"O fundamental, porém, é que se desmascare o erro da religião moderna: a tentativa que se verifica, desde o Vaticano II, de conciliar o inconciliável: teocentrismo e antropocentrismo..."
Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa
Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa
Há algo de desconcertante no debate que se tem travado os últimos dias sobre a ideologia do gênero que os esquerdistas, aliados aos liberais, tentam impingir por todos os meios às nossas crianças da rede pública de ensino, após o Congresso Nacional ter recusado incluir no plano nacional de educação o vocabulário próprio desse discurso insano sobre o homem.
Com efeito, alguns articulistas parecem mais preocupados em denunciar a artimanha de que se valem os degenerados em sua empreitada de promover a revolução dos costumes e valores como uma violação das regras do jogo democrático do que em argumentar contra a tal ideologia do gênero como uma ameaça à sobrevivência da humanidade e uma gravíssima ofensa à ordem moral estabelecida pelo Criador.
A esta lamentável insuficiência discursiva acresce outro problema: a patente incapacidade de alguns articulistas católicos de ver que há uma relação de causa e efeito entre o democraticismo moderno e a rápida e crescente degenerescência da humanidade nos últimos anos desde quando a subcultura do democratismo, do “inclusivismo” e do discurso antidiscriminação passou a predominar em todos os âmbitos da sociedade.
Ora, é incontestável que a ideologia do gênero é apenas um fruto sazonado desse jardim do democraticismo, no qual qualquer canalha atrevido, gozando da liberdade e da igualdade asseguradas pela constituição “cidadã”, sem sentir-se vinculado a nada e a ninguém a não ser à vontade própria, se julga soberano e a própria lei, acima de todo o resto da sociedade, que deve “respeitar” seu comportamento, porque cada um pode viver como quiser, com tal que não perturbe a “ordem democrática” ou o “Estado democrático de direito”.
É evidente que a democracia laica, fundada no dogma da soberania popular e inspirada pela nova religião cientificista, tem de aprovar a ideologia do gênero. Está na lógica dos seus princípios.
Se Deus não existe, ou se cada um inventa o seu deus, se a sociedade não reconhece uma ordem moral objetiva, porque o poder emana do povo, se a liberdade individual não tem outro limite senão a própria conciliação dos arbítrios, é claro que tem de haver não só eutanásia, aborto, “casamento” homossexual, necrofilia, zoofília, mas também mudança de “sexo”. Quem pode o mais pode o menos. Quem pode a eutanásia, por que não pode também a mudança de sexo? Se nas escolas se deve ensinar que a eutanásia é uma coisa normal diante do sofrimento físico, por que não se poderá ensinar a licença absoluta dos costumes?
Diante desse niilismo ético da democracia moderna, que deriva do dogma da soberania popular e da transmutação do dogma fora da Igreja não há salvação para o dogma fora da democracia não há salvação, só há um remédio: os católicos declararem um combate intrépido não só à ideologia do gênero, mas a sua causa natural, o democraticismo. Um combate doutrinário que esclareça o verdadeiro sentido da política, como organização da cidade formada por um conjunto de famílias e não simples soma de indivíduos soltos, como a arte de promover o bem comum, a vida virtuosa em ordem ao fim último. É preciso também deslindar o erro que se formou em torno da noção de cultura e de sua relação com a natureza. Infelizmente, também neste ponto há vários jornalistas católicos que não têm sabido explicar essa questão ao tratar do erro da ideologia de gênero.
O fundamental, porém, é que se desmascare o erro da religião moderna: a tentativa que se verifica, desde o Vaticano II, de conciliar o inconciliável: teocentrismo e antropocentrismo, uma concepção de mundo fundada na lei de Deus, na vontade de Deus, e uma concepção de mundo em que o homem é soberano, “cidadão”, uma concepção de mundo em que só o homem é rei e Cristo, no máximo, será presidente por um mandato, sem direito á reeleição, de uma república universal, eclética, em que todas as religiões e indivíduos, sem nenhuma distinção, viverão como quiserem na nova Babilônia. Não haverá mais homens e mulheres procedentes de famílias e linhagens, mas só indivíduos. Só assim, não havendo mais homens nem mulheres, mas só indivíduos, em pé de igualdade, haverá liberdade absoluta. Sob a batuta do Anticristo, é claro.
Anápolis, 9 de junho de 2015.
São Primo e São Feliciano, mártires.
Fonte: Santa Maria das Vitórias - http://santamariadasvitorias.org/a-ideologia-do-genero-e-a-deusa-democracia/

Bento XVI notou o dano dessa filosofia à dignidade humana, à família e às crianças. “Onde a liberdade do fazer se torna liberdade de fazer-se por si mesmo, chega-se necessariamente a negar o próprio Criador; e, consequentemente, o próprio homem como criatura de Deus, como imagem de Deus, é degradado na essência do seu ser”.
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