Seja por sempre e em todas partes conhecido, adorado, bendito, amado, servido e glorificado o diviníssimo Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria.

"Roma perderá a Fé e se tornará a sede do Anticristo"

Nossa Senhora em La Salette

Attende Domine, et miserere, quia peccavimus tibi.

Pax Domini sit semper tecum

Item 4º do Juramento Anti-modernista São PIO X: "Eu sinceramente mantenho que a Doutrina da Fé nos foi trazida desde os Apóstolos pelos Padres ortodoxos com exatamente o mesmo significado e sempre com o mesmo propósito. Assim sendo, eu rejeito inteiramente a falsa representação herética de que os dogmas evoluem e se modificam de um significado para outro diferente do que a Igreja antes manteve. Condeno também todo erro segundo o qual, no lugar do divino Depósito que foi confiado à esposa de Cristo para que ela o guardasse, há apenas uma invenção filosófica ou produto de consciência humana que foi gradualmente desenvolvida pelo esforço humano e continuará a se desenvolver indefinidamente" - JURAMENTO ANTI-MODERNISTA

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Eu conservo a MISSA TRADICIONAL, aquela que foi codificada, não fabricada, por São Pio V no século XVI, conforme um costume multissecular. Eu recuso, portanto, o ORDO MISSAE de Paulo VI”. - Declaração do Pe. Camel.

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Ao negar a celebração da Missa Tradicional ou ao obstruir e a discriminar, comportam-se como um administrador infiel e caprichoso que, contrariamente às instruções do pai da casa - tem a despensa trancada ou como uma madrasta má que dá às crianças uma dose deficiente. É possível que esses clérigos tenham medo do grande poder da verdade que irradia da celebração da Missa Tradicional. Pode comparar-se a Missa Tradicional a um leão: soltem-no e ele defender-se-á sozinho”. - D. Athanasius Schneider

"Os inimigos declarados de Deus e da Igreja devem ser difamados tanto quanto se possa (desde que não se falte à verdade), sendo obra de caridade gritar: Eis o lobo!, quando está entre o rebanho, ou em qualquer lugar onde seja encontrado".- São Francisco de Sales

“E eu lhes digo que o protestantismo não é cristianismo puro, nem cristianismo de espécie alguma; é pseudocristianismo, um cristianismo falso. Nem sequer tem os protestantes direito de se chamarem cristãos”. - Padre Amando Adriano Lochu

"MALDITOS os cristãos que suportam sem indignação que seu adorável SALVADOR seja posto lado a lado com Buda e Maomé em não sei que panteão de falsos deuses". - Padre Emmanuel

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O Papa Pio XII e o Tratado Teológico sobre a Igreja



“Erram, portanto, em matéria de verdade divina, os que imaginam que a Igreja seja invisível, intangível, alguma coisa meramente “pneumática”, como dizem eles, pela qual muitas comunidades cristãs, embora difiram umas das outras na profissão de fé, estejam unidas por um vínculo invisível.”


(dezembro de 1958)
Monsenhor Joseph Clifford FENTON

Na brilhante prolixidade de seus escritos e alocuções, o saudoso e amado Soberano Pontífice, o Papa Pio XII, fez importantes contribuições para muitas áreas dentro do campo da doutrina católica. Um tratado teológico, todavia, parece ter sido influenciado e aprimorado mais marcantemente do que qualquer outro por aquilo que ele escreveu e disse na qualidade de Vigário de Jesus Cristo na terra. Esse tratado é o tractatus de Ecclesia Christi.
Durante os anos iniciais do século vinte, havia mais confusão e mal-entendidos sobre a Igreja do que sobre qualquer outra realidade estudada na ciência da sagrada teologia. Três fatores foram responsáveis pela qualidade comparativamente imperfeita dos escritos populares acerca do reino de Deus na terra. Primeiro, vinha o fato de o tratado sobre a verdadeira Igreja de Jesus Cristo ter tido uma história bastante diferente da que tiveram, em sua maioria, os outros tratados individuais dentro dos confins da teologia dogmática.[1] O segundo desses fatores foi a fatídica má interpretação da terminologia utilizada no clássico De Ecclesia militante de São Roberto Belarmino, ao longo do período que vai do século dezesseis ao dezenove.[2] O último fator, e o mais importante, foi a influência de literatura religiosa superficial e popular fortemente influenciada pelo catolicismo liberal.[3]
Esses três fatores, atuando conjuntamente, produziram uma situação em que os livros religiosos de alguns autores católicos bastante influentes tendiam, durante a primeira metade do século vinte, a falar de uma espécie de super-Igreja, um Corpo Místico de Jesus Cristo de algum modo distinto da —e superior à— Igreja Católica visível presidida pelo Bispo de Roma como cabeça visível e Vigário de Nosso Senhor Jesus Cristo na terra. Basicamente, foi essa a condição que o falecido e grande Soberano Pontífice foi chamado a remediar. E, em virtude de seus escritos e alocuções de grande peso, ele cumpriu essa tarefa de modo admirabilíssimo.
Em meio às literalmente milhares de entradas nos Acta oficiais do Papa Pio XII, há centenas de documentos em que ele publicou ensinamento acerca da natureza e dignidade da Igreja Católica como a verdadeira Igreja de Jesus Cristo. Como resultado, qualquer estudo amplo dos efeitos de Pio XII no campo da eclesiologia teria de ser exprimido num volume bastante imponente. Todavia, dentre os numerosíssimos documentos que certamente teriam de ser examinados a fundo numa obra dessas, há alguns seletíssimos pronunciamentos seus que tiveram particular gravidade para todos os teólogos interessados no tratado sobre a Igreja. Ele parecia ter uma afeição especial por essas declarações. Não consigo pensar num meio mais eficaz de homenagear sua diletíssima memória, na presente edição da Revista Eclesiástica Americana, do que reunindo os mais marcantes ensinamentos dele sobre a Igreja que ele tanto amou e tão bem guiou.

