Seja por sempre e em todas partes conhecido, adorado, bendito, amado, servido e glorificado o diviníssimo Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria.

"Roma perderá a Fé e se tornará a sede do Anticristo"

Nossa Senhora em La Salette

Attende Domine, et miserere, quia peccavimus tibi.

Pax Domini sit semper tecum

Item 4º do Juramento Anti-modernista São PIO X: "Eu sinceramente mantenho que a Doutrina da Fé nos foi trazida desde os Apóstolos pelos Padres ortodoxos com exatamente o mesmo significado e sempre com o mesmo propósito. Assim sendo, eu rejeito inteiramente a falsa representação herética de que os dogmas evoluem e se modificam de um significado para outro diferente do que a Igreja antes manteve. Condeno também todo erro segundo o qual, no lugar do divino Depósito que foi confiado à esposa de Cristo para que ela o guardasse, há apenas uma invenção filosófica ou produto de consciência humana que foi gradualmente desenvolvida pelo esforço humano e continuará a se desenvolver indefinidamente" - JURAMENTO ANTI-MODERNISTA

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Eu conservo a MISSA TRADICIONAL, aquela que foi codificada, não fabricada, por São Pio V no século XVI, conforme um costume multissecular. Eu recuso, portanto, o ORDO MISSAE de Paulo VI”. - Declaração do Pe. Camel.

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Ao negar a celebração da Missa Tradicional ou ao obstruir e a discriminar, comportam-se como um administrador infiel e caprichoso que, contrariamente às instruções do pai da casa - tem a despensa trancada ou como uma madrasta má que dá às crianças uma dose deficiente. É possível que esses clérigos tenham medo do grande poder da verdade que irradia da celebração da Missa Tradicional. Pode comparar-se a Missa Tradicional a um leão: soltem-no e ele defender-se-á sozinho”. - D. Athanasius Schneider

"Os inimigos declarados de Deus e da Igreja devem ser difamados tanto quanto se possa (desde que não se falte à verdade), sendo obra de caridade gritar: Eis o lobo!, quando está entre o rebanho, ou em qualquer lugar onde seja encontrado".- São Francisco de Sales

“E eu lhes digo que o protestantismo não é cristianismo puro, nem cristianismo de espécie alguma; é pseudocristianismo, um cristianismo falso. Nem sequer tem os protestantes direito de se chamarem cristãos”. - Padre Amando Adriano Lochu

"MALDITOS os cristãos que suportam sem indignação que seu adorável SALVADOR seja posto lado a lado com Buda e Maomé em não sei que panteão de falsos deuses". - Padre Emmanuel

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Panegírico de São Francisco de Assis

São Francisco - Caravaggio 1606
"Sublime e celeste loucura de São Francisco, que lhe faz colocar as suas riquezas na pobreza, as suas delícias nos sofrimentos, a sua glória na humilhação."

