Seja por sempre e em todas partes conhecido, adorado, bendito, amado, servido e glorificado o diviníssimo Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria.

Nota do blog Salve Regina: “Nós aderimos de todo o coração e com toda a nossa alma à Roma católica, guardiã da fé católica e das tradições necessárias para a manutenção dessa fé, à Roma eterna, mestra de sabedoria e de verdade. Pelo contrário, negamo-nos e sempre nos temos negado a seguir a Roma de tendência neomodernista e neoprotestante que se manifestou claramente no Concílio Vaticano II, e depois do Concílio em todas as reformas que dele surgiram.” Mons. Marcel Lefebvre

Pax Domini sit semper tecum

Item 4º do Juramento Anti-modernista São PIO X: "Eu sinceramente mantenho que a Doutrina da Fé nos foi trazida desde os Apóstolos pelos Padres ortodoxos com exatamente o mesmo significado e sempre com o mesmo propósito. Assim sendo, eu rejeito inteiramente a falsa representação herética de que os dogmas evoluem e se modificam de um significado para outro diferente do que a Igreja antes manteve. Condeno também todo erro segundo o qual, no lugar do divino Depósito que foi confiado à esposa de Cristo para que ela o guardasse, há apenas uma invenção filosófica ou produto de consciência humana que foi gradualmente desenvolvida pelo esforço humano e continuará a se desenvolver indefinidamente" - JURAMENTO ANTI-MODERNISTA

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Eu conservo a MISSA TRADICIONAL, aquela que foi codificada, não fabricada, por São Pio V no século XVI, conforme um costume multissecular. Eu recuso, portanto, o ORDO MISSAE de Paulo VI”. - Declaração do Pe. Camel.

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Ao negar a celebração da Missa Tradicional ou ao obstruir e a discriminar, comportam-se como um administrador infiel e caprichoso que, contrariamente às instruções do pai da casa - tem a despensa trancada ou como uma madrasta má que dá às crianças uma dose deficiente. É possível que esses clérigos tenham medo do grande poder da verdade que irradia da celebração da Missa Tradicional. Pode comparar-se a Missa Tradicional a um leão: soltem-no e ele defender-se-á sozinho”. - D. Athanasius Schneider

"Os inimigos declarados de Deus e da Igreja devem ser difamados tanto quanto se possa (desde que não se falte à verdade), sendo obra de caridade gritar: Eis o lobo!, quando está entre o rebanho, ou em qualquer lugar onde seja encontrado".- São Francisco de Sales

“E eu lhes digo que o protestantismo não é cristianismo puro, nem cristianismo de espécie alguma; é pseudocristianismo, um cristianismo falso. Nem sequer tem os protestantes direito de se chamarem cristãos”. - Padre Amando Adriano Lochu

"MALDITOS os cristãos que suportam sem indignação que seu adorável SALVADOR seja posto lado a lado com Buda e Maomé em não sei que panteão de falsos deuses". - Padre Emmanuel

“O conteúdo das publicações são de inteira responsabilidade de seus autores indicados nas matérias ou nas citações das referidas fontes de origem, não significando, pelos administradores do blog, a inteira adesão das ideias expressas.”

26/08/2012

Atenágoras de Atenas (séc.II) - Petição em favor dos cristão.


Estrutura da petição

A Petição está, portanto, assim estruturada: caps. 1- 3 constituem uma introdução contendo a dedicatória e o objetivo da obra. No capo 4, o autor passa a refutar as acusações. A primeira é a de ateísmo. Atenágoras emprega 26 dos 37 capítulos da Petição para refutar esta acusação. Em síntese, ele diz: os cristãos não são ateus, mas adoram o Deus único, criador do universo. O Deus dos cristãos é único, mas, também, trino. No cap., 10, demons- trando racionalmente a unicidade de Deus, busca esclarecer o novo conceito de Deus uno-trino: "O Filho de Deus que é mente (nous)... conjugado com o Logos"."O Espírito Santo flui de Deus... ". OS cristãos não oferecem sacrifícios sangrentos não porque são ateus, mas porque o Deus verdadeiro só aprecia sacrifícios espirituais. Se eles se recusam a cultuar os deuses, é porque os julgam indignos de qualquer espécie de culto. Com moderação, mas com firmeza, Atenágoras diz que estes deuses são simples criaturas e os milagres que lhes são atribuídos são obras do demônio. Os cristãos, ao contrário dos ateus, praticam um culto mais puro, mais elevado e perfeito que os pagãos (caps. 4-30).

