agonia inenarrável, deixava Herodes a terra; mas o seu pecado, qual flagelo maldito, continua sua obra devastadora. Hoje, depois de vinte séculos de cristianismo, em todas as cidades, nas aldeias, em todos os recantos, encontramos Herodes em quantidade; Herodes com as mãos tingidas de sangue dos inocentes; Herodes criminosos que o mundo não percebe e por quem não experimenta a mínima repulsa. Chegam alguns até a ufanar-se de tais ignomínias.


E é certo, meus irmãos, que o seu crime será julgado com a mesma severidade que a morte dos santos inocentes de Belém. E note-se que o massacre de Herodes limitou-se apenas a uma província, ou melhor, uma aldeia, ao passo que o crime atual ultrapassa milhares de vezes o crime de Belém.


Ultrapassa o massacre de Herodes não só pelo número das vítimas como pela perversidade, pelo cinismo com que é praticado. Herodes não era pai das crianças que mandou exterminar. Herodes deu a sua ordem sob a pressão do temor; os Herodes modernos matam com um plano intencional, premeditado.


Convém, meus amados irmãos, que nos demoremos um pouco mais neste assunto, tão importante quanto grave. Ao estudar o quinto mandamento, é indispensável fazer uma indagação pormenorizada do que se pratica na sociedade. Este mandamento cogita não somente das vidas que caminham normalmente, como daquelas que abotoam almas que descem à terra pela vontade de Deus. Mais ainda: tem a missão de proteger estas últimas, vítimas do pecado de Herodes, vítimas desta “morte branca” que se alastra pelo mundo exercendo a sua ação demolidora, e que à Cátedra da Igreja pertence condenar e combater.


É impossível, meus irmãos, permanecer em silêncio; é preciso trazer a público toda a odiosidade de semelhante crime, tudo quanto tem de revoltante e perigoso; até onde se estende a gravidade da culpa e as suas funestas consequências; as escusas, as razões especiais invocadas como justificativa e as respostas da Igreja para uma questão, aliás, muito delicada.


Importância da situação


Meus amados irmãos, treze anos já são passados depois da guerra mundial. Profundamente sacudido em seus alicerces, verificou o mundo, pelas estatísticas, que as armas mortais desta luta sanguinolenta destruíram aproximadamente dez milhões de homens.


Dez milhões! Que massacre! Causa arrepio a leitura desta cifra e, no entanto, parece ninharia diante das dezenas de milhões de crianças imoladas, e que Deus chamara à existência; criancinhas que, vítimas da perversidade humana, jamais hão de possuir essa existência, por causa da violação da santidade do matrimônio (pecado contra o sexto mandamento) ou, quiçá, nem mesmo poderão entrar na vida (pecado ainda mais grave contra o quinto mandamento).


Em complemento às numerosas escolas, aos dispensários, à legislação protetora da infância, às bibliotecas pedagógicas criadas, intitulou-se orgulhosamente o nosso século [século XX] de “Século da criança”.


Século da criança, uma época em que, na surdina, se lhe move uma guerra implacável e mortal? Século da criança, uma época em que ultrapassa o do berço, o número dos ataúdes! Século da criança, uma época em que a mulher prefere o buzinar do auto ou o latir do seu cão, aos gemidos da criancinha que lhe irrita os nervos. Quanta monstruosidade no assunto que hoje devemos abordar. Foge-me a coragem para ler-vos as estatísticas; digo mal, sinto doer-me a alma.


Limitar-me-ei apenas a levar ao vosso conhecimento as pesquisas realizadas por um dos professores da Universidade [Universidade de Budapeste – Hungria, na qual Dom Tóth lecionava], e que me foram ultimamente confiadas. Em nossa mutilada e triste Hungria, três mil mães desaparecem anualmente em plena juventude, por não deixarem vir ao mundo as criancinhas que trazem no seu seio, lançando mão de meios condenáveis para suprimi-las.


Refleti, meus irmãos: três mil mães! Isso não vos parece espantoso?


