"Pode ser que haja, no meio de vós, meus irmãos, alguém que se encontre com a alma carregada de pecados e que -- longe de pensar em se livrar deles pela confissão e penitência -- não cessa de cometer novos pecados, se sobrecarregando ainda mais. Este, certamente, abusa da misericórdia divina; pois, a que fim nosso Deus tão bom deixa que este pecador viva senão para que ele se converta e, por conseqüência, escape da desgraça de perder sua alma?
"Ele merece as
severas censuras que o Apóstolo dirigiu ao povo judeu impenitente:
'Porventura desprezas as riquezas da bondade, da paciência e da
longanimidade de Deus? Ignoras que Sua bondade te convida à
penitência? Mas que na tua dureza e coração impenitente, acumulas
para ti um tesouro de ira no dia da ira e da manifestação do justo
juízo de Deus' (Rom II 4,5).
"Eu quero vos
afastar, meus irmãos, desse funesto abuso, e vos preservar da
desgraça de cair na morte eterna do inferno. A esse propósito,
chamo vossa atenção para a seguinte verdade: Quando uma alma abusa
da misericórdia divina, a misericórdia divina está bem próxima de
a abandonar...
"Santo
Agostinho observa que, para enganar os homens, o demônio emprega ora
o desespero, ora a confiança.
Após o pecado, o
demônio nos mostra o rigor da justiça de Deus para que desconfiemos
de Sua misericórdia. Entretanto, antes do pecado, o demônio nos
coloca diante dos olhos a grande misericórdia de Deus, a fim de que
o receio dos castigos, devidos ao pecado, não nos impeça de
satisfazer nossas paixões...
"Essa
misericórdia sobre a qual vós contais para poder pecar, dizei-me,
quem vo-la prometeu? Não Deus, certamente, mas o demônio, obstinado
em vos perder. Cuidado!, diz São João Crisóstomo, de dar ouvidos a
este monstro infernal que vos promete a misericórdia celeste...
"'Deus é cheio
de misericórdia, eu pecarei e em seguida confessar-me-ei'. Eis aí a
ilusão, ou antes, a armadilha que o demônio usa para arrastar
tantas almas ao inferno!...
"Nosso Senhor,
aparecendo um dia a Santa Brígida, queixou-Se: 'Eu sou justo e
misericordioso, mas os pecadores não querem ver senão minha
misericórdia' (Ego sum justos et misericors; peccatores tantum
misericordem me existimant - Rev. 1. I. c. 5). Não duvideis, diz São
Basílio, que Deus é misericordioso, mas saibamos que Ele é também
justo, e estejamos bem atentos para não considerar apenas uma metade
de Deus. Uma vez que Deus é justo, é impossível que os ingratos
escapem do castigo.... Misericórdia! Misericórdia! Sim, mas para
aquele que teme a Deus, e não para aquele que abusa da paciência
divina!".
Fonte:
Sermons de S. Alphonse de Liguori, Analyses, commentaires, exposé du
système de sa prédication, par le R.P. Basile Braeckman, de la
Congrégation du T. S. Rédempteur, Tome Second. Jules de
Meester-Imprimeur-Éditeur, Roulers, pp. 55-60, apud Revista
Catolicismo, número 572, agosto/1998, pág. 37

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