Mystici Corporis Christi
Mystici Corporis Christi e a encíclica subsequente, Humani Generis, bem podem entrar para a história como os dois mais importantes pronunciamentos doutrinais emitidos pelo Papa Pio XII durante o curso de seu longo e glorioso reinado como o Vigário de Cristo na terra. Ambas exerceram uma influência reguladora extraordinariamente poderosa no interior do tractatus de Ecclesia Christi.
O Papa Pio XII promulgou a Mystici Corporis Christi em 29 de junho de 1943. A primeira e mais fundamental contribuição feita por ela ao pensamento católico sobre a Igreja está contida na seguinte sentença:
“A fim de definir e de descrever esta verdadeira Igreja de Jesus Cristo —que é a Una, Santa, Católica, Apostólica Romana Igreja—, nada encontraremos que seja mais nobre, ou mais sublime, ou mais divino do que a expressão “o Corpo Místico de Jesus Cristo”; expressão esta que brota, e é como a fina flor, do reiterado ensinamento das Sagradas Escrituras e dos Santos Padres.”[4]
Depois dessa declaração forte e superlativamente clara, não poderia haver nem sombra de desculpa para qualquer tática que tendesse a descrever o Corpo Místico de Nosso Senhor como de qualquer modo distinto da —ou superior à— Igreja Católica visível, a sociedade religiosa sobre a qual o Vigário de Cristo governa como o cabeça visível. A expressão “Corpo Místico de Cristo” se mostra, nesse pronunciamento retumbante de Pio XII, como a descrição e mesmo como a definição da Una, Santa, Católica e Apostólica Romana Igreja. A Mystici Corporis dá então o golpe de misericórdia nos ensinamentos de que a verdadeira Igreja de Jesus Cristo seja outra coisa que não uma sociedade visível e verdadeiramente organizada neste mundo; ela o faz através do seguinte pronunciamento:
“Erram, portanto, em matéria de verdade divina, os que imaginam que a Igreja seja invisível, intangível, alguma coisa meramente “pneumática”, como dizem eles, pela qual muitas comunidades cristãs, embora difiram umas das outras na profissão de fé, estejam unidas por um vínculo invisível.”[5]
De igual maneira, esta grandiosa carta encíclica reprova o erro e a confusão ínsitos nos escritos daqueles católicos que ensinaram a existência de uma dúplice Igreja de Deus neste mundo:
“Por essa razão, Nós deploramos e condenamos o erro pernicioso dos que sonham uma Igreja imaginária, espécie de sociedade que tenha origem e crescimento na caridade e à qual, um tanto desdenhosamente, eles opõem uma outra, que chamam de jurídica. Mas essa distinção que introduzem é falsa; pois falham em entender que a razão que levou nosso Divino Redentor a dar à comunidade de homens que Ele fundou a constituição de uma Sociedade, perfeita em seu gênero e contendo todos os elementos jurídicos e sociais —a saber, a fim de que Ele perpetue na terra a obra salvífica da Redenção—, foi também a razão pela qual Ele a quis enriquecida com os dons celestes do Paráclito.”[6]
Finalmente, o Papa Pio XII, ao redigir a Mystici Corporis Christi, manifestou a verdade de que a Igreja Católica visível é realmente o Corpo Místico de Jesus Cristo, a verdadeira Igreja de Deus de que falam as Escrituras, quando ele sublinhou o fato de que os membros da Igreja Católica reconhecíveis como tais —ou, noutras palavras, os membros da Igreja Católica visível— são os verdadeiros e únicos membros da verdadeira Igreja. Ele escreveu:
“Realmente só devem ser contados (annumerandi) como membros da Igreja aqueles que foram batizados e que professam a verdadeira fé, e que não tiveram a miséria de se separar da unidade do Corpo (neque a Corporis compage semet ipsos misere separarunt) nem foram dele excluídos pela legítima autoridade por graves faltas cometidas.”[7]
Outro ponto magnificamente esclarecido pelo finado Soberano Pontífice no texto da Mystici Corporis Christi foi o ensinamento sobre a necessidade da Igreja Católica para alcançar a eterna salvação. A seguinte passagem administra preciosa instrução sobre a situação dos que estejam ligados à verdadeira Igreja por uma intenção ou desejo meramente implícito ou inconsciente de entrar nesta sociedade.
“Como sabeis, Veneráveis Irmãos, desde o princípio do Nosso Pontificado Nós confiamos à proteção e ao governo do Céu aqueles que não pertencem ao visível Corpo da Igreja Católica (qui ad adspectabilem, non pertinent Catholicae Ecclesiae compagem), declarando solenemente que, a exemplo do Bom Pastor, Nós nada desejamos mais ardentemente do que isto: que eles tenham vida, e vida em maior abundância. Implorando as orações de toda a Igreja, Nós desejamos repetir essa solene declaração nesta Carta Encíclica na qual Nós proclamamos os louvores do “grande e glorioso Corpo de Cristo”, e, com um coração transbordante de amor, Nós convidamos cada um e todos eles a corresponder às moções interiores da graça e procurar sair desse estado em que não podem estar seguros de sua própria salvação (in quo de sempiterna cuiusque propria salute securi esse non possunt). Pois ainda que por um desejo e anseio inconsciente (inscio quodam desiderio ac voto) tenham uma certa relação (ordinentur) com o Corpo Místico do Redentor, ainda assim permanecem carentes daqueles muitos dons e auxílios celestes que só podem ser desfrutados na Igreja Católica. Portanto, entrem na unidade católica e, unidos conosco no único, orgânico Corpo de Jesus Cristo (in una Iesu Christi Corporis compagine coniuncti), possam junto de Nós confluir para o único Cabeça na Sociedade do amor glorioso. Perseverando em oração ao Espírito de amor e verdade, Nós aguardamos de braços bem abertos que venham para a casa não de um estranho, mas para a sua própria, o lar de seu pai.”[8]
Há outro item importante sobre o qual a Mystici Corporis Christiprofere decisão doutrinal. Previamente à promulgação da encíclica, os teólogos católicos tinham debatido acerca de se os bispos residenciais da Igreja Católica derivavam o poder de jurisdição deles imediatamente de Nosso Senhor, ou então d’Ele por intermédio do Romano Pontífice. Nesse documento, o Papa Pio XII aproveitou a oportunidade para tratar do poder de jurisdição dos Bispos e o descreveu como algo “que eles recebem diretamente (immediate) do mesmo Sumo Pontífice.”[9] Na edição de suas Institutiones Iuris Publici Ecclesiastici que saiu à luz após a promulgação da Mystici Corporis Christi, o Cardeal Ottaviani não perdeu o ensejo de declarar que esse ensinamento, que tinha sido considerado, até então, como o mais provável ou mesmo como doutrina comum, agora necessita de ser aceito como dotado de inteira certeza, em razão das palavras do Soberano Pontífice Pio XII.[10]