Bossuet
(Pregado em Metz no dia 4 de outubro de 1665)
Si quis videtur inter vos sapiens esse in hoc saeculo, stultus Fiat ut sit sapiens.
"Se no meio de vós há alguém sábio segundo o século, faça-se louco para ser sábio" (1Cor 3, 18).
O Salvador Jesus Cristo, cristãos, deu um amplo assunto de discussão, ainda que de modo bem diverso, a quatro sorte de pessoas: aos judeus, aos gentios, aos hereges e aos fiéis. Os judeus, preocupados com essa opinião mal fundada do Messias vir ao mundo com pompa real, prevenidos por essa falsa crença, aproximam-se do Salvador. Viram-no reduzido à mais completa simplicidade, sem nada do que impressiona os sentidos, um pobre homem sem fausto e sem glória: desprezaram-no. “Jesus lhes era um escândalo: Judaeis quidem scandalum, diz o grande apóstolo[2]. Os gentios por sua vez, que se tinham por autores e senhores da boa filosofia, e que, desde longos séculos, viram brilhar no meio deles os espíritos mais célebres do mundo, quiseram examinar a Jesus Cristo segundo as máximas recebidas pelos sábios da terra. Mas, ouvindo falar de um Deus feito homem, que vivera miseravelmente, que fora pregado em uma cruz, fizeram dele um objeto de escárnio. “Jesus foi para eles uma loucura,” Gentibus autem stultitiam, continua São Paulo.
Após estes vieram outros homens, chamados na Igreja maniqueus e marcionitas, todos dissimulando ser cristãos. Comovidos pelas terríveis investidas dos gentios contra o filho de Deus, quiseram defendê-lo dos insultos desses idólatras, mas de um modo contrário aos desígnios da bondade divina sobre nós. Essas fraquezas do nosso Deus, pusillitates Dei, como um antigo as chamava[3], pareceram-lhes vergonhosas para declará-las francamente. Ao invés dos gentios que as exageravam para servir-lhes de objeto de escárnio, estes procuravam dissimular, esforçando-se para diminuir alguma coisa dos opróbrios do Evangelho tão úteis à nossa salvação. Pensavam, com os gentios e com os judeus, ser indigno de um Deus tomar uma carne como a nossa, e sujeitar-se a tantos sofrimentos. Para escusar essas humilhações, sustentavam que o seu corpo era imaginário, e, por conseguinte, o seu nascimento, a sua paixão e morte eram fantásticos e ilusórios, em uma palavra, toda a sua vida não fora senão uma representação sem realidade. As verdades de Jesus eram um escândalo para esses hereges, pois fizeram um fantasma da causa de nossa esperança. Quiseram ser muito sábios, e destruíram, segundo as suas forças, a desonra necessária de nossa fé: Necessarium dedecus fidei, diz o grave Tertuliano[4] .
Os verdadeiros servos de Jesus Cristo não tiveram essas delicadezas, nem essas vãs complacências. Não creram as coisas ao meio, nem envergonharam-se da ignomínia do Mestre; não temeram publicar por toda a terra o escândalo e a loucura da cruz em toda sua extensão: profetizaram aos gentios que essa loucura destruiría-lhes a sabedoria. Quanto a esses absurdos que os pagãos encontravam em nossa doutrina, os nossos pais responderam que as verdades evangélicas lhes pareciam tanto mais verossímeis quanto pareciam impossíveis à filosofia humana: Prorsus credibile est, quia ineptum est,... certum est, quia impossibile est, dizia outrora Tertuliano[5] . A nossa fé compraz-se em atordoar a sabedoria humana com proposições temerárias que ela não pode compreender.
Desde esse tempo, meus irmãos, a loucura tornou-se uma qualidade honrosa, e o apóstolo São Paulo publicou por ordem de Deus esse edito que citei em meu texto: “Se alguém quer ser sábio, faça-se antes louco”, stultus fiat ut sit sapiens. Não admirai-vos, portanto, se, devendo fazer hoje o panegírico de São Francisco, mostro-vos a sua loucura, muito mais estimável que toda a prudência do mundo. Como a primeira e a maior loucura, isto é, a mais alta e a mais divina sabedoria que prega o Evangelho é a encarnação do Salvador, não é fora de propósito, para já ter alguma ideia do que devo vos dizer, que mediteis sobre esse augusto mistério enquanto recitamos as palavras que o anjo dirigiu a Maria, dando-lhe esta notícia. Imploremos, pois, a assistência do Espírito Santo pela intercessão da Santíssima Virgem. Ave.
A orgulhosa sabedoria do século, não podendo compreender a justiça dos caminhos de Deus, emprega todas as suas falsas luzes para contradizê-las, mas é admiravelmente confundida pela doutrina do Evangelho e pelos santíssimos mistérios do Salvador Jesus. O poder divino, desde a origem do universo, começara a fazer-lhe sentir a sua fraqueza, propondo-lhe enigmas indecifráveis na ordem das criaturas, e apresentando-lhe o mundo como um assunto inesgotável de questões inúteis que jamais serão esclarecidas por decisão alguma. Era certamente crível que esses grandes e impenetráveis segredos que limitam e prendem fortemente os conhecimentos do espírito humano marcariam ao mesmo tempo fronteiras ao seu orgulho. Infelizmente, isto assim não se deu, e eis a causa mais plausível: a razão humana sempre temerária e presunçosa, tendo recebido uma pequena claridade nas obras da natureza, imaginou logo descobrir alguma enorme e prodigiosa luz, e em vez de adorar o Criador, admirou-se a si própria. O orgulho, cristãos, tem isto de particular: aumenta por si mesmo, tão pequenos sejam os seus começos, porque exalta sempre as primeiras complacências pelas suas vaidosas reflexões.
O homem, cheio de suas lindas concepções, persuade-se que toda a ordem do mundo deve seguir as suas máximas. Cansou-se de obedecer ao governo que Deus lhe tinha prescrito, a fim de o conduzir a si próprio, como a seu princípio. Ao contrário, pretendeu que a Divindade se regulasse segundo as suas ideias. Fez deuses a seu jeito, e adorou os seus trabalhos e as suas fantasias, e, tendo-se perdido, como diz o Apóstolo[6], na incerteza de seus pensamentos, quando pensou elevar-se ao apogeu da sabedoria, precipitou-se em uma excessiva loucura: Dicentes enim se esse sapientes, stulti facti sunt[7] .
A eterna sabedoria, que se compraz em sanar ou confundir a sabedoria humana, sentiu-se forçada a formar novos planos e a começar uma nova ordem de coisas por Nosso Senhor Jesus Cristo. Admirai a profundeza de seus julgamentos. No primeiro trabalho que Deus nos propôs, essa bela oficina do mundo, o nosso espírito via antes de tudo os traços da sabedoria infinita. No segundo trabalho, que compreende a doutrina e a vida do nosso Mestre crucificado, não se descobre, a primeira vista, senão loucura e extravagância. No primeiro, dizíamos há pouco, a razão humana descobria alguma coisa, e, tornando-se insolente, não quis reconhecer aquele que lhe dava suas luzes. No segundo, de uma outra superioridade, perderam-se todos os seus conhecimentos, ela não soube onde se agarrar, e é necessário, ou que que ela se submeta a uma razão mais alta, ou seja confundida: de um modo ou de outro a vitória é da sabedoria divina.   