Vem à lembrança a imagem de uma floresta ainda nova, onde todos os anos são abatidas três mil plantas vigorosas. E note-se que essas três mil mortes não representam o número total das perdas, porquanto, em consequência dos nascimentos impedidos desta forma, atinge a milhares o número de vidas humanas, para o futuro, destruídas.


Desejo convencer-vos, meus irmãos, da gravidade de tão nefando crime. Naturalmente sois pais, tendes um filhinho – um interessante garotinho de 6 anos ou uma encantadora loirinha de 5 anos. Tomai-os ao colo e, contemplando-os com atenção, procurai mergulhar naquelas pupilas inocentes o vosso olhar. Quanta inocência e beleza aí descobris, não é verdade? Quanto vos comove a ternura desses pequeninos que alcançam com seus bracinhos o pescoço do seu pai!


E agora, tomai de uma lâmina e mergulhai-a na sua garganta... Sim, vós o papai afetuoso, vós a mamãe tão solícita e carinhosa, decepai a cabeça do vosso filhinho. A esse pequeno ser que tanto amais, arrebatai-lhe a vida, matai-o, assassinai-o!


Causam-vos surpresa as minhas palavras?


– “É inconcebível, monstruoso o que proferis! E se existiram pais cuja perversidade chegasse a tanto, seriam denunciados logo à abominação pública, e réus da pena de morte!”.


Ah! É inconcebível, monstruoso! No entanto, pelas avenidas das cidades e até nas ruas da aldeia e nos caminhos da fazenda, esses assassinos, essas criaturas humanas, que reproduzem ou perpetuam o crime de Herodes, perambulam às centenas, arrastando uma existência torturada de remorsos. Nas sociedades mundanas, semelhante pecado é admitido, e veem-se mães que o ensinam às filhas, como medida de precaução no matrimônio; e deste modo chegamos à falência da concepção cristã do mundo.


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O receio da prole é a falência da ideia cristã e o triunfo do paganismo. Para estabelecer a diferença entre a ideia cristã e a pagã a respeito da criança, é interessante investigar a arte clássica grega ou romana. Quão raras são as estátuas de crianças! O paganismo não dispensava cuidados à mãe e nem ao filho. Por outro lado, é no berço de uma criancinha que nasce o cristianismo, reproduzindo, eternamente, as suas mais cândidas passagens. Contemplai o quadro da Santíssima Virgem trazendo ao colo o Menino Jesus! A antiguidade não amou a criança, e uma era que se desinteressa por este mimo de Deus é uma era de paganismo.


Pois, convém acrescentar, que aquele que não tem filhos alimenta instintivamente o sentido da maternidade ou paternidade, e, não logrando expandir-se com seus próprios descendentes porque não os tem, reporta o seu amor aos animais, cães, gatos, etc. Que é isso senão um desprezo quase pagão pela moral cristã?


Não vos cause equívoco o sentido das minhas palavras; não quero dizer com isso que não possamos ter cão e gato em nossa casa. De certo modo, estende-se também aos animais a ação do quinto mandamento; devemos cuidá-los não os maltratando inutilmente – eles são necessários ao lar. O que, entretanto, parece difícil de compreender, é observar seres humanos civilizados, dotados de inteligência, poderem contemplar, sem o menor sentimento de piedade, a indigência dos seus semelhantes, e terem coragem de se entregar ao desespero quando o seu gato dá um espirro ou o cão machuca uma das patas!


É inacreditável saber que de um lado gemem criaturas nas garras da fome e da miséria e ver, por outro, privilegiados da fortuna, que imbuídos na mais revoltante indiferença, levam a passeio num auto confortável o seu cão de luxo; que comemoram festivamente o aniversário do gato ou se vistam de luto fazendo alarde da sua tristeza porque lhes morreu o cãozito de estimação, o seu inesquecível cãozito! É o regresso completo à barbárie.