Nos caps. 31-34, o autor se empenha em demonstrar que os cristãos não cometem nenhuma imoralidade, nenhum ato incestuoso como se propaga. Ao contrário, interditam até mesmo os pensamentos maliciosos, por temor do castigo divino: "Nós, porém, estamos tão longe de ver isso com indiferença que não nos é lícito sequer olhar com intenção de desejo. (...) Como não acreditar que são castos os que nada podem olhar além daquilo para o qual Deus formou os olhos, isto é, para que fossem nossa luz, aqueles que consideram adultério o olhar com prazer, pois os olhos foram criados para outra finalidade, e os que serão julgados até pelos seus pensamentos?" (cap. 32). Os cristãos guardam, portanto, a castidade matrimonial e estão convencidos da indissolubilidade do matrimônio. Nem mesmo a morte pode dissolver este vínculo, por isso as segundas núpcias, mesmo em caso de viuvez, são consideradas "adultério decente" ou "adultério dissimulado" (cap. 33).

Finalmente, nos caps. 35-36, Atenágoras defende os cristãos contra a acusação de antropofagia. Ao contrário, os cristãos respeitam extremamente a vida humana; fogem dos jogos do circo; condenam o aborto por julgarem- no homicídio, pois o feto é já ser vivo e objeto dos cuidados de Deus. Além do mais, a fé na ressurreição é força que os impede de cometer estes excessos. F. Cayré sintetiza assim esta Apologia: "A apologia de atenágoras é uma das mais belas, por sua alta qualidade literária, pela lealdade na discussão e pela ciência de seu autor. A composição é remarcavelmente clara e metódica, a frase, sempre completa, muito rica em idéias, o raciocínio firme e vigoroso, o estilo preciso e sóbrio, por vezes conciso até à secura. Todo o conjunto deste escrito revela verdadeiro filósofo e mestre que discute segundo as regras. Atenágoras foi principalmente dialético, como Taciano polemista e como Justino, apóstolo. Além disso, tem mais de um ponto de semelhança com Justino, em particular na maneira benevolente com que trata a filosofia e os filósofos, e no comum esforço para aliar a filosofia e a religião" (Patroiogie. Histoire de ia Théoiogie I, Paris, 1947, p. 127.. ).


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Petição em favor dos cristão.
Atenágoras de Atenas (séc.II).

Petição em Favor dos Cristãos - Caps I a XII
Por Bispo Atenágoras de Atenas
Tradução: Ivo Storniolo, Euclides M. Balancin
Fonte: Padres Apostólicos, Volume I, Coleção Patrística. Ed. Paulus


INTRODUÇÃO E DEDICATÓRIA

Aos imperadores Marco Aurélio Antonino e Lúcio Aurélio Cômodo, armênicos, somáticos e, o que é o máximo título, filósofos.

1. Em vosso império, ó grandes entre os reis, certas pessoas usam alguns costumes e leis, e outras seguem outros, e a ninguém é proibido, nem por lei nem por medo de castigo, amar suas tradições pátrias, por mais ridículas que sejam. Desse modo, o troiano chama deus a Heitor e adora Helena, crendo que ela é Adrastéia; o lacedemônio cultua Agamenon como se fosse Zeus, Filonoe, filha de o Tindáreo, como se fosse Enódia; o ateniense sacrifica a Ereteu Posêidon, e os atenienses celebram iniciações e mistérios a Agraulo e Pandroso, iniciações que foram consideradas sacrílegas por terem aberto a caixa. Numa palavra, os homens, conforme as nações e os povos, oferecem os sacrifícios e celebram os mistérios à vontade. Quanto aos egípcios, têm como deuses os gatos, crocodilos, serpentes, víboras e cães. Vós e vossas leis tolerais tudo isso, pois considerais ímpio e sacrílego não crer de modo algum em Deus. É necessário que cada um tenha os deuses que quiser a fim de que, por temor à divindade, se abstenha de cometer impiedades. A nós, porém, embora não vos ofendais, como o vulgo, já ficamos sendo odiados, só em ouvir o nome visto que não são os homens que merecem o ódio, mas a injustiça, que merece pena e castigo. Daí que admirando a vossa suavidade e mansidão, o vosso amor à paz e a toda humanidade, as pessoas particulares são regidas por leis iguais, e as cidades, segundo a sua dignidade, participam também de igual honra, e a terra inteira goza, graças à vossa inteligência, de profunda paz. Quanto a nós, que somos chamados cristãos, não tendo providência por nós, permitis que, sem cometer nenhuma injustiça, mas pelo contrário, como a continuação do nosso discurso demonstrará, comportando-nos de modo mais piedoso e justo do que ninguém, não só diante da divindade, mas também em relação ao vosso império, permitis que sejamos acusados, maltratados e perseguidos, sem outro motivo para que o vulgo nos combata, a não ser apenas o nosso nome. Todavia, nós nos atrevemos a vos manifestar a nossa vida e doutrina, e com o nosso discurso compreendereis que sofremos sem causa e contra toda lei e razão, e vos suplicamos que também a nós deis alguma atenção, para que cesse, finalmente, a degolação a que nos submetem os caluniadores. Com efeito, não é perda de dinheiro que nos vem de nossos perseguidores, não é desonra no desfrutar de nossos direitos de cidadania, não é o prejuízo em alguma das outras coisas menores. Nós desprezamos tudo isso, por mais importante que pareça ao vulgo. Nós aprendemos não só a não ferir aquele que nos fere, mas também a não perseguir na justiça aqueles que nos roubam e saqueiam; mais ainda, àquele que nos dá uma bofetada numa face, devemos oferecer-lhe a outra, e a quem nos tira a túnica, devemos dar-lhe também o manto. Já que renunciamos às riquezas, o que eles atentam é contra os nossos corpos e as nossas almas, espalhando incontáveis acusações, que nem por suspeita tocam a nós; tocam sim aos que as propagam e aos de sua laia.