Humani Generis
Erros doutrinais que eram ensinados ou no mínimo vistos com bons olhos nalguns círculos católicos depois do encerramento da segunda guerra mundial foram assinalados e reprovados na carta encíclicaHumani Generis, datada de 12 de agosto de 1950. Tal como o Juramento contra os Erros do Modernismo, contido na Sacrorum Antistitum de São Pio X, a Humani Generis lidou principalmente com erros que se opunham ao ensinamento que se encontra na constituição dogmática Dei Filius do Concílio Vaticano. Assim, boa parte do material exposto na Humani Generis diz respeito a introdução à sagrada teologia e a outros loci theologici além da Igreja. Alguns dos ensinamentos mais preciosos dessa encíclica, todavia, referem-se diretamente ao tractatus de Ecclesia.
A mais importante contribuição específica feita na Humani generis à eclesiologia diz respeito ao magistério da Igreja. Nessa encíclica, o Papa Pio XII recordou aos estudiosos católicos que “em matérias de fé e costumes este sagrado magisterium deve ser o critério de verdade próximo e universal para todos os teólogos, visto que a ele foi confiado por Cristo Nosso Senhor o inteiro depósito da fé —Sagrada Escritura e Divina Tradição— para ser preservado, resguardado e interpretado.”[11] Lembrou também os estudantes católicos do dever deles “de fugir também daqueles erros que em maior ou menor medida se aproximam da heresia”, e por conseguinte [do dever deles] “de observância também das constituições e decretos pelos quais tais opiniões perversas são proscritas e proibidas pela Santa Sé.”[12]
Especialmente, ele ensinou acerca da autoridade das cartas encíclicas e outros atos do magistério ordinário do Soberano Pontífice.
“Nem se deve pensar que o que é exposto em Cartas Encíclicas não exija, por si, o consentimento, porque os Papas não exerçam nelas o supremo poder de sua autoridade de ensinar (assensum per se non postulare, cum in iis Pontifices supremam sui Magisterii potestatem non exerceant). Pois essas coisas são ensinadas com a autoridade docente ordinária, da qual também é verdadeiro dizer: “Quem vos ouve a mim ouve”; e geralmente o que é exposto e inculcado nas Cartas Encíclicas, já por outras razões pertence à doutrina católica. Ora, se os Romanos Pontífices em seus documentos oficiais (in actis suis) pronunciam de caso pensado um juízo em matéria até então disputada, é óbvio que essa matéria, segundo a intenção e vontade dos mesmos Pontífices, já não pode mais ser considerada questão aberta à discussão entre os teólogos.”[13]
Na Humani Generis, o pranteado Santo Padre viu-se forçado a protestar contra a rejeição da tese central da Mystici Corporis Christipor alguns escritores dentro do redil católico. Assinalou também a existência de ensinamentos inadmissíveis sobre outro ponto da doutrina católica acerca da verdadeira Igreja.
“Alguns dizem que não estão obrigados pela doutrina, explicada em Nossa Carta Encíclica de poucos anos atrás e baseada nas fontes da Revelação, que ensina que o Corpo Místico de Cristo e a Igreja Católica Romana são uma só e mesma coisa. Reduzem alguns a uma fórmula vazia a necessidade de pertencer à verdadeira Igreja para obter a eterna salvação.” [14]