Berlim possui atualmente 200.000 bebês e 240.000 cães de estimação: 40.000 cães a mais do que bebês. Os cães substituem as crianças nos braços das mulheres, recebem as suas carícias, são embalados nos açafates que tomaram o lugar dos berços, e acompanham-nas nos passeios, nas viagens e nas saídas. Há em Paris um instituto de beleza para cães, onde trabalha um exército de veterinários, penteadores e massagistas. Há também, na Ile des Ravageurs, um luxuoso cemitério para cães: por entre as suas extensas alamedas, alinham-se os túmulos ornados de dedicatórias e fotografias dos defuntos lulus. E, não raras vezes, para junto à porta do cemitério, vê-se uma custosa limousine de onde salta uma elegante dama, que vem fazer uma visita e depositar sobre o túmulo do seu inesquecível “Caniche” as guloseimas de que ele tanto gostava.


Parece incrível semelhante absurdo, mas é necessário render-se à evidência diante do que presenciamos. Não há muito tempo ainda, os tribunais de Sena tiveram de se ocupar com um fato desses. Uma rica senhora da sociedade mundana tomara por hábito ir frequentemente visitar o túmulo do seu querido Fox, trazendo-lhe um finíssimo pastel; tinha impressão, dizia ela, de que o animalzinho se levantava da sepultura e vinha comer o seu bocado preferido. Aconteceu que um dia, depois de ter feito a sua visita habitual, a senhora, logo após se ter retirado, voltou de novo. Junto ao túmulo, no maior sossego, um dos zeladores do cemitério banqueteava-se com o achado. A senhora denunciou-o e o caso foi parar nos tribunais!


Que pensar, meus irmãos, desta impiedade? E que dizer quando vemos nos jornais, anúncios desta natureza: “Procura-se casal sem filhos”? Tais anúncios deveriam ser proibidos. Gestos de crueldade inaudita são também os de certos proprietários de apartamentos que impõem aos seus locatários: “Não se admite cão nem gato e nem crianças”.


Não se admite a criança! Então, família e criança, mãe e filhos são coisas que se pode separar? Haverá sobre a terra palavras mais sublimes e mais intimamente ligadas: “Um lar sem crianças é um jardim sem flores”?


Um lar sem crianças é um sino que não bimbalha. Um lar sem crianças é um pássaro emudecido. Um lar sem crianças é uma árvore estéril! O lar sem a criança é, em suma, o triunfo do paganismo.


Basta, meus irmãos. Seria inútil continuar e entrar em detalhes. Negras demais são as sombras que envolvem o quadro; antes, vejamos o desenrolar funesto das consequências irremediáveis de tão nefanda transgressão.


Consequências do atentado à vida da criança


Tornou-se tão espantoso o receio dos filhos, que chegamos à greve das mães. De como é temível esse flagelo sob o ponto de vista nacional. No que diz respeito à população, constitui um desastre igual, senão maior, à derrota de Mohács, cidade da Iugoslávia, no século XVI, ou ao tratado de Trianon após a grande guerra. Na Hungria, num total de 2.582.000 famílias, 342.000 não têm filhos; 314.000 têm um só, e 252.000 têm dois apenas. Aproximadamente a metade das famílias na Hungria foge do dever. E será possível verificar a realidade de semelhante fato? Vejamos.


Sobre as famílias que não têm filhos, nada a dizer. Todavia, onde só encontramos um filho, pelo falecimento dos pais, em lugar de dois seres permanece apenas um. A família que se resume a dois filhos também não representa lucro para o estado, visto conservar apenas a proporção já existente. O desaparecimento de dois seres velhos é preenchido por outros dois novos; daí nenhum acréscimo para o país.


Quereis que vos diga mais? Nem inimigos, nem trincheiras, nem derrotas seriam necessárias para aniquilar tais regiões; basta-lhes o seu mal; está, pois, a Hungria condenada a desaparecer. Porventura, ignorais o crescimento dos povos vizinhos? Ignorais também a grande advertência da História? A substituição dos berços pelos ataúdes marca para um povo o primeiro passo da sua decadência, do seu desaparecimento.


Conservar-nos-emos, então, insensíveis diante dessa inferioridade numérica? Haverá quem ignore a porcentagem de mentalidades de escol, inventores, sábios ou santos que as nações perdem ao sonegar a existência às crianças? Será isto ilusão? Não, é fato consumado, infelizmente constatado no campo da experiência.