É o que concluímos deste douto raciocínio do Apóstolo. O nosso Deus, diz esse grande personagem, introduziu o homem nesse belo edifício do mundo, a fim de que, admirando a arte, adorasse o arquiteto. O homem, porem, não utilizou-se da sabedoria que Deus lhe dera para reconhecer o Criador pelas obras de sua sabedoria, como declara o Apóstolo: Quia in Dei sapientia non cognovit mundus per sapentam Deum[8] . Que acontecerá, santo apóstolo? Deus, acrescenta ele, pôs esta lei eterna, que dora avante os crentes não se poderão salvar senão pela loucura da pregação: Placuit Deo per stultitiam praedicationis salvos facere credentes[9]. Que farás, ó obstinada razão humana? És vivamente perseguida por essa sabedoria profunda que aparece a teus olhos sob uma loucura aparente. Vejo-te reduzida à última extremidade, porque de um lado ou de outro a loucura é inevitável; na cruz de Nosso Senhor e em toda a conduta do Evangelho, os pensamentos de Deus e os teus são opostos, e tal é a oposição que uns sendo sábios, outros fatalmente serão extravagantes.
Que faremos nós, cristãos? Se cedemos ao Evangelho, todas as máximas da prudência humana nos declaram loucos e da mais alta loucura. Se acusarmos de loucura a sabedoria incompreensível de Deus, somos necessariamente furiosos e demônios. Ah! Deixemos antes todas as nossas máximas, condenemos as nossas coerências, curvemo-nos sob o jugo da fé, e, libertando-nos dessa falsa sabedoria com que nos vangloriamos, tornemo-nos felizmente insensatos por amor de nosso Salvador que, sendo a sabedoria do Pai, dignou-se passar por louco neste mundo, a fim de nos ensinar a prudência celeste, em uma palavra, se entre nós há quem pretenda a verdadeira sabedoria, que se faça louco a fim de ser sábio, sultus fiat ut sit sapens, diz o grande apóstolo.
Ei-la, cristãos, ei-la, essa ilustre, essa generosa, essa sábia e triunfante loucura do cristianismo, que confunde tudo o que se opõe à ciência de Deus, que torna humilde ou subjuga invencivelmente a razão humana, sempre tendo a gloriosa vitória. Ei-la, essa bela loucura que deve ser o único ornamento do panegírico de São Francisco, como vos prometi, e que fará o seu elogio. Notareis desde já que há uma conveniência necessária entre os costumes dos cristãos e a doutrina do cristianismo. Essa loucura aparente, que está na palavra do Filho de Deus, deve passar por imitação na vida dos seus servos. Eles são um Evangelho vivo. O Evangelho escrito em nossos livros, e o que o Espírito Santo digna-se escrever na alma dos santos, que podem ser lidos em suas ações como em belos caracteres, desagradam igualmente a falsa prudência do mundo.
Imaginai, pois, que Francisco, tendo considerado os grandes e vastos caminhos do mundo, que lavam à perdição, resolveu seguir caminhos completamente opostos. O conselho mais vulgar que nos dá a sabedoria humana é de ajuntar riquezas, de fazer valer os seus bens e de adquirir novos: é do que se fala em todos os gabinetes, é do que se fala em todas as companhias, é o assunto comum de todas as deliberações. Há, portanto, outras pessoas que se julgam mais finas, que vos dirão que as riquezas são bens estranhos à natureza; que é preferível gozar da doçura da vida e temperar com sensualidades as contínuas amarguras. É esta uma outra categoria de sábios. Mas há outros ainda que, talvez, censurarão esses sectários tão ardentes das riquezas e das delícias. Quanto a nós, dirão eles, façamos profissão de honra, não buscando outra coisa com tanto cuidado que a reputação e a glória. Se penetrardes em suas consciências, vereis que se consideram os únicos homens honestos do mundo: gastam o espírito em vigílias e em perturbações a fim de adquirirem crédito para chegarem às honras. São, segundo a minha opinião, as três coisas que dirigem todos os negócios do mundo, armam todas as intrigas, inflamam todas as paixões, suscitam todas as movimentações.
Ah! como o nosso admirável Francisco reconheceu a ilusão de todos esses bens imaginários! Ele diz que as riquezas escravizam os corações, que as honras os prendem, que os prazeres os enfraquecem. Ele quer constituir as suas riquezas na pobreza, as suas delícias nos sofrimentos, a sua glória na humilhação. Oh! loucura! E Deus que pensa fazer? Oh! o mais insensato dos homens, segundo a sabedoria do século, porém, o mais sábio, o mais inteligente, o mais atilado, segundo a sabedoria de Deus! É o que procurarei mostrar no correr deste discurso.
I
Quando tomei a resolução de vos entreter hoje das três vitórias de São Francisco sobre as riquezas do mundo, sobre os seus prazeres, sobre as suas honras, estava persuadido que poderia apresentá-las uma após a outra; vejo agora ser uma tentativa impossível e, tendo de começar pela profissão generosa que fez da pobreza, sou obrigado a declarar-vos que, só por esta resolução, ele colocou-se infinitamente acima das honras e dos opróbrios, dos incômodos e do bem-estar, e de tudo o que no mundo se chama bem ou mal, porque seria não conhecer a natureza da pobreza considerá-la como um mal separado dos outros. Penso, cristãos, que, quando inventou-se esse nome, se quis exprimir não um mal particular, mas um abismo de todos o males e o conjunto de todas as misérias que afligem a vida humana. Ousaria quase afirmar que foi um demônio que, desejando tornar a pobreza insuportável, descobriu o meio de atribuir às riquezas tudo o que há de honorífico e de agradável no mundo. Eis por que a linguagem vulgar as chama bens em geral, porque são instrumentos comuns para adquirir todos os outros. Deste modo poderíamos chamar a pobreza um mal geral, porque, tendo as riquezas tomado para si a alegria, a abundância, o aplauso, o favor, só restam à pobreza a tristeza e o desespero, a extrema necessidade, e o que mais é insuportável, o desprezo e a escravidão. Isto fez dizer ao Sábio que a pobreza entrava em uma casa como o soldado armado: Pauperies quase vir armatus[10]. Singular comparação!
Dir-vos-ei, cristãos, quanto é horrível em uma pobre casa uma guarnição de soldados? Oxalá! que soubésseis isto somente de minha boca! Ai! as nossas campanhas desertas, as nossas aldeias miseravelmente devastadas, dizem bastante que somente este terror fez fugir todos os seus habitantes. Julgai, julgai por aí, quanto é terrível a pobreza, pois a guerra, o horror do gênero humano, o mais cruel monstro que o inferno vomitou para a ruína dos homens, não apresenta nada mais abominável do que essa desolação, essa indigência, essa pobreza que necessariamente arrasta após si. E não basta que a pobreza seja atormentada por tantas dores, sem ainda sebrecarregá-la de opróbrio e de ignomínia? As febres, as enfermidades, que são os nossos maiores males, têm isto de bom, que não envergonham a ninguém. Em todos os outros infortúnios observamos que cada qual toma prazer em contar os seus males e as suas desgraças.  A pobreza tem isto de comum com o vício: ela nos envergonha, como se ser pobre fosse ser criminoso.