Suprema Haec Sacra
Um ano antes da publicação da Humani Generis, a Suprema Sagrada Congregação do Santo Ofício enviou ao Revmo. Arcebispo de Boston uma carta contendo explicações a respeito do dogma de que ninguém pode ser salvo fora da Igreja Católica. Esse documento sumamente importante foi aprovado pelo Papa Pio XII. Não obstante o fato de ter sido enviado antes da promulgação da Humani Generis, foi publicado apenas dois anos depois da publicação da encíclica. Esta Carta do Santo Ofício é a Suprema Haec Sacra, uma das mais importantes declarações doutrinais que saíram à luz durante o reinado do falecido e amado Soberano Pontífice.[15] [15bis]
Este documento expôs com clareza e detalhadamente, e como ensinamento autêntico da Santa Sé, a explanação do dogma sobre a necessidade da Igreja Católica para obtenção da salvação eterna que vinha sendo apresentada já fazia tempo como doutrina comum no ensinamento teológico sobre a Igreja mesma. Os elementos da exposição contida na Suprema Haec Sacra já tinham sido, é claro, expostos desde há muito aos fiéis em prévias declarações autoritativas do magistério da Igreja. A inteira doutrina, contudo, nunca fora antes sintetizada e apresentada tão claramente e com tal minúcia científica completa, em nenhum documento anterior.
Suprema Haec Sacra reiterou novamente o fato de que a declaração “fora da Igreja não há salvação” é uma afirmação infalível que a Igreja sempre pregou e jamais cessará de pregar, e qualificou essa proposição como dogma. Explicou que a Igreja entendia esse dogma no sentido de que a Igreja é necessária à obtenção da eterna salvação com, ambas, necessidade de preceito e necessidade de meio. Ensinou, além disso, que a Igreja era um meio de salvação a ser classificado entre aqueles quae divina sola institutione, non vero intrinseca necessitate, ad finem ultimum ordinantur [“que se ordenam ao fim último do homem não por necessidade intrínseca, mas somente por instituição divina” – ndt], e que por isso, sob certas circunstâncias, a salvação pode ser alcançada quando a Igreja mesma é utilizada ou adentrada voto solummodo vel desiderio [“unicamente por voto ou desejo” – ndt]. Salientou, uma vez mais, o ensinamento católico de que em casos nos quais os homens estejam invencivelmente ignorantes da verdadeira Igreja, “Deus também aceita um implícito desejo (votum), assim chamado por estar incluído naquela boa disposição de alma pela qual uma pessoa deseja que a sua vontade esteja conforme à vontade de Deus.”[16]
A porção estritamente doutrinal da Suprema Haec Sacra conclui-se com este ensinamento essencial:
“Mas não se deve pensar que é suficiente qualquer espécie de desejo de entrar na Igreja, para alguém ser salvo. É necessário que o desejo pelo qual alguém está ligado à Igreja seja animado de perfeita caridade. Nem, tampouco, um desejo implícito pode produzir o seu efeito caso a pessoa não possua a fé sobrenatural: “Pois aquele que se aproxima de Deus deve crer que Deus existe e é remunerador daqueles que O procuram” (Hebreus, 11, 6). O Concílio de Trento declara (Sessão VI, cap. 8): “A fé é o início da salvação do homem e o fundamento e raiz de toda justificação; sem ela, é impossível de agradar a Deus e de chegar à irmandade de Seus filhos” (Denzinger, n. 801).[17]