2. Se alguém é capaz de nos convencer de termos cometido uma injustiça, pequena ou grande, não fugiremos do castigo, mas pedimos antes que se nos inflija o que for mais áspero e cruel. Mas se a nossa acusação é tão somente o nome - e pelo menos até hoje o que propalam sobre nós é apenas vulgar e estúpido rumor das gentes, e não foi provado que algum cristão tenha cometido um crime - a vossa questão é, como imperadores máximos, humaníssimos e amicíssimos do saber, rejeitar por lei a calúnia feita contra nós, a fim de que, assim como toda a terra, pessoas particulares e cidades gozam de vosso benefício, também nós vos possamos agradecer, glorifi­cando-vos por termos deixado de ser caluniados. Com efeito, a vossa justiça não diz que, quando se acusa a outros, não se pode condená-los antes de tê-los interroga­ do? Quanto a nós, porém, vale mais o nome do que as provas do julgamento, pois os juízes não buscam averi­guar se o acusado cometeu algum crime, mas tratam-no com insolência por causa do nome, como se fosse crime. Entretanto, em si e por si, um nome não pode ser conside­rado bom ou mau, e sim que pareça bom ou mau conforme sejam boas ou más as ações que ele supõe. Sabeis disso melhor do que ninguém, pois sois formados na filosofia e em toda a cultura. Por isso, mesmo os que são julgados diante de vós, embora sejam acusados dos maiores crimes, estão confiantes e, sabendo que examinais sua vida e não atacais os seus nomes, se são vazios, nem atendeis às acusações, se são falsas, recebem com o mesmo espírito tanto a sentença de absolvição como a de condenação.

Também nós reclamamos o direito comum, isto é, que não sejamos odiados e castigados por termos o nome de cris­ tãos. Definitivamente, o que o nome tem a ver com a maldade? Reclamamos que cada um seja julgado por aquilo de que foi acusado, e nos absolvam, se desfizermos as acusações, ou nos castiguem se somos réus de maldade. Que não sejamos julgados pelo nome, mas pelo crime, pois nenhum cristão é mau, a não ser que professe fingidamente o cristianismo. Assim vemos que se procede com os filósofos. Nenhum deles, antes do julgamento, pelo simples fato de sua ciência ou profissão, é considerado pelo juíz como bom ou mau; pelo contrário, se é julgado injusto, é castigado, sem que por isso se faça qualquer acusação à filosofia, pois o mau é aquele que não a professa como é de lei; mas a ciência não tem culpa; e se ele se defende das acusações, então é absolvido. Proceda-se de modo igual conosco. Examine-se a vida dos que são acusados e deixese o nome livre de qualquer acusação.

Parece-me necessário, ó máximos imperadores, rogar-vos que, ao começar a defesa da nossa doutrina, vos mostreis ouvintes equânimes e não vos deixeis levar por algum preconceito, arrastados pelos rumores vulgares e irracionais, mas que também apliqueis à nossa doutrina o vosso amor ao saber e à verdade. Desse modo não pecareis por ignorância, e nós, livres das estúpidas intrigas do vulgo, deixaremos de ser combatidos.

3. São três as acusações que se propagam contra nós: o ateísmo, os convites de Tiestes, e as uniões edípicas. Se isso é verdade, não perdoeis a classe alguma. Castigai esses crimes, matai-nos pela raiz com nossas mulheres e filhos, se é que existe entre os homens alguém que viva como ós animais. Até os animais não atacam os de sua espécie, unem-se entre si por lei de natureza, e apenas no tempo da procriação, e não por dissolução e, finalmente, conhecem quem lhes faz benefício. Se alguém, portanto, é mais feroz do que as próprias feras, que castigo corresponderá a tantos crimes? Mas se isso é pura intriga e calúnias vazias, é de razão natural que a maldade se oponha à virtude e de lei divina que os contrários lutem entre si, e vós sois testemunhas de que nós não cometemos nenhum desses crimes, mandando que não confessássemos, a vós cabe agora fazer uma investigação sobre a nossa vida e doutrinas, sobre a nossa lealdade e obediência à vossa casa e império e, por fim, conceder-nos o mesmo que àqueles que nos perseguem. Nós os venceremos, pois estamos dispostos a dar intrepidamente até as nossas vidas pela verdade.