Cumpre notar que os espíritos eminentes nas ciências e no progresso espiritual pertencem notadamente a famílias abençoadas de prole numerosa. E é sobremodo contristador pensar que grande número de sábios, benfeitores da humanidade e santos virão a faltar-nos em consequência do receio dos filhos. Se nos séculos passados os pais tivessem fugido ao dever nobilíssimo da família, não teríamos encontrado – para citar apenas alguns exemplos – nem Santa Catarina de Sena, que foi a 25ª filha do casal, nem São Clemente Maria Hofbauer, o apóstolo de Viena, o 12º herdeiro, nem a mimosa Santa Teresinha de Lisieux, que foi a 5ª filha. Santo Inácio de Loyola tinha 10 irmãos e irmãs, Santo Tomás de Aquino 5, São Bernardo 6.


E se nos lembrarmos daqueles homens de renome universal, encontraremos Fraunhofer, o grande físico, 10º filho; Lessing, poeta, 13º. Dentre os compositores conhecidos, Haendel foi o 10º; Haydn o 12º; Benjamin Franklin, inventor do para-raios, tinha 10 irmãos e irmãs, e assim Dürer, o gravador.


Vede, portanto, meus irmãos, em que abismo está condenada a mergulhar uma nação que suprime a criancinha; com o aniquilamento dos gênios e da sua população, está lançada a sua ruína. Sabemos qual a sorte do carvalho quando atacado pelo verme oculto e destruidor.


E se considerarmos mais seriamente o fato, o pecado não atinge somente a nação, mas também o indivíduo. O filho único sofre as consequências do seu isolamento e muito mais intensa deverá ser a dor dos seus pais.


Sim, o filho único é atingido pelo pecado em favor de quem foi cometido, pois, a fim de educá-lo com mais perfeição e conforto, já não se pode dividir a fortuna, a herança. E, por via de regra, apesar da opinião generalizada dos pais no que se refere ao aperfeiçoamento da educação do filho único, em geral, numa nação, os indivíduos portadores de mentalidade avançada, indivíduos capazes e de projeção meritória na vida, quer homens, quer mulheres, geralmente são oriundos de famílias numerosas, ao invés daquelas que têm um só filho.


Observa-se também que nas famílias numerosas, onde os progenitores são obrigados a se dividir entre os filhos, estes são mais ajuizados, cuidadosamente demonstrando maior faculdade de iniciativa. E qual o motivo? É que os senhores pais de um só filho não o educam; ao contrário, estragam-no com mimos, embalam-no, enfraquecem-no com o excesso de cuidados. Pobre criança! Talvez desejasse ardentemente ser mesmo criança; mas como? Está ainda longe o dia em que se possa atirar numa aventura; não tem um companheiro, confidente das suas pequenas alegrias ou tristezas, alguém com quem possa brincar, brigar, para integrar-se na vida; nem irmão, nem irmã que o auxilie na sua formação. Porquanto, quer brincando, quer brigando, os irmãos e irmãs, confundindo suas lágrimas e sorrisos, formam reciprocamente a sua personalidade.


Ora um auxílio, ora uma dessas concessões mútuas, essa vida em miniatura permite-lhes expandir o seu coração. Desgastam-se as arestas do gênio, os temperamentos se abrandam e educam, como os peixinhos das praias, cuja aspereza desaparece no atrito do mergulhar. Eis o que transforma tornando melhores os filhos das famílias numerosas. A vida em comum ensina-os a ser obsequiosos e tratáveis, levando-os à compreensão de que o mundo não gravita somente ao redor de sua minúscula pessoa, e que um sentimento de solidariedade deve presidir às atividades dos homens.


Por outro lado, quão triste se apresenta a vida do filho ou filha única! Privado de irmãos e irmãs, o pobrezinho vê-se na contingência de assumir precocemente a atividade de um adulto. Amadurecido antes do tempo, já é um velhinho que sabe tudo melhor do que os outros. Recolhido e alheio, até em classe é pouco simpático, e de volta ao lar não encontra a ninguém.