Ci Riesce
Ci Riesce é uma alocução proferida pelo Papa Pio XII em 6 de dezembro de 1953 à convenção nacional da Unione dei Giuristi Cattolici Italiani, em audiência com o Santo Padre. A primeira seção desse documento trata da natureza e das propriedades de uma comunidade jurídica internacional de Estados soberanos. Não tem relevância imediata para o tratado teológico de Ecclesia Christi. A segunda seção analisa e dá a solução de um casus moralis com que os homens de estado católicos e os estados católicos podem se deparar em razão de possíveis ações futuras de uma comunidade internacional. Essa parte da Ci Riesce decidiu autoritativamente diversas questões que vinham sendo disputadas no decorrer de uma discussão sobre Igreja e Estado levada adiante por teólogos católicos previamente ao pronunciamento da alocução.
Um artigo no fascículo de fevereiro de 1954 de The American Ecclesiastical Review assim resume o efeito da Ci Riesce sobre certos pontos que foram previamente debatidos entre teólogos aqui nos E.U.A.:
(1) A alocução emprega o termo “Stato cattolico”. Com efeito, o conceito de estado Católico é uma das noções chave utilizadas nesse documento. O termo é aplicado aos estados modernos, a sociedades civis que terão relações com uma comunidade internacional e jurídica de estados soberanos. Portanto, pareceria ocioso sustentar no futuro que esse termo seja inepto, ou que só possa se referir legitimamente a sociedades civis ou reinos de tempos passados.
(2) A alocução assevera que “aquilo que não corresponde à verdade e aos critérios morais não tem, objetivamente, direito algum de existir, de ser ensinado ou de ser feito”. Como resultado podemos esperar que, no futuro, não haverá objeções incitadas contra o ensinamento ou a terminologia dos escritores que mantêm que, de si mesmo, o erro não tem direitos. Incidentalmente, é interessante notar que o Cardeal Ottaviani, no seu artigo na edição de maio de 1953 de The American Ecclesiastical Review[17bis], comentou desfavoravelmente a prática de objetar ao tipo de asserção que agora aparece nesta alocução pontifícia.
(3) Certamente já não é viável reprovar o ensinamento segundo o qual, objetivamente, uma completa separação entre Igreja e Estado é um mal. Pareceria igualmente que, doravante, se reconhecerá a legitimidade das explicações [acerca das relações] entre Igreja e Estado em termos de tese e hipótese.[18]