I PARTE: REFUTAÇÃO DAS ACUSAÇÕES DE ATEÍSMO E AFIRMAÇÃO DO MONOTEÍSMO

4. Refutarei agora cada uma das acusações. Que não sejamos ateus, temo até chegar ao ridículo deter-me para contestar àqueles que dizem tal coisa. Diágoras sim, era com razão reprovado pelos atenienses por causa do seu ateísmo. Com efeito, ele não só expunha publicamente a doutrina órfica e divulgava os mistérios de Elêusis e os dos Cabiros, e quebrava a estátua de Herácles para com os pedaços cozer os seus nabos, mas também diretamente afirmava que Deus não existe em absoluto. Nós, porém, distinguimos Deus da matéria e demonstramos que uma coisa é Deus e outra a matéria, e que a diferença entre um e outro é imensa, pois a divindade é incriada e eterna, contemplável apenas pela inteligência e pela razão, mas a matéria é criada e corruptível. Não é irracional chamar-nos de ateus? Com efeito, se pensássemos como Diágoras, tendo tantos argumentos para a crença em Deus - a ordem, a harmonia universal, a grandeza, a cor, a figura, a disposição do mundo -, então sim teríamos com razão a fama de ím-pios e haveria motivo para sermos perseguidos. Mas a nossa doutrina admite um só Deus, criador de todo este mundo, e ele não foi criado - pois não se cria o que existe, mas o que não existe -, e sim ele é criador de todas as coisas por meio do Verbo que dele procede. Portanto, sofremos ambas as coisas sem motivo, a má fama e a perseguição.

5. A ninguém pareceu que os poetas e filósofos eram ateus, porque especularam sobre Deus. Assim Eurípides, duvidando completamente sobre aqueles que a preocupação comum chama falsamente de deuses, disse: "Se é que Zeus está no céu, não deveria torná-lo desgraçado". Mas, dando a sua opinião sobre aquele que é cognoscível por ciência, diz: "Vês na altura este éter imenso e que mantém a terra ao redor em seus braços úmidos? Crê que este é Zeus; tem a este como Deus".

Com efeito, não via daqueles nem as essências que subsistiriam sob o nome que se lhes atribui - "Porque Zeus, seja Zeus quem for, dele sei apenas o nome" - nem que os nomes fossem atribuídos a coisas subsistentes. Ora, onde não há essências subsistentes, que valor têm os nomes? Este, porém, era visto pelas obras, entendendo que o aparente é manifestação do oculto. Assim, portanto, aquele cujas obras via e cujo espírito segura as rédeas de tudo, esse ele compreendeu como Deus. E com ele concorda Sófocles: "Um, em verdade, um só é Deus, que fabricou o céu e a vasta terra". Com isso ele ensina sobre a natureza de Deus, que enche o universo com a sua beleza, e não só onde deve estar Deus, mas também que deve ser necessariamente uno.

6. Também Filolao, ao afirmar que Deus fechou tudo como em uma prisão, demonstra que Deus é uno e que está acima da matéria. Quanto a Lisis e Opsimo, um defende a Deus como o número inefável, o outro como a diferença entre o número máximo e seu contíguo. Ora, conforme os pitagóricos, o número máximo é o dez, pois é tetractys ou quaternário e compreende todas as proporções aritméticas e harmônicas, e o contíguo a este é o nove. Portanto, Deus é a mônada, isto é, uno, pois supera por um o maior em relação ao seu contíguo inferior.

Platão e Aristóteles - aviso, antes de tudo, que não tenho a intenção de expor com absoluto rigor as doutrinas dos filósofos, ao citar o que disseram a respeito de Deus; com efeito, sei o quanto superais a todos por vossa inteli gência e o poder de vosso império, também sais versados em cada uma das partes da ciência, como não o são nem os que se reservaram uma só delas; todavia, como, sem citar nomes, era impossível demonstrar que não somos apenas nós que encerramos Deus na mônada, recorri aos florilégios ou coleções de sentenças. Platão, portanto, diz o seguinte: "Ao Criador e Pai de todo o universo não só é difícil encontrá-lo, mas, uma vez encontrado, é difícil manifestá-lo a todos", dando a entender que o Deus incriado e eterno é um. É certo que ele conhece outros, como o sol, a lua e as estrelas, mas conhece-os como seres criados: deuses de deuses, de que eu sou o artífice, e pai de obras que, se eu não quiser, não são desatáveis, pois tudo o que é atado é desatável". Portanto, se Platão não é ateu, por entender que o artífice do universo é um só Deus incriado, muito menos o somos nós, por saber e afirmar o Deus, por cujo Verbo tudo foi fabricado e por cujo Espírito tudo é mantido. Aristóteles e sua escola, que introduzem um só Deus como uma espécie de animal composto, dizem que Deus é composto de alma e corpo e consideram como seu corpo o éter, as estrelas errantes e a esfera das estrelas fixas, tudo movido circularmente; e consideram a alma como a inteligência que dirige o movimento do corpo, sem que ela própria se mova, sendo ela, em troca, a causa do movimento. Quanto aos estóicos, embora nos nomes multipliquem o divino nas denominações que lhe dão, conforme as mudanças da matéria, na realidade conside ram Deus como uno. Com efeito, se Deus é o fogo artificio so, que marcha por um caminho para a geração do mundo e compreende em si todas as razões seminais, segundo as quais tudo se produz conforme o destino, e se o espírito de Deus penetra o mundo inteiro, Deus é uno, segundo eles; e chama-se Zeus, se olha o fervor da matéria; ou Hera, se o ar; e daí por diante, conforme cada parte de matéria, por onde penetra abrir para o §