Quantos privam-se das satisfações e até das necessidades da vida a fim de sustentarem uma pobreza honrosa! Quantos tornam-se realmente pobres, procurando atender a não sei que ponto de honra, com uma despesa que os prejudica! Por que isto, cristãos, senão porque, na estima dos homens, quem diz pobre, diz escória do mundo? Por isso o profeta Davi, tendo descrito as diversas misérias dos pobres, conclui com esta palavra dirigida a Deus: Tibi derelictus est pauper[11] : “Senhor, o pobre vos é abandonado”; e vemos nós alguma coisa de mais comum no mundo? Quando os pobres dirigem-se a nós, a fim de socorrermos as suas necessidades, o favor mais comum que lhes prestamos é desejar que Deus os proteja. Deus vos ajude! dizemo-lhes nós. Contribuir, porém, com alguma coisa para socorrê-los é o menor dos nossos pensamentos. Nós nos descarregamos sobre a misericórdia divina, não refletindo que é pelas nossas mãos e pelo nosso ministério, que Deus resolveu conceder-lhes a misericórdia que lhes desejamos; tanto é verdade que ninguém se ocupa dos pobres! Cada qual trabalha, cada qual apressa-se em servir os grandes; e somente a Deus pertence ocupar-se dos pobres: Tibi derelictus est!
Sendo isto assim, como mostra a experiência, quando um homem colocado no século, como São Francisco, toma a resolução de fazer suas delícias da pobreza, é preciso que seja uma alma extremamamente convencida do desprezo de todos esses bens imaginários que têm todas as nossas predileções. Vede-o, cristãos: Francisco, esse rico negociante de Assis, enviado por seu pai a Roma para tratar dos seus negócios, entretem-se com um pobre em plena rua. Ah, Deus! que há de comum o seu negócio com essa sorte de gente? Que comércio quer concluir com esse pobre homem? Ah! o admirável tráfico, a rica e preciosa permuta! ele quer ter a veste desse pobre, dando-lhe a sua, e satisfeito dessa troca, de uma veste limpa com outra em farrapos, mostra-se alegre vestido de pobre, enquanto o pobre está embaraçado com uma veste de burguês.
Jesus, meu Salvador, dissestes que sois vestido quando alguém cobre a nudez dos vossos pobres, poderei eu exprimir como esta ação vos foi agradável? A história eclesiástica ensina-me que São Martinho, vosso servo, tendo dado parte do seu manto a um pobre que lhe pedia esmola, aparecestes-lhe em uma visão maravilhosa, coberto divinamente com essa metade do manto, glorifcando-vos na presença de vossos santos anjos que Martinho, ainda catecúmeno, vos tinha dado esse hábito. Permiti-me, ó meu Mestre, uma palavra familiar, que ouso avançar depois do que vós mesmo dissestes. Se é verdade que estimais o que se vos dá na pessoa dos vossos pobres[12], como deveis vos glorificar do presente que voz fez Francisco! Não priva-se unicamente do seu manto por amor vosso; ele quer vestir-vos todo inteiro; ele vos dá um hábito completo. Ainda mais: tendo aprendido em vosso Evangelho que, quando estivestes na terra, vivestes na pobreza, não satisfeito de vos ter vestido, parece pedir-vos também que seja vestido como vós: ele cobre-se com as vestes do pobre para ser semelhante a vós.
E, com esse maravilhoso aparato, tanto mais magnífico quanto era abjeto, sigamo-lo, meus irmãos, porque veremos ainda uma ação surpreendente. Dirige-se ao templo de Deus, dedicado à memória dos apóstolos São Pedro e São Paulo, esses dois pobres ilustres que viram imperadores prostrados diante dos seus túmulos: aí, sem considerar que poderia ser reconhecido, e sabeis que o comércio facilita as relações, confunde-se com os pobres que ele sabe ser os irmãos e os prediletos do Salvador; faz o noviciado dessa pobreza generosa à qual é chamado pelo seu Mestre: sente voluntariamente a vergonha e a ignomínia que lhe eram agradáveis; resiste fortemente ao efeminado e covarde pudor do século, que não pode tolerar os opróbrios, bem que tenham sido consagrados na pessoa do Filho de Deus. Ah! Começa bem a sua profissão de loucura da cruz e da pobreza evangélica!
Antes de ir mais longe, fiéis, é necessário, para melhor conhecermos o valor, que nós nos desenganemos dessa admiração insensata das riquezas em que fomos educados; é necessário que eu vos mostre com invencíveis raciocínios, as grandezas da pobreza segundo as máximas do Evangelho. E podereis então concluir quanto é injusto o desprezo dos pobres, que há pouco vos descrevia. Mas, a fim de fazê-lo com maior proveito, deixemos aos oradores do mundo a pompa e a majestade do estilo panegírico; eles não se preocupam que sejam escutados, desde que reconhecem que são admirados. Nós, porém, nesta tribuna do Salvador Jesus, ornemos o nosso discurso com a simplicidade do Evangelho, e alimentemos as nossas almas com verdades sólidas e inteligíveis.
Afirmo, pois, ó ricos do século, que fazeis mal em tratar com injurioso desprezo os pobres. Se quisermos remontar a origem das coisas veríamos que não tendes mais que eles direito aos bens deste mundo. A natureza, ou antes, para falar cristãmente, Deus, o pai comum dos homens, desde o começo, deu a todos os seus filhos um direito igual sobre todas as coisas de que têm necessidade para a conservação da vida. Nenhum de nós pode glorificar-se de ser mais avantajado que os outros pela natureza, mas o insaciável desejo de ajuntar não permitiu que essa bela fraternidade durasse muito tempo no mundo, Foi necessário vir a divisão, a propriedade, causa de discussões e de processos: vem daí esses vocábulos egoístas, segundo São João Crisóstomo[13]; daí essa grande variedade de condições, uns vivendo na abundância de todas as coisas, outros definhando em extrema indigência. Por este motivo muitos santos Padres, contemplando a origem das coisas e a geral liberalidade da natureza para com os homens, não hesitaram em afirmar que era privar os pobres de seus bens, negando-lhes o que nos é supérfluo.
Não quero dizer com isto, meus irmãos, que sois apenas os dispensadores de vossas riquezas; não é o que pretendo, porque a divisão dos bens tendo sido feita pelo consenso comum de todos os povos, e tendo sido autorizada por lei divina, sois os senhores e os proprietários da porção que vos coube; mas, aprendei que, sendo os verdadeiros proprietários segundo a justiça dos homens, deveis vos considerar os dispensadores diante da justiça de Deus, a quem prestareis conta. Não vos persuadis que ele abandonou o cuidado dos pobres; bem que estejam privados de tudo não penseis que perderam o direito narutal, que têm nas coisas comuns que lhes são necessárias. Não, não, ó ricos do século; não é somente para vós que Deus faz o sol levantar, que ele orvalha a terra, em cujo seio faz desabrochar tão grande variedade de sementes; os pobres aí têm a sua parte tanto como vós. Confesso que Deus não lhes entregou capital em propriedade, mas destinou-lhes a subsistência nos bens que possuis, tanto quanto sois ricos. Não quer isto dizer que não pudesse sustentá-los de um outro modo, pois, sob o seu governo, aos animais, mesmo os mas vis, não faltam as coisas necessárias a subsistência. A sua mão não é menos curta, nem os seus tesouros estão mais esgotados. Ele quis que tivésseis a honra de fazer viver os vossos semelhantes. Que glória, cristãos, se a soubéssemos compreender! Longe de desprezar os pobres, deveríeis respeitá-los, recebendo-os como pessoas que Deus envia e recomenda.