Si Diligis
Si Diligis é a alocução proferida pelo Papa Pio XII em 31 de maio de 1954 aos Cardeais, Arcebispos e Bispos que estavam presentes em Roma para a canonização de São Pio X. Contém uma magnífica explicação sobre a relação do Soberano Pontífice e dos outros membros do colégio apostólico com os homens que eles empregam para auxiliá-los na obra deles de instruir os fiéis. Como tal, ela trouxe esclarecimentos necessários a uma parte do tratado teológico sobre a Igreja de Cristo.
“Cristo Nosso Senhor confiou a verdade que Ele trouxera do Céu aos Apóstolos, e por meio deles aos seus sucessores. Ele enviou Seus Apóstolos, tal como Ele fora enviado pelo Pai (João, 20, 21), para ensinarem a todas as nações tudo o que d’Ele tinham ouvido (cf.Mateus, 28, 19s.). Os Apóstolos são, portanto, por direito divino os verdadeiros doutores e docentes na Igreja. Além dos legítimos sucessores dos Apóstolos —a saber: o Papa, quanto à Igreja Universal, e os Bispos, quanto aos fiéis confiados aos cuidados deles (cf. cân. 1326)—, não existem outros mestres divinamente constituídos na Igreja de Cristo. Mas tanto os Bispos como, acima de tudo, o Supremo Docente e Vigário de Cristo na terra podem associar outros a si próprios na sua obra de ensinantes, e usar o conselho deles; delegam a estes a faculdade de ensinar, quer por concessão especial ou conferindo um ofício ao qual essa faculdade esteja atrelada (cf. cân. 1328). Aqueles que são assim chamados não ensinam em seu próprio nome, nem em razão de seu conhecimento teológico, mas em razão do mandato que receberam da legítima Autoridade Docente. A faculdade deles permanece sempre sujeita àquela Autoridade, nem jamais é exercida ‘sui juris’ [por seu próprio direito] ou independentemente. Os Bispos, por sua vez, ao conferirem essa faculdade não ficam privados do direito de ensinar; conservam a gravíssima obrigação de supervisionar a doutrina que os outros propõem, para ajudá-los e garantir a integridade e segurança dela. Por isso, a legítima Autoridade Ensinante da Igreja não é culpada de qualquer lesão ou ofensa a qualquer um daqueles a quem ela deu missão canônica, se ela desejar averiguar o que é que eles, a quem ela confiou a missão de ensinar, estão propondo ou defendendo nas suas lições orais, livros, notas e resenhas para uso de seus alunos, bem como nos livros e outras publicações voltadas para o público geral.”[19] [19bis]
Previamente à promulgação da Si Diligis, havia uma tendência por parte de alguns escritores populares no campo da religião a imaginar que a qualquer momento qualquer um podia se apresentar como professor de doutrina cristã no seio da Igreja Católica. A alocução magistral pronunciada pelo Papa Pio XII efetivamente deu cabo desse erro pernicioso.