Pesa-lhe a solidão do ambiente, o que vem confirmar de modo incontestável a interessante estatística de um médico de Viena. Dentre cem crianças na idade de 10 anos e que não têm irmãos, disse ele, apenas treze gozam saúde, e os oitenta e sete restantes sofrem dos nervos, ao passo que, nas famílias de prole numerosa, 69% são sadios. E assim, acabamos de verificar o triste resultado da moda do “filho único” e o quanto interessa à sociedade combater essa prática nefasta.


Ademais, tal situação ainda atinge diretamente os pais se considerarmos suas relações com o próprio filho, entre o casal e para com Deus.


Com o próprio filho


É de notar-se que mais dificilmente se obtém a obediência por parte de um só filho do que de muitos. Os pais, receando o crescimento da prole, insensivelmente perdem a autoridade sobre o filho único. E isso se explica: o filho só consagra um amor incondicional aos pais quando estes dão, em relação à sua personalidade, prova de uma lisura perfeita, sem quebra da autoridade paterna.


Ora, a alma cândida da criança sente tudo isso instintivamente. Acontece-lhe perceber o menor constrangimento, a menor dissimulação, acabou-se o afeto terno e confiante.


Entre o casal


Em outro ponto, cumpre aos pais ainda refletir: a educação da criança dá, sem dúvida, muita preocupação e cuidado; entretanto, meus irmãos, traz consigo radiantes compensações.


Sem lembrar neste instante que, um dia ou outro, os pais terão necessidade da assistência de seus filhos: dias de provações sobrecarregados de amargura, desentendimentos e contratempos; dias sombrios e dolorosos em que, para a alma dos pais, não existe outro raio de esperança além do olhar do petiz que tagarela e se expande na sua inocência; dias de pena e angústia, em que a criança se transforma no anjo tutelar em guarda aos esposos que sofrem o  aparecimento de divergências, incompatibilidades, cuja força para suportar se concentra no ser pequenino, único móvel que impede o explodir dessas tempestades domésticas numa ruptura completa e definitiva.


Quão frequentes e numerosas são essas divergências entre os casais: ameaças de separação, explicações tempestuosas, faltas recíprocas de atenção – tudo isso era o pão quotidiano quando não existia o filho. Todavia, nessa casa, nesse lar, voltado à destruição, surgiu ou surgiram os filhos, e eis que se reatam os laços na iminência de se romperem.


Voltemos às estatísticas. Na metade dos casos de divórcio, dizem elas, não há filhos, e em vinte por cento há apenas um. Estas cifras representam por si só uma prova evidente de que, onde os filhos são esperados com alegria, não obstante os encargos decorrentes, o afeto dos pais se torna mais intenso, cresce a confiança mútua, e por isso mesmo constituem eles, na verdade, o vínculo mais sólido do matrimônio.


Para com Deus


E para os pais cristãos, existe uma consideração de ordem superior: a vontade de Deus. O filho é um dom de Deus, “uma bênção de Deus”, dizia-se nas épocas da fé. O advento da criança e os cuidados que reclama são uma forte abundância de merecimentos para a vida eterna. A recusa desse dom de Deus, a recusa do filho encerra uma injúria gravíssima ao Criador e ao Senhor da vida.


Não há muito tempo ainda, uma pobre mãe, entregue ao desespero, atirava-se nas águas do Danúbio arrastando consigo o filho. E este fato, publicado nos jornais, tende a repetir-se. Sem dúvida, há nisto uma falta muito grave, um duplo homicídio; entretanto, esse pequenino ser era batizado e, ao deixar a terra, foi reunir-se ao coro dos anjos.


Mas, e a imolação das crianças de hoje, desses inocentes que vão para a eternidade sem haver recebido o batismo? Segundo os princípios da nossa fé, não podem ser condenados; entretanto, para eles, fechada está a porta suprema que dá acesso à bem-aventurança eterna. Por culpa de seus pais, perderam a vida terrena. Por culpa deles ainda, perdem agora a felicidade do céu.