Desprezai-os, tratai-os indignamente, tanto quanto quiserdes, é necessário, porém, que vivam a vossa custa, se não quiserdes incorrer na indignação daquele que com os nomes augustos de Eterno e de Deus dos exércitos glorifica-se ainda do título de Pai dos pobres. Viva Deus, diz o Senhor, é jurar por mim mesmo, o céu e a terra e tudo o que encerram me pertence. Sois obrigados a me pagar a renda de todos os bens que possuis. Eu nada tenho que fazer nem de vossas ofertas nem de vossas riquezas: sou o vosso Deus e não necessito dos vossos bens. Não sofro necessidade senão na pessoa dos meus pobres, que considero meus filhos. Ordeno que lhes pagueis fielmente o tributo que me deveis. Vede, meus irmãos, esses pobres que tanto desprezais: Deus os constitui os seus tesoureiros, os seus recebedores gerais; ele quer que lhes seja entregue todo o dinheiro destinado aos seus cofres. Não promete-lhes neste mundo nenhum direito que possam fazer valer por uma estrita justiça, mas permite-lhes de levantar sobre todos os ricos um imposto voluntário não por uma violência, mas por caridade. Se são maltratados, se se lhes nega o devido, não levarão queixas perante os juízes mortais; Deus ouvirá os seus gemidos do alto do céu. Como o devido aos pobres é o seu próprio tesouro, reserva a causa para o seu tribunal. Eu os vingarei, diz ele; serei misericordioso aos que excercerem a misericórdia, e inexorável a quem tiver sido inexorável. Sublime dignidade dos pobres! a graça, a misericórdia, o perdão estão em suas mãos; e há pessoas tão insensatas para desprezá-los. É ainda por isto que São Francisco mais os considera.
O pequenino de Belém, é assim que chama o seu Mestre esse Jesus “que sendo rico fez-se pobre por amor de nós, a fim de nos enriquecer pela sua indigência,” como diz o apóstolo São Paulo[14] ; esse pobre rei que, vindo ao mundo, não acha veste mais digna de sua grandeza do que a pobreza. É o que comove a sua alma. Minha cara pobreza, dizia ele, tão humilde seja a tua origem, segundo o juízo dos homens, amo-te depois que o meu Mestre te tomou por esposa. Ele tinha razão, cristãos. Se um rei casa-se com um filha de baixa condição, ela torna-se rainha. Murmura-se algum tempo, mas, finalmente, é reconhecida. Ela enobrece-se pela união do príncipe; a sua nobreza passa à sua família, os seus pais são comumente chamados aos mais belos empregos, e os seus filhos sãos os herdeiros do trono. Assim aconteceu depois que o Filho de Deus esposou a pobreza. Ainda que resista-se, ainda que murmure-se, ela é nobre e grande por essa aliança. Desde esse tempo os pobres são os confidentes do Salvador, e os primeiros ministros desse reino espiritual que veio fundar na terra. Jesus, nesse admirável discurso que fez a um grande auditório do alto dessa misteriosa montanha, não dignando-se falar aos ricos senão para fulminar-lhes o orgulho, dirige a palavra aos pobres, seus bons amigos, e diz-lhes com incrível consolação de sua alma: “Oh! pobres! sois felizes, porque o reino de Deus vos pertence!” Beati pauperes, quia vestrum est regnum Dei[15] !
Feliz, mil e mil vezes feliz o pobre Francisco, o mais ardente, o mais entusiasmado, se posso assim falar, o mais desesperado amante da pobreza que jamais foi visto na Igreja. De que zelo não foi ele tomado! quão bela, quão generosa, quão digna de ser consagrada pela eterna memória da posteridade foi a resposta que deu a seu pai que o solicitava, em presença do bispo de Assis, a renunciar os seus bens. Acusava o filho de ser o mais gastador que todas as outras pessoas do país. Não sabe, dizia ele, recusar a um pobre; não pode tolerar que haja na cidade famílias necessitadas. Vende todas as minhas mercadorias para distribuir-lhes o preço. E, com efeito, cristãos, vendo o modo como Francisco dispunha do que era seu, dir-se-ia que tinha hipotecado os seus bens aos pobres da província, e que a sua esmola era menos um benefício do que uma dívida. Como todo o seu patrimônio era insuficiente para pagar essas dívidas infinitas de uma caridade imensa e sem limites, o seu pai sustentava que devia renunciar os seus bens, porque, dizia ele, era incorrigível, e não havia probabilidade de torná-lo mais circunspeto.
Que responderá Francisco a tão fortes acusações feitas com a veemência da autoridade paterna? Oh! Deus eterno! como insipirais belas respostas aos vossos servos, quando se deixam conduzir pelo vosso Espírito Santo! Tomai, diz Francisco animado por um instinto celeste, tomai, ó meu pai, eu vos dou mais do que pretendeis; e no mesmo momento, atirando sua veste aos pés: Até aqui, exclamou ele, vos tinha chamado pai, agora nada mais espero de vós, e direi com mais coragem e mais confiança: Nosso Pai que estais no céu. Que eloquência bastante forte, que raciocínios assaz magníficos poderão igualar a majestade desta palavra? Oh! a bela falência desse mercardor! Oh! homem! não tanto incapaz de possuir riquezas como digno de não tê-las, digno de figurar no livros dos pobres evangélicos e dora avante viver com o capital da Providência! Encontrou finalmente essa pobreza tão ardentemente desejada em que pusera o seu tesouro: mais se lhe tira, mais enriquece. Foi bem feito privá-lo de todos os seus bens, porque queriam também tirar-lhe o que de mais sublime possuía em suas riquezas, o poder de distribuí-las abundantemente aos pobres! Encontrou um Pai que não o impedirá de dar, nem o que ganhar com o trabalho de suas mãos, nem o que alcançar da caridade dos fiéis. Feliz por nada mais possuir no século, recebendo de esmola até o seu hábito! Feliz por possuir só a Deus, por tudo esperar dele, por tudo receber por amor dele! Graças a misericórdia divina, o seu único negócio era servir a Deus, e todo seu alimento era fazer a vontade divina. Como o seu estado é diferente do dos ricos! Vereis isso na segunda parte.
II
Quando vos considero, ó ricos do século, pareceis-me mais pobres que Francisco. Não podereis ter tão avultadas riquezas que as vossas paixões desordenadas não devorem. Delas precisais para a necessidade, para a vaidade, para o luxo, para os prazeres, para a pompa, para a ostentação, para mil superfluidades. Francisco, ao contrário, pode ter um hábito imundo, um alimento parco e está perfeitamente satisfeito; disposto a morrer de fome, se essa é a vontade de seu Pai celeste. Ora embrenha-se em uma floresta sombria, ora retira-se no alto de uma montanha, admirando as obras de Deus, convidando todas as criaturas a louvá-lo e bendizê-lo, emprestando-lhes a sua inteligência e a sua voz, passando dias e noites, a repetir, a meditar, a sentir esta piedosa palavra: “Meu Deus e meu tudo”, palavra que sempre tinha nos lábios, Deus meus omnia. Percorre as cidades, as aldeias, os arraiais; levanta altamente o estandarte da pobreza; começa um novo gênero de negócio, e funda o mais belo, o mais rico comércio de que se possa ter ideia. Oh! vós, dizia ele, que desejais adquirir essa pérola incomparável do Evangelho, vinde, associemo-nos, a fim de negociarmos no céu; vendei os vossos bens, dai tudo aos pobres, vinde a mim, livres de todos os cuidados seculares; vinde, faremos penitência; vinde, louvaremos e serviremos o nosso Deus na simplicidade e na pobreza.