7. De qualquer forma, tratando dos princípios do universo, todos geralmente, até contra a sua vontade, estão de acordo em que o divino é uno, e nós afirmamos que quem ordenou todo o universo, esse é Deus. Portanto, qual é o motivo pelo qual se permite que uns possam dizer e escrever livremente sobre Deus, conforme queiram, e, por outro lado, haja uma lei estabelecida contra nós, justamente nós, que podemos estabelecer por sinais e razões de verdade o que entendemos e retamente cremos, isto é, que Deus é uno? Com efeito, os poetas e filósofos, aqui como em outros lugares, procederam por conjecturas, movidos conforme a simpatia do sopro de Deus, cada um por sua própria alma, a buscar se era possível encontrar e compreender a verdade. E só conseguiram entender, mas não encontrar o ser, pois não se dignaram aprender de Deus sobre Deus, mas cada um de si mesmo. Então, cada um dogmatizou a seu modo, não só a respeito de Deus, mas sobre a matéria, as formas e o mundo. Nós, porém, sobre o que entendemos e cremos, temos como testemunhas os profetas que, movidos pelo Espírito divino, falaram sobre Deus e as coisas de Deus. Ora, vós mesmos, que por vossa inteligência e vossa pie-dade em relação ao verdadeiramente divino ultrapassais a todos, direis que é irracional aderir a opiniões humanas, abandonando a fé no Espírito de Deus, que moveu, como seus instrumentos, as bocas dos profetas.

Demonstração racional do monoteísmo

8. Que o Deus Criador de todo este universo seja um só desde o princípio, considerai-o do seguinte modo, a fim de que tenhais também o arrazoado da nossa fé: Se, desde o princípio, tivesse havido dois ou mais deuses, certamente os dois teriam tido que estar em um só e mesmo lugar ou cada um, à parte, em seu lugar. Ora, é impossível que estivessem em um só e mesmo lugar, porque, sendo deuses, não seriam iguais, mas, como incriados, seriam desiguais. De fato, o criado é semelhante a seus modelos, mas o incriado não é semelhante a nada, pois não foi feito por ninguém, nem para ninguém. Se Deus é um só, como a mão, o olho e o pé são partes completivas de um só corpo, visto que delas se completa um só; Sócrates, sim, enquanto criado e corruptível, é composto e dividido em partes. Deus, porém, é incriado, impassível e indivisível. Portanto, não é composto de partes. Contudo, se cada um deles ocupa seu próprio lugar, sendo aquele que criou o mundo mais alto que todas as coisas e estando acima do que ele fez e ordenou, onde estará o outro ou os outros? Com efeito, se o mundo, que tem forma esférica perfeita, é limitado pelos círculos do céu, o Criador desse mesmo mundo está acima de tudo o que foi criado, conservando tudo com a sua providência, que lugar resta para o outro ou outros deuses? Porque não está no mundo, já que pertence a outro; nem em torno do mundo, pois o Deus Criador do mundo está acima deste. E se não está no mundo, nem em torno do mundo (porque tudo o que rodeia este é mantido pelo Criador), onde está? Acima do mundo e de Deus, em outro mundo e em torno a outro mundo? Mas se está noutro e em torno de outro, já não está em torno de nós (pois não tem poder sobre este mundo), nem é grande em si mesmo, pois está em lugar limitado. E se não está em outro mundo, porque tudo é repleto pelo criador do mundo, nem em torno a outro, porque tudo é mantido por este, então, definitivamente, não existe, pois não existe lugar onde esteja. O que é que faz, tendo outro de quem é o mundo e estando ele acima do Criador do mundo, mas não estando nem no mundo, nem ao redor do mundo? Existe, porém, um ponto de apoio em que se apóie aquele que foi feito contra aquele que é? Acima dele, porém, está Deus e as obras de Deus. E qual será o lugar, visto que o Criador preenche o que está acima do mundo? Têm providência? Não! Não tem providência também, porque não fez nada. Por fim, se nada faz, não tem providência, nem outro lugar onde esteja, existe, desde o princípio, um único e só: o Deus Criador do mundo.