Por culpa de seus pais! – torno a repetir. Então, os desgraçados que cometem esse crime serão dignos do nome de pais? Será digno dispensar-lhes tal dignidade? Terão eles noção, porventura, do crime espantoso atribuído a esse pecado?


E é precisamente para demonstrar toda a sua infâmia que a Igreja qualificou-o um pecado à parte, passível de ser absolvido somente pelo bispo ou sacerdote por ele autorizado. Cedo ou tarde, entretanto, o pecador adquire a consciência dessa culpa, e aí começa o seu grande castigo sobre a terra: um remorso crescente, as exprobrações da consciência, porque a supressão da criança que devia nascer constitui verdadeiramente um homicídio no sentido bíblico da palavra. Então, soa aos ouvidos a voz do Senhor quando intima o primeiro homicida:


– “Caim, que fizeste? O sangue de teu irmão clama vingança. Maldito serás sobre a terra que ensopaste com o sangue de teu irmão. Ainda que a cultives, não dará frutos: serás errante e fugitivo sobre ela” (Gênesis IV, 10-12).


“A voz do sangue derramado!”. Que isto quer dizer, meus irmãos? A propósito, escreve Shakespeare em Macbeth: “Os perfumes mais embriagados da Arábia não conseguem arrancar das mãos do assassino o odor de sangue que delas se exala; água nenhuma lograria apagar o rubor das suas nódoas. Aqui e acolá surgem os fantasmas pálidos e ensanguentados das vítimas imoladas, enquanto que o assassino, banhado de suor gélido, clama vencido de horror: ‘Ah, venham as feras, prefiro-as a essas visões de horror!’”.


Porém, ai! Ei-las que voltam! Trevas profundas envolvem essas almas. Já não há para elas repouso, paz, vida conjugal tranquila e venturosa. Debate-se a alma nas garras do remorso. Uma coisa ainda resta para recuperar o equilíbrio: a confissão sincera. Mas ai! Como é duro curvar-se! E a alma luta e sofre! O infeliz pecador hesita! Agarra-se às pequenas coisas; dá fartas esmolas, reza durante muitas horas, faz peregrinações, geme, soluça: tudo em vão, tudo inútil, nada lhe restitui a paz do coração.


Então desgarra... Abandonando a Igreja, a crença, Deus, torna-se empedernido. Blasfemando, insulta o seu Deus, acusa, hostiliza, critica a tudo e a todos, e mesmo assim não logra encontrar a paz. Melhor fora ver em seu derredor berços repletos de crianças, que sentir sobre a consciência o peso de uma delas; tremendo é o destino de quem, numa temeridade insólita, desafia ao Deus Todo Poderoso.


*
*       *


Com este pensamento, meus irmãos, encerramos a nossa conferência de hoje, cuja extensão não me permitiu ainda esgotar tão grave assunto. Voltaremos domingo próximo [leia aqui]; pressinto ainda muitas dúvidas, pretextos e confusões, necessitando esclarecimentos. Os homens, bem o sabemos, no seu modo superficial de julgar as coisas, atribuem-lhe pouca importância, mas a História não pensa assim.


Diz-nos Nosso Senhor no quinto mandamento: “Não matarás”. A História do mundo nos ensina, por outro lado, que a civilização, a cultura, o comércio, as minas, as máquinas e a indústria, tudo isto nenhum valor representa para uma nação onde o número dos ataúdes ultrapassa o dos berços.


Meu Deus e meu Senhor, auxiliai-nos para que os povos sejam libertados desse flagelo. Não permitais que as mulheres formem a legião de Herodes. Auxiliai-nos a fim de que, fiéis ao dever, as mães gravem no seu coração as palavras do poeta:


Sabes porventura o que é uma mãe?


É a fiandeira (que tece a trama) da vida.


Queres saber também o que é a criança?


O porvir da existência!


Dize-me, então, de quem é o futuro?


Dos que tiverem vencido.


Sabes, porventura, quais são os vencedores?


A mãe e o filho! – Amém.


Dom Tihamér Tóth, Os Dez Mandamentos, Volume 2, Editora SCJ, 1945.







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