Oh! santa companhia! que começais a formar-vos sob a conduta de São Francisco, possais, propagando-vos por toda parte, inspirar aos homens do mundo um generoso desprezo das riquezas e conduzir os povos ao exercício da penitência! Que pretendeis fazer com esse uniforme de talho singular, pesado no verão, e pouco apto a garantir-vos (proteger-vos?) dos rigores do inverno? Por que não tomais maior precaução com a necessidade e fraqueza da carne? Fiéis, o pobre Francisco, que deu-lhes esse conselho, não compreende estes discursos: ele segue outras máximas mais varonis e mais elevadas. Lembra-se dessas folhas de figueira que, no paraíso, cobriram a nudez dos nossos primeiros pais logo que a desobediência mostrou-lhes o mal. Recorda-se que o homem foi nu enquanto inocente, e, portanto, não foi a necessidade e sim o pecado e a vergonha que fabricaram as primeiras vestes. Se o pecado vestiu a natureza corrompida, ele pensa que a penitência deve vesti-la, depois de regenerada.
Mas, por que vós vos enfraqueceis com tantos jejuns? Por que vós vos extenuais em tantas vigílias? por que deitai-vos sobre neve? por que vejo esse cilício inseparável do vosso corpo, o qual poderia tomar por uma outra pele formada sobre a primeira? Respondei, Francisco, respondei: os vossos sentimentos são tão cristãos que teria receio de diminuir alguma coisa de sua generosidade, se vós mesmo não os manifestasses. Quem sois vós, dirá ele, vós que me fazeis essa pergunta? ignorais que o nome cristão significa sofrimento? Não vos lembrais desses dois atletas, Paulo e Barnabé, que confirmavam e consolavam as Igrejas? e que diziam eles para consolá-las? “Que era necessário chegar ao reino dos céus por longos trabalhos e grandes tribulações:” Quia per multas angustias et tribulationes oportet pervenire ad regnum Dei[16] . Sabei, acrescentará ele, e perdoai-me, cristãos, se hoje faço falar frequentes vezes esse ilustre personagem: sabei, pois, que nós cristãos “temos um corpo e uma alma, que devem ser expostos a todos os sofrimentos”: Ipsam animam ipsumque corpus expositum omnibus ad injuriamgerimus[17]. E para obedecer a ordem do Apóstolo[18] , “a fim de não agir em vão, trabalho para domar o meu corpo e submeter à escravidão o apetite dessas volúpias que, com suas delicadezas, enfraquecem e pervertem a varonil virtude da fé:” Discutiendae sunt deliciae, quarum malitia et fluxu fidei virtus effeminari potest[19] . Além de tudo, que maiores delícias para um cristão do que o desgosto das delícias[20]? “Que! não poderíamos viver sem prazer nós que devemos morrer com prazer?” Non possumus vivere sine voluptate, qui mori cum voluptate debemus[21]. São palavras do grave Tertuliano que de bom grado ele emprestará aos sentimentos de Francisco, tão dignos desse primeiro vigor e firmeza dos costumes cristãos.
Severa, mas evangélica doutrina, duras, mas indiscutíveis verdades, fazem tremer todos os nossos sentidos, e pareceis insensatas a nossa pretensiosa sabedoria. Fostes vós que tornastes o inimitável Francisco tão felizmente insensato; o enchestes de um violento desejo do martírio, que o fez buscar por toda parte um infiel que quisesse o seu sangue. Certo é, ainda que revoltem-se os nossos sentidos, que um cristão, ferido pelo amor do nosso Salvador não tem maior prazer do que derramar o seu sangue por ele. É esta, talvez, a única vantagem que podemos ter sobre os anjos. Podem eles ser os companheiros de glória de Nosso Senhor, mas não podem ser os companheiros de sua morte. Essas bem-aventuradas inteligências podem comparecer diante da face de Deus como vítimas ardentes de uma caridade eterna, mas a natureza impassível não permite-lhes dar uma prova generosa de sua afeição pelos sofrimentos e de gozar dessa honra tão doce àquele que ama, de amar até morrer, e de morrer por amor. Nós, ao contrário, gozamos dessa preciosa vantagem, pois, das duas vidas que Deus se dignou dar-nos, uma é imortal e incorruptível, e fará eternamente durar o nosso amor no céu; a outra é destrutível, e podemos imolá-la para provar-lhe o nosso amor na terra. É, como vos disse, o que pode acontecer de mais agradável a uma alma verdadeiramente ferida pelo amor divino.
Não vedes, cristãos, que o Salvador Jesus, durante sua vida mortal, não teve mais delicioso pensamento do que o da morte que devia sofrer por nosso amor? e de onde lhe vinha esse gosto, esse prazer inefável que sentia na contemplação de males tão dolorosos e extraordinários? É porque nos amava com amor imenso, do qual jamais poderemos formar senão uma fraca ideia. Eis por que deseja ardentemente ver brilhar sem mais delonga essa páscoa tão memorável[22]  que devia santificar com a sua morte. Suspira incessantemente por esse batismo de sangue[23], e por essa última hora que chamava a hora por excelência[24], como sendo aquela em que o seu amor devia triunfar. Quando João Batista, o santo precursor, vê pousar o Espírito Santo sobre sua cabeça[25], quando abre-se o céu sobre ele, quando o Pai o reconhece publicamente por seu Filho, não é essa, cristãos, a sua hora. A hora, que é sua, segundo o modo vulgar de falar e segundo a frase da Escritura, é aquela em que, arrastando as nossas iniquidades sobre o madeiro, ele se deve imolar por nós em um sacrifício de caridade.
Se o Criador sente perfeita alegria de morrer por sua criatura, que satisfação não deve experimentar a criatura de morrer por seu Criador! Eis onde a alma fiel sente transportes admiráveis na contemplação do nosso Mestre crucificado. O precioso sangue, que corre de toda parte de suas veias barbaramente rompidas, transforma-se em um rio de chamas que o abrasa de um ardor invencível para consumir-se por ele. E poderemos nós ver o nosso bravo e vitorioso chefe derramar o seu sangue pela nossa salvação com tão grande alegria, sem que o nosso se exaltasse em presença desse espetáculo de amor? Os médicos dizem que há certos espíritos violentos e, por conseguinte, ativos e vigorosos que, penetrando em nosso sangue, o fazem sair ordinariamente com grande impetuosidade quando a veia está aberta. Ah! o sangue de Jesus Cristo, correndo em nossas veias pela virtude dos sacramentos, anima o sangue dos mártires por um santo e divino ardor que o faz subir até o trono de Deus, quando a espada infiel o derrama pela confissão da fé! Contemplai nos bem-aventurados soldados do Salvador a constância com que iam ao suplício. Uma santa e celeste alegria brilhava em seus olhos e em seus semblantes por um fulgor mais que humano e que causava admiração a todos os espectadores. Consideravam em espírito a torrente do sangue de Jesus Cristo que, por uma prodigiosa inundação, caía sobre suas almas.