9. Se nos contentássemos com esses argumentos de razão, poder-se-ia pensar que a nossa doutrina é humana. Entretanto, nossos arrazoados são confirmados pelas palavras dos profetas. Penso que vós, que sois amicíssimos do saber e instruidíssimos, não desconheceis os escritos de Moisés, nem de Isaías, Jeremias e outros profetas que, saindo de seus próprios pensamentos, por moção do Espírito divino, falaram o que neles se realizava, pois o Espírito se servia deles como flautista que sopra a flauta. Que dizem os profetas? "O Senhor é nosso Deus; não será contado nenhum outro com ele". E ainda: "Eu sou Deus antes e depois, além de mim não há Deus." Igualmente: "Antes de mim não existiu outro Deus, e depois de mim não existirá. Eu sou Deus e não outro além de mim." E a respeito de sua grandeza: "O céu é o meu trono e a terra é o escabelo de meus pés. Que casa me edificarás, ou qual é o lugar do meu descanso?" Deixo para vós, inclinados sobre os livros deles, examinar mais suas profecias, a fim de que, através de um raciocínio conveniente, recuseis a calúnia contra nós.

Afirmação da fé monoteísta e trinitária

10. Desse modo, fica suficientemente demonstrado que não somos ateus, pois admitimos um só Deus, incriado, eterno, e invisível, impassível, incompreensível e imenso, compreensível à razão só pela inteligência, rodeado de luz, beleza, espírito e poder inenarrável, pelo qual tudo foi feito através do Verbo que dele vem, e pelo qual tudo foi ordenado e se conserva. De fato, dele vem, e pelo qual tudo foi ordenado e se conserva. De fato, reconhecemos também um Filho de Deus. E que ninguém considere ridículo que, para mim, Deus tenha um Filho. Com efeito, nós não pensamos sobre Deus, e também Pai, e sobre seu Filho como fantasiam vossos poetas, mostrando-nos deuses que não são em nada melhores do que os homens, mas que o Filho de Deus é o Verbo do Pai em idéia e operação, pois conforme a ele e por seu intermédio tudo foi feito, sendo o Pai e o Filho um só. Estando o Filho no Pai e o Pai no Filho por unidade e poder do espírito, o Filho de Deus é inteligência e Verbo do Pai. Se, por causa da eminência de vossa inteligência, vos ocorre perguntar o que quer dizer "filho", eu o direi livremente: o Filho é o primeiro broto do Pai, não como feito, pois desde o princípio Deus, que é inteligência eterna, tinha o Verbo em si mesmo; sendo eternamente racional, mas como procedendo de Deus, quando todas as coisas materiais eram natureza informe e terra inerte e estavam misturadas as coisas mais pesadas com as mais leves, para ser sobre elas idéia e operação. E o Espírito profético concorda, com o nosso raciocínio, dizendo: "O Senhor me criou como princípio de seus caminhos para suas obras". Com efeito, dizemos que o mesmo Espírito Santo, que opera nos que falam profeticamente, é uma emanação de Deus, emanando e voltando como um raio de sol. Portanto, quem não se surpreenderá ao ouvir chamar de ateus indivíduos que admitem um Deus Pai, um Deus Filho e um Espírito Santo, que mostram seu poder na unidade e sua distinção na ordem1 ? E a nossa doutrina teológica não pára aqui, mas dizemos que existe uma multidão de anjos e ministros, aos quais Deus Criador e Artífice do mundo, por meio do Verbo que dele procede, distribuiu e ordenou, para que estivessem em torno dos elementos, dos céus, do mundo, do que há no mundo, e cuidassem de sua boa ordem.

11. Não vos maravilheis de que eu exponha tão detalhadamente nossa doutrina, pois todo o meu afã de exatidão se orienta a que não vos deixeis arrastar pela opinião vulgar e irracional, mas que tenhais o meio de conhecer a verdade. E assim que, pelos mesmos preceitos aos quais aderimos e que não são humanos, mas ditos por Deus e por Deus ensinados, podemos persuadir-vos de que não somos ateus. Quais são essas doutrinas com as quais nos nutrimos? "Eu vos digo: amai os vossos inimigos, bendizei aqueles que vos amaldiçoam, orai pelos que vos perseguem, para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus, que faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e chover sobre justos e injustos". Permiti-me aqui, pois este discurso foi ouvido com grandes aplausos, que prossiga com confiança, como quem pronuncia a sua defesa diante de imperadores filósofos. Com efeito, quem, dentre os que analisam os silogismos, solucionam os equívocos, esclarecem as etimologias, ou que ensinam os homônimos e sinônimos, os categoremas, os axiomas, o que é o sujeito e o que é predicado; quais desses prometem fazer felizes os seus discípulos por essas ou semelhantes doutrinas? Quais desses têm almas tão purificadas que amem os seus inimigos ao invés de odiá-los, e abençoem a quem primeiro os amaldiçoou - coisa naturalíssima -, e roguem contra aqueles que atentam contra a sua própria vida? Ao contrário, eles passam a vida aprofundando com má intenção seus próprios mistérios, estão sempre desejando fazer algum mal, pois professam não uma demonstração de obras, mas uma arte de palavras. Entre nós, porém, é fácil falar a pessoas simples, artesãos e velhinhas que, se não são capazes de manifestar a utilidade da sua religião, a demonstram pela prática. Com efeito, não aprendem discursos de cor, e sim manifestam boas ações: não ferir a quem os fere, não perseguir na justiça a quem os despoja, dar a todo aquele que lhes pede e amar ao próximo como a si mesmos.