A Carta sobre a Caridade Fraterna Dentro da Igreja
e Dentro do Sacerdócio

As contribuições ao tractatus de Ecclesia Christi feitas pelo Papa Pio XII nas suas cartas e nas suas alocuções foram muitas e excelentes. Aquela que, para este escritor, parece a maior de todas elas veio em forma de uma carta, redigida sob a direção do Soberano Pontífice por Monsenhor Dell’Acqua, ao Cardeal Elia Dalla Costa, Arcebispo de Florença. Essa carta visava orientar a VII Settimana Sociale di Aggiornamento Pastorale. Foi datada de 3 de julho de 1957 e publicada no Osservatore Romano, edição de 4 de agosto do ano passado [1957].
O tema central do encontro para o qual a carta foi enviada era “A Caridade na Comunidade Cristã”. O Papa Pio XII chamou-o de “um tema que é, a uma só vez, o mais elevado e o mais relevante para a renovação cristão da sociedade”.[20] Nos comentários dele sobre o tema, ele lembrou vigorosamente aos seus leitores a função essencial da caridade dentro da Igreja.
Primeiro que tudo, insistiu que a única caridade genuína no interior da comunidade cristã “é a virtude teologal da caridade, a qual tem como objeto a Deus mesmo, que é ‘Caridade’ e ‘Amor’ infinito e digno de ser amado por Si mesmo e acima de todas as coisas.”[21] Ele mostrou que basicamente e essencialmente o amor de caridade que deve existir e operar dentro da comunidade cristã é esse amor sobrenatural de amizade para com o Deus Triuno, que primeiro nos amou tão enternecidamente. Em seguida, indicou ele o fato de que essa caridade para com Deus deve carregar consigo um amor uns pelos outros na sociedade dos discípulos de Nosso Senhor.
“O amor infinito com que Deus ama a Si Mesmo no inefável mistério da Trindade é manifestado a nós por meio do Verbo Encarnado, que nos deu o novo mandamento de nos amarmos uns aos outros como Deus nos amou.
Antes mesmo da Última Ceia e da Paixão, Jesus recordara que o preceito do amor a Deus devia ser integrado com o do amor ao próximo. Após ter afirmado o primado do amor a Deus, disse Ele: “O segundo [mandamento] é semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Ora, no discurso depois da Última Ceia, falando do “novo mandamento”, Ele deu uma explicação mais precisa e profunda dos termos. “Como o Pai me amou, assim eu vos amei”; “Nisto todos os homens conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros”.”[22]
Quando lemos o Novo Testamento atentamente, logo ficamos cientes do fato de que o mandamento mais frequentemente e vigorosamente imposto aos membros da Igreja pelo próprio Nosso Senhor e pelos escritores inspirados foi o preceito de amarmos uns aos outros. De fato, como o Santo Padre ressaltou, esse mútuo amor de caridade dentro da Igreja foi proposto pelo próprio Nosso Senhor como prova de discipulado. Os discípulos receberam instrução e ordem de perdoarem uns aos outros, de suportarem uns aos outros e de buscarem o perdão uns dos outros. Deviam pôr de lado tudo aquilo que fosse obstáculo ao mútuo amor de caridade entre eles.
No entanto, quando o estudante contemporâneo lê o tratado sobre a Igreja (ou, a propósito, o tratado de caritate na teologia moral), encontra pouco ou nada acerca dessa conexão intimíssima entre a caridade sobrenatural e a vida da Igreja. O tractatus de caritate fala da necessidade de um amor de caridade pelo próximo, mas não indica o fato de que o “novo” mandamento de Nosso Senhor, do amor mútuo entre Seus discípulos, foi uma explicação mais profunda e mais precisa da segunda lei da caridade. O tractatus de Ecclesia menciona a caridade como pertencente ao elo interior de união dentro da Igreja, mas ordinariamente não cuida de ressaltar que a Igreja mesma é uma sociedade de homens e mulheres que Deus mesmo quis que tivessem um amor especial e fraterno uns aos outros em virtude mesma de sua afeição por Ele.
A carta ao Cardeal Dalla Costa recordou aos homens de nosso tempo o lugar preeminente da mútua caridade entre os membros da Igreja Católica. Em última análise, essa carta mostrou a obrigação e a necessidade da caridade fraterna entre os sacerdotes da Igreja Católica. A caridade fraterna que Deus manda e que Ele espera dentro do sacerdócio católico é apenas o despontar e o centro do amor fraterno mútuo que deve existir entre todos os membros da verdadeira Igreja.
Em nossos tempos mesmos, tem havido uma tendência manifesta, e amplamente disseminada, a ignorar a verdade central enfatizada nesta carta. Foi quiçá a coroação das conquistas do Papa Pio XII insistir fortemente no fato de que o “novo” mandamento do Salvador de que Seus discípulos amem uns aos outros é, essencialmente, apenas a aplicação mais precisa e mais profunda, ao interior do Corpo Místico, do segundo preceito da divina caridade.
* * * * *
Em 1956, o Pe. Domenico Bertetto editou um volume intitulado Il magistero Mariano di Pio XII.[23] É uma obra de 1.015 páginas, que cita in extenso aquelas seções dos Acta de Pio XII relacionadas à doutrina e à devoção referentes a Nossa Senhora. Até aos primeiros meses de 1956, havia 910 pronunciamentos desses, dignos de menção. Quem quer que esteja familiarizado, ainda que de maneira superficial, com as contribuições do falecido Soberano Pontífice ao tratado teológico de Ecclesia Christi sabe muito bem que uma obra desse tipo (ainda que não necessariamente uma obra tão volumosa quanto o livro do Padre Bertetto) seria necessária para fazer plena justiça ao que Pio XII ensinou acerca do reino de Deus na terra.
Declarações proveitosas e esclarecedoras acerca da natureza e das propriedades da Igreja de Nosso Senhor abundam em muitos dos documentos emitidos pelo Papa Pio XII. Pareceria, contudo, que os esclarecimentos mais importantes e mais urgentemente necessários que ele fez podem ser encontrados nos documentos mencionados no decorrer deste breve tributo. Principalmente em razão das declarações contidas nestes documentos, é que a tarefa de ensinar o tratado teológico sobre a Igreja foi favorecida no decorrer de seu longo e glorioso reinado como Vigário de Cristo na terra.
Aqueles de nós que fomos privilegiados de ensinar o tractatus de Ecclesia Christi durante todo o pontificado do Papa Pio XII sabemos por experiência o quão brilhantemente e eficazmente ele contribuiu para o avanço dos estudos clericais nesse campo. Com sua clara afirmação da doutrina católica e seu vigoroso repúdio de ensinamentos extravagantes sobre o tema, ele fez progredir a causa da verdade revelada de Deus como poucos homens fizeram antes dele.