Não admira-me, portanto, se o incomparável Francisco deseja ardentemente o martírio, ele que jamais perdera de vista o Salvador pregado em uma cruz, e que tirava constantemente de suas chagas essa água celeste do amor de Deus que sobe até a vida eterna. Embriagado por essa bebida divina, corre afoitamente ao martírio: nem os rios, nem as montanhas, nem a imensidade dos mares podem impedir o seu ardor. Vai a Ásia, a África, por toda parte onde pensa o ódio contra o nome Jesus ser mais desenfreado. Prega altamente a esses povos a glória do Evangelho; descobre as imposturas de Maomé, o seu falso profeta. Que! essas acusações veementes não excitam os bárbaros contra o generoso Francisco? ao contrário, admiram o seu zelo infatigável, a sua invencível energia, o prodigioso desprezo das coisas do mundo: eles o veneram. Francisco, indignado de se ver respeitado pelos inimigos do seu Mestre, recomeça suas investidas contra essa religião monstruosa. Mas, singular e maravilhosa sensibilidade! não mostram-lhe menos deferência, e o bravo atleta de Jesus Cristo, vendo que não conseguia merecer a morte: Saiamos  daqui, meu irmão, dizia ele ao seu companheiro; fujamos, fujamos longe destes bárbaros muito humanos para nós, pois não conseguimos nem fazer-lhes adorar o nosso Mestre, nem nos perseguir a nós que somos os seus servos. Oh! Deus! quando mereceremos nós o triunfo do martírio, se até no meio das nações infiéis achamos honras? Já que Deus não nos julga dignos do martírio, nem de participar dos seus gloriosos opróbrios, vamos, meu irmão, terminar a nossa vida no martírio da penitência, ou procuremos algum lugar da terra onde possamos beber aos sorvos a ignomínia da cruz.
Convinha, cristãos, mostrar-vos aqui a loucura do sábio e admirável Francisco. Serieis entusiasmados vendo-o levantar a sua glória sobre o desprezo das honras! Que louvores não daríeis à ingênua infância de sua inocente simplicidade, e a essa humildade tão profunda com que se considerava o maior dos pecadores, e essa fiel confiança que lhe fazia pôr o arrimo de sua esperança nos méritos do Filho de Deus, e a esse temor tão modesto que tinha de mostrar os sagrados sinais da paixão do Salvador, que Jesus crucificado, por uma misericórdia inefável, tinha impresso em sua carne! Como sereis admirados, quando eu vos disser que Francisco, esse personagem admirável que levava uma vida mais angélica que humana, recusou o santo sacerdócio, considerando essa dignidade muito pesada para os seus ombros! Ai! bem que imperfeitos, corremos muitas vezes para ela sem sermos chamados, com uma temeridade, uma precipitação que faz estremecer a religião: imprudentes, não compreendemos a elevação dos mistérios de Deus e a virtude necessária àqueles que pretendem ser os seus dispensadores. E Francisco, esse anjo celeste, após tantas ações heroicas e o longo exercício de uma virtude consumada, ainda que toda a hierarquia eclesiástica lhe estenda os braços como a um homem destinado a ser um dos seus mais belos luminários, treme e perturba-se só com o nome de padre, e não ousa, malgrado a mais legítima vocação, senão contemplar de longe uma dignidade tão honorífica! Certamente, se começasse a vos narrar essas maravilhas recomeçaria um novo discurso, e no fim do meu trabalho abriria um caminho imenso. Como fazemos na Igreja os panegíricos dos santos menos para celebrar as suas virtudes, que já são coroadas no céu, do que para nos propor o seu exemplo, devemos suprimir alguma coisa dos elogios de São Francisco, a fim de reservar mais tempo para tirar alguma conclusão prática de sua vida.
Que escolheremos nós, cristãos, nas ações de São Francisco para a nossa instrução? Será, talvez, uma empresa muito temerária procurar curiosamente a sua virtude mais eminente. Pertence àquele que as dá apreciar o seu valor. Tome cada um para si o que em consciência lhe for mais útil; quanto a mim, para edificação da Igreja, vos proporei o que me parece mais proveitoso para salvação de todos; e não sei que sentimento me diz no fundo do coração que deve ser o desprezo das riquezas, às quais é visível que somos apegados. O Apóstolo, falando a Timóteo, indica aos pregadores como devem exortar os ricos. “Ordenai, diz ele, aos ricos do século, que evitem ser orgulhosos e por as suas esperanças na inconstância das riquezas.” Divitibus hujus saeculi praecipe non sublime sapere neque sperare in incerto divitiorum[26]. É o que ensina o apóstolo São Paulo, quando refere-se às duas principais enfermidades dos ricos: a primeira, o grande apego aos bens; a segunda, a grande estima que têm ordinariamente de suas pessoas, porque veem que a riqueza dá-lhes algum crédito no mundo.
Ora, meus irmãos, ainda que fosse um simples filósofo, não faltariam razões para vos mostrar ser uma grande loucura estimar tanto os bens que nos podem ser arrebatados por uma infinidade de acidentes, e dos quais a morte nos separará sem recurso, depois de termos tomado tantas precauções para salvá-los das ciladas que a sorte nos arma. Se a filosofia reconhece a vaidade das riquezas, nós, cristãos, devemos desprezá-las, nós, digo, que fundamentamos este desprezo não sobre raciocínios humanos, mas sobre verdades que o Filho do Pai eterno selou e confirmou com o seu sangue! Se verdade é que a herança celeste, que Deus nos preparou pelo seu único Filho, é o único objeto de nossas esperanças, devemos avaliar as coisas segundo o modo como para ela nos conduzem, e detestar tudo o que se opõe a tão grande felicidade. Mas, entre todos os obstáculos que o demônio suscita contra a nossa salvação, não há maior nem mais formidável que as riquezas. Por quê? Não alegarei outra razão, contentado-me com a palavra do nosso Salvador, mais poderosa que todas as razões. É referida por três evangelistas, e particularmente por São Marcos com prodigiosa energia.
Meus amados filhos, diz o nosso Mestre aos discípulos, depois de havê-los contemplado longo tempo, a fim de incutir-lhes no espírito o que era de suma importância o que ia dizer-lhes: “Meus amados filhos, é coisa muito difícil os ricos salvarem-se! Em verdade vos digo, é mais fácil um cabo ou um camelo passar pelo ouvido de uma agulha[27]” Não estejais pasmos por esse modo de falar tão singular. Era um provérbio entre os hebreus, com que exprimiam ordinariamente as coisas que julgavam impossíveis; é como se disséssemos: antes cairia o céu, ou qualquer outra expressão. Mas aí não devemos parar: vede, vede em que ordem o Salvador colocou a salvação dos ricos. Direis, talvez, que é um exagero, e alegrai-vos com esse pensamento, mas eu afirmo que devemos tomar essa palavra no sentido literal. Espero convencer-vos pelo que segue no Evangelho. Estejais atentos; é o Salvador quem fala. Convém ouvir a sua palavra, pois, é a vida eterna.
Quando um homem fala com exagero, isso observa-se ordinariamente em seus atos, em seus modos, e nos sentimentos que o seu discurso suscita no espírito do auditório. Por exemplo, se acontecesse eu dizer alguma coisa desse modo, conhecereis em vós mesmos e seríeis melhores juízes do que aqueles que não me ouviram: nada mais constante que esta verdade. Ora, quais os que ouviram o Salvador? os bem-aventurados apóstolos. Qual o sentimento que lhes sugeriu esse discurso? Pensaram eles que essa sentença foi pronunciada com exagero? Julgai pelas suas respostas e pelo seu espanto. Ouvindo essas palavras do Salvador, diz o Evangelista, ficaram pasmos, admirando a veemência extraordinária com que o divino Mestre avançara essa terrível proposição. Refletindo depois sobre o amor desordenado das riquezas que reina por toda parte, disseram uns aos outros: “E quem poderá salvar-se?” Et quis potest salvus fieri[28]. Ah! é bem visível, por esta resposta, que tomaram a palavra do Filho de Deus no sentido literal! porque é claro que um exagero não os teria impressionado tanto. Jesus, porém, não fica nisso: vendo-os atônitos, ao invés de tirar-lhes o escrúpulo, como desejariam os ricos, confirma ainda mais a sua sentença. Dizeis, ó meus discípulos, que, sendo assim, a salvação é impossível: é impossível aos homens, mas a Deus não é impossível, e dá a razão: porque, diz ele, tudo é possível a Deus.