12. Ora, se não acreditássemos que Deus preside ao gênero humano, poderíamos levar uma vida tão pura? Não é possível dizer. Mas como estamos persuadidos de que teremos de dar contas de toda a nossa vida presente a Deus, que fez a nós e ao mundo, escolhemos a vida moderada, caritativa e desprezada, pois pensamos que não podemos sofrer mal tão grande aqui, mesmo quando nos tirem a vida e qual será a recompensa que receberemos lá do grande juiz por uma vida mansa, caritativa e modesta. Platão disse que Minos e Radamante julgariam e castigariam os maus. Nós, porém, dizemos que nem o próprio Minos ou Radamante ou o pai deles escapará do julgamento de Deus. Além disso, homens que consideram essa vida como "comamos e bebamos, porque amanhã morreremos" e fazem da morte um sono profundo e puro esquecimento - "a morte e o sono, irmãos gêmeos" - são considerados piedosos. Nós, porém, homens que consideramos a vida presente de curta duração e de mínima estima, que nos dirigimos pelo único desejo de conhecer o Deus verdadeiro e o Verbo que dele procede - qual é a comunicação do Pai com o Filho, que coisa é o Espírito, qual é a união de tão grandes realidades, qual a distinção dos assim unidos, do Espírito, do Filho e do Pai-;nós que sabemos que a vida que esperamos é superior a tudo quanto a palavra pode expressar, se chegarmos até ela puros de toda iniqüidade; nós que vivemos a nossa caridade até amar não só os nossos amigos, como diz a Escritura: "Se amais os que vos amam e emprestais aos que vos emprestam, que recompensa tereis?", a nós que somos tais e vivemos tal vida para fugirmos de ser julgados, não somos considerados religiosos?

Tudo isso são pequenas amostras de grandes coisas, poucas entre muitas, a fim de não vos molestarmos com a prolixidade. Com efeito, os que provam o mel ou o soro, através de uma pequena quantia, examinam se o todo é bom.

Petição em Favor dos Cristãos - XXX a XXXVII
Por Bispo Atenágoras de Atenas
Tradução: Ivo Storniolo, Euclides M. Balancin
Fonte: Padres Apostólicos, Volume I, Coleção Patrística. Ed. Paulus


II PARTE: REFUTAÇÃO DAS ACUSAÇÕES DE IMORALIDADE, INCESTO E REFEIÇÕES BACANAIS

30. Ora, se pessoas tão abomináveis e odiosas a Deus alcançaram a reputação de ser deuses, e Semíramis, a filha de Derceto, mulher despudorada e criminosa, foi considerada deusa síria, e os sírios, através de Derceto, cultuam os peixes, e através de Semíramis as pombas - é impossível que uma mulher se transforme em pomba; a fábula aparece em Clésias-, o que há de estranho que aqueles que exerceram poder e tirania fossem chamados deuses por seus súditos? A Sibila (Platão também recor da) diz: "Virá então a décima geração de míseros homens, desde que o dilúvio caiu sobre os primeiros mortais, e reinaram Cronos, Titã e Iapeto, filhos poderosos da terra e do céu, que os homens chamaram de Gaia e Urano, dando-lhes nome por terem sido os primeiros entre os míseros homens"; uns por sua força, como Héracles e Perseu; outros por sua arte, como Asclépio.

Portanto, a uns foram os súditos que tributaram honra divina, a outros foram os governantes; uns por medo e outros por respeito tiveram parte no nome divino (o próprio Antínoco, por benevolência de nossos antepassados para com seus súditos, teve a sorte de ser considerado deus). Depois a posteridade os aceitou sem qualquer prova ou exame: "Cretenses sempre mentirosos. Com efeito, ó rei, os cretenses fabricaram o teu sepulcro. Tu, porém, não morreste".

Calímaco, tu que crês no nascimento de Zeus recusas crer em sua sepultura, e pensando jogar uma sombra sobre a verdade, não fazes senão anunciar um morto mesmo àqueles que não o conhecem. Se olhas a gruta, te lembras do parto de Rea; mas se te fixas no ataúde, lanças uma sombra sobre o morto e já não sabes que só o Deus incriado é eterno.