Notas
1. Cf. Fenton, The Catholic Church and Salvation [A Igreja Católica e a Salvação] (Westminster, Maryland: The Newman Press, 1958), pp. 165-70.
2. Cf. ibid., pp. 171-88.
3. A tendência chamada de “catolicismo liberal” se baseia no indiferentismo religioso e envolve oposição aos dogmas da necessidade da verdadeira fé e da verdadeira Igreja para alcançar a eterna salvação. Cf. “The Components of Liberal Catholicism” [Os integrantes do catolicismo-liberal], in AER, CXXXIX, 1 (jul., 1958), 36-53.
4. Tradução da NCWC [= National Catholic Welfare Council, embrião da Conferência Nacional dos Bispos dos E.U.A. – ndt], n. 13.
5. Ibid., n. 14.
6. Ibid., n. 65.
7. Ibid., n. 22.
8. Ibid., n. 103.
9. Ibid., n. 42.
10. Cf. Ottaviani, Institutiones Iuris Publici Ecclesiastici, 3ª. ed. (Typis Polyglottis Vaticanis, 1947), I, 413; e Fenton, “The Doctrinal Authority of Papal Encyclicals”, in AER, CXXI, 2, 3 (ag., set., 1949), 136-50; 210-20 [respectivamente, parte I e parte II de “A Autoridade Doutrinal das Encíclicas Papais”, trad. br. no blog Acies Ordinata de 27 dez. 2013 (“wp.me/pw2MJ-2aL”) e 6 abr. 2015 (“wp.me/pw2MJ-2×9”). – Ndt].
11. Cf. tradução da NCWC, n. 18.
12. Cf. ibid. Nesta passagem o Papa Pio XII usou as palavras que o Concílio do Vaticano anexou como apêndice aos cânons referentes à Constituição Dei Filius. Cf. Denz., 1820.
13. Tradução da NCWC, n. 20.
14. Ibid., n. 27.
15. O texto original em latim e a tradução oficial em inglês desse documento se encontram em AER, CXXVII, 4 (out., 1952), 307-15.
[15bis. (Ndt) Há tradução em português da íntegra da Suprema Haec Sacra no blog Acies Ordinata, no endereço: “wp.me/pw2MJ-2np”; faz parte do artigo de set. 2014 do Pe. Hervé Belmont traduzido aqui em 26 de janeiro último, sob o título: “Por que e como o Santo Ofício fulminou com excomunhão em 13 fev. 1953 o Pe. Leonard Feeney”.]
16. Ibid., 313.
17. Ibid., 314.
[17bis. (Ndt) Em português esse artigo, intitulado “Deveres religiosos do Estado Católico”, foi publicado na edição de jul.-ag. 1953 da revista Vozes de Petrópolis (vol. 11, fasc. 4, p. 350-67) e depois na de set. 1953 da Revista Eclesiástica Brasileira (vol. 13, fasc. 3, p. 537-54). Foi transcrito online em 5 out. 2011 no blog Acies Ordinata, no endereço: “wp.me/pw2MJ-10O”; cf. também aqui a trad. br. de 18 out. 2011 do artigo de Mons. Di Meglio publicado na edição de jun. 1954 da American Ecclesiastical Review: “Ci Riesce e o Discurso do Cardeal Ottaviani”, em: “wp.me/pw2MJ-11Q”.]
18. “The Teachings of the Ci riesce” [“Os Ensinamentos da Ci Riesce”], in AER, CXXX, 2 (fev., 1954), 114-23. A passagem citada se acha nas pp. 122 s.
19. O texto e a tradução em inglês da Si Diligis são trazidos pela AER, CXXXI, 2 (agosto, 1954), 127-37. A passagem citada está nas pp. 133 s.
[19bis. (Ndt) A tradução da Si Diligis em português pelos Serviços de Imprensa da Rádio Vaticano foi publicada no vol. 109 da coleção Documentos Pontifícios da editora Vozes de Petrópolis (na 2ª. ed., de 1955, p. 3-9), seguida de sua prometida continuação, a alocução Magnificate Dominum de 2 de novembro de 1954 (p. 9-24), reunidas ambas sob o título “Sobre o Tríplice Poder da Hierarquia Eclesiástica: duas Alocuções”, volume que se acha transcrito onlineno site da Fraternidade S. Pio X no Brasil: “fsspx.com.br/alocucoes-sobre-o-triplice-poder-da-hierarquia-eclesiastica/”.]
20. A tradução em inglês dessa carta é trazida por AER, CXXXVII, 4 (out., 1957), 274-80. A citação é da p. 275.
21. Ibid.
22. Ibid., 275 s.
23. Esse livro foi publicado pelas Edizioni Paoline de Turim.

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S U M Á R I O

[Introdução]
Mystici Corporis Christi
Humani Generis
Suprema Haec Sacra
Ci Riesce
Si Diligis
A Carta sobre a Caridade Fraterna
Dentro da Igreja e Dentro do Sacerdócio
[Conclusão]
Notas

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PARA CITAR ESTA TRADUÇÃO:
Mons. Joseph Clifford FENTON, O Papa Pio XII e o Tratado Teológico sobre a Igreja, dez. 1958; trad. br. por F. Coelho, São Paulo, abr. 2015, blogue Acies Ordinatahttp://wp.me/pw2MJ-2yg
de: “Pope Pius XII and the Theological Treatise on the Church”, in: The American Ecclesiastical Review 139 (dez. 1958) 407-419.
Cf. “catholicculture.org/culture/library/view.cfm?recnum=5086”.

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