Que vos direi, cristãos? A primeira vista poderia parecer que o Filho de Deus tivesse esquecido o seu primeiro rigor. Mas, seria compreender mal a força de suas palavras. Expliquemo-las com outros textos. Observo nas Escrituras que esse modo de falar só é empregado em grandes e invencíveis dificuldades. Quando todas as razões humanas fraquejam, parece então absolutamente necessário alegar, como último recurso, a onipotência divina. É o que faz o anjo em relação à Santíssima Virgem, quando, querendo fazer-lhe ver que poderia conceber sendo virgem, mostra-lhe o exemplo de uma estéril que concebera, porque, dizia ele, diante de Deus nada é impossível. Comparai as coisas. Uma virgem pode conceber, uma estéril pode gerar, um rico pode salvar-se. São três milagres, dos quais os santos Livros não apresentam outra razão, a não ser a onipotência de Deus. É, portanto, verdade, ó rico do século, que a vossa salvação não é coisa medíocre; seria impossível se Deus não fosse todo-poderoso; esta dificuldade, pois, excede os nossos pensamentos, porque é necessário um poder infinito para vencê-la.
Não digais que essa palavra não se refere a vós, porque não sois ricos. Se não sois ricos, ambicionais sê-lo, e essas maldições das riquezas não devem somente cair sobre os ricos como sobre aqueles que o desejam ser. É desses de quem fala o Apóstolo, que caem na armadilha do demônio e em muitos maus desejos que precipitam o homem na perdição[29]. O Filho de Deus, no texto citado, não fala somente dos ricos, mas daqueles “que se fiam nas riquezas:” confidentes in pecuniis. Ora, o desejo e a esperança sendo inseparáveis, impossível desejá-las sem aí pôr suas esperanças.
Relatar-vos-ei aqui todos os males que o maldito desejo das riquezas traz ao gênero humano? as fraudes, os enganos, as usuras, as injustiças, as opressões, as inimizades, os perjúrios, as perfídias, tudo é ordinariamente entretido na terra pelo desejo das riquezas. O Apóstolo tem razão de dizer que “o desejo das riquezas é a raiz de todos os males:” Radix omnium malorum est cupiditas[30]. Por que o avarento, pondo a sua alegria e a sua esperança em algum ano estéril e na carestia pública, prepara e aumenta os seus celeiros, a fim de aí esconder a subsistência do pobre, que a fará comprar ao preço do seu sangue, quando estiver reduzido a miséria? Por que o mercador falaz diz mais mentiras, faz mais juramentos do que vende as mercadorias? Por que o lavrador impaciente, muitas vezes, amaldiçoa o seu trabalho e a divina Providência? Por que o soldado feroz exerce uma rapina tão cruel? Por que o juiz corrupto vende e entrega sua alma a Satanás? Não é o desejo das riquezas?
Mas os que as possuem velem cuidadosamente sobre suas almas: elas têm laços invisíveis, dos quais não se podem desvencilhar os nossos corações: ora, um coração que ama outra coisa a não ser Deus, não pode amar a Deus. “Ah! se amamos devidamente a Deus, diz admiravelmente Santo Agostinho, não amaremos o dinheiro:” O si Deum digne amemus, nummos omnino non amabimus[31]. Se, por conseguinte, amamos o dinheiro, seremos incapazes de amar a Deus.
Tirai agora esta consequência: os homens que possuem muitas riquezas é quase impossível que não as amem. Quando quisessem isto negar, tornar-se-ia evidente pelo medo que têm de perdê-las. Quem muito ama as riquezas é incapaz de amar a Deus: quem não ama a Deus é impossível salvar-se. “Oh! Deus! os que possuem grandes fortunas dificilmente alcançam o reino dos céus!” Quam difficile qui pecunias possident, possunt pervenire ad regnum Dei!
Se, pois, são tão funestas as riquezas, vede, meus irmãos, o que deveis fazer. Deus não vo-las deu para encerrá-las em cofres, nem para empregá-las em despesas supérfluas, para não dizer perniciosas. Elas vos foram dadas para sustentar a Jesus Cristo que sofre na pessoa dos pobres; elas vos foram dadas para remir as vossas iniquidades, e para ajuntar tesouros eternos. Lançai, lançai a vista sobre as famílias necessitadas que não ousam expor-vos as suas misérias; sobre as virgens de Jesus que vemos quase desfalecidas em seus conventos por falta de meios para as suas subsistências; sobre tantos míseros religiosos que, sob um semblante risonho, escondem muitas vezes uma grande indigência. Um pouco de coragem, meus irmãos, alguns esforços por amor de Deus. Vede a liberalidade com que abriu suas mãos sobre nós pela fertilidade deste ano; abramos as nossas sobre as misérias dos nossos pobres irmãos; ninguém procure excusar-se. Não desculpeis-vos com a modicidade dos vossos recursos: Jesus levará em conta até o insignificante presente que lhe fizerdes com o coração ardendo de caridade: mesmo um copo d’água, oferecido com esse espírito, pode merecer-vos a vida eterna.
Assim os bens, que ordinariamente são um veneno, converter-se-ão para vós em remédio salutar. Longe de perder as vossas riquezas, distribuindo-as, as conservareis com maior segurança tanto quanto as tereis santamente prodigado. Os pobres vo-las restituirão de um modo superior, porque em suas mãos elas mudam de natureza. Nas vossas elas são destrutíveis; mas tornam-se incorruptíveis logo que passam às mãos dos indigentes. São eles mais poderosos que os reis. Os reis, com seus editos, dão algum valor ao dinheiro; os pobres comunicam-lhe um valor infinito, aplicando-lhe os seus sinais. Ajuntai, pois, tesouros que se não corrompem; reuni, para o século futuro, um tesouro inesgotável; colocai as vossas riquezas no céu, livre dos perigos das guerras, dos roubos, de toda sorte de incidentes; depositai-as nas mãos de Deus. Ganhai, com vossas esmolas, bons amigos na terra que vos receberão depois da morte nos eternos tabernáculos, onde o Pai, o Filho e o Espírito Santo, único Deus vivente e imortal, é glorificado em todos os séculos dos séculos. Amen.

[Fonte: Panegíricos de Bossuet (Castela Editorial, Rio de Janeiro, 2013)]



[2] 1Cor 1
[3] Tertul. adv. Marcion. Lib.II.
[4] De carne Chr. N.5.
[5] Ibid.
[6] Rom 1, 21.
[7] Rom 1, 22.
[8] 1Cor 1 ,21.
[9] Ibid.
[10] Pr 11, 11.
[11] Sl 9, 35.
[12] Mt 25, 36.
[13] Hom. de. Saint. Philog, n.1.
[14] 2Cor 8, 9.
[15] Lc 6, 20.
[16] At 14, 2.
[17] Tertul. de Patient. N.8.
[18] 1Cor 9, 26-27.
[19] Tertul. de Cultu femin. II. N.13.
[20] Idem de Spect. N. 29.
[21] Ibid. n. 28.
[22] Lc 22, 15.
[23] Lc 12, 50.
[24] Jo 13, 1.
[25] Mt 3, 16-17.
[26] 1Tim 6, 17.
[27] Mc 10, 24.
[28] Mc 10, 26.
[29] 1Tim 6, 9.
[30] 1Tim 6, 10.
[31] In Joan. Tract. XI. n.10. t. III.


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