Concluindo, ou os mitos do vulgo e dos poetas sobre os deuses são indignos de fé, e então é supérfluo o culto que se lhes tributa, porque não existem aquelas personagens sobre as quais essas fábulas tratam; ou se são verdadeiros seus nascimentos, amores, assassínios, roubos, mutilações e fulminações, também não existem, pois deixaram de existir, uma vez que nasceram por não existirem antes. Com efeito, que razão há para crer em alguns relatos e não crer em outros, quando tudo foi contado pelos poetas, com a finalidade de glorificá-los? De fato, os que foram causa de que fossem considerados deuses ao exaltar suas histórias, não mentiriam contando os seus sofrimentos.

Fica portanto demonstrado, segundo minhas forças, embora não conforme a dignidade do assunto, que não somos ateus ao admitir como o Deus, Criador de todo este universo, e o Verbo que dele procede.

31. Além disso, acusam-nos sobre comidas e uniões ímpias, pretendendo com isso encontrar alguma razão para nos odiar. Pensam que, amedrontando-nos, nos afastarão do nosso propósito de vida; ou, com suas acusações exorbitantes, nos exasperarão e arrumarão intrigas com os governantes. Isso para nós é puro jogo, pois sabemos que esse costume é antigo e não inventado só para o nosso caso e que se realiza por uma espécie e razão divina, isto é, que a maldade faça sempre guerra à virtude. Assim, Pitágoras foi queimado pelo fogo com trezentos companheiros; Heráclito e Demócrito foram exilados, um de Efeso e o outro de Abdera, acusados de loucura; os atenienses condenaram Sócrates à morte. Mas se todos esses não perderam a reputação de virtude por causa da opinião do vulgo, a estúpida calúnia de alguns contra nós não faz nenhuma sombra à retidão de nossa vida, pois temos boa fama diante de Deus. Entretanto, quero também enfrentar essas acusações.

Sei que com o que eu disse estou defendido diante de vós. De fato, superando a todos por vossa inteligência, sabeis que aqueles que tomam a Deus como regra de vida, para que cada um de nós esteja sem culpa e sem mancha em sua presença, não podem ter, em pensamento, o mais leve pecado, e acreditássemos que nada existe além desta vida presente, poder-se-ia suspeitar que pecássemos, submetendo-nos à servidão da carne e do sangue ou sendo dominados pelo lucro e pelo desejo. Sabendo, porém, como sabemos, que Deus vigia nossos pensamentos e nossas palavras, tanto de dia como de noite, e que ele é todo luz e vê até dentro do nosso coração; acreditando, como cremos, que, ao sair desta vida, viveremos outra melhor, contando que permaneçamos com Deus e por Deus inquebrantáveis e superiores às paixões, com alma não carnal, mas com espírito celeste, embora na carne; ou acreditando que, se cairmos como os demais, espera-nos uma vida pior no fogo (porque Deus não nos criou como rebanhos ou bestas de carga, de passagem, só para morrer e desaparecer); crendo nisso, dizíamos, não é lógico que nos entreguemos voluntariamente ao mal e nos joguemos a nós mesmos nas mãos do grande juiz para sermos castigados.

32. Não há nada de surpreendente que falem de nós a mesma coisa que contam sobre seus deuses, pois apresentam suas paixões como mistérios. Contudo, se querem apresentar como crime o unir-se livre e indiferentemente, teriam de começar a rejeitar Zeus, que teve filhos com sua mãe Rea e com sua filha Coré e cuja mulher é a própria irmã, ou rejeitar Orfeu, o inventor de todos esses contos, que tornou Zeus mais ímpio e abominável do que Tiestes; com efeito, este se uniu com a própria filha através de um oráculo e pelo desejo de chegar a reinar e vingar-se. Nós, porém, estamos tão longe de ver isso com indiferença que não nos é lícito sequer olhar com intenção de desejo. De fato, a Escritura diz: "Aquele que olha para uma mulher a fim de desejá-la já cometeu adultério em seu coração". Como não acreditar que são castos os que nada podem olhar além daquilo para o qual Deus formou os olhos, isto é, para que fossem nossa luz, aqueles que consideram adultério o olhar com prazer, pois os olhos foram criados para outra finalidade, e os que serão julgados até pelos seus pensamentos? Nós nada temos a ver com leis humanas, que qualquer malvado pode burlar (desde o começo, ó soberano, vos assegurei que nossa doutrina era ensinamento de Deus), mas temos uma lei e mandamento, que nos deu a nós mesmos e ao nosso próximo como medida de justiça. Por isso, dependendo da idade, consideramos a uns como filhos e filhas, a outros como irmãos e irmãs, e aos mais velhos tributamos honra de pais e mães. Assim, empenhamo-nos para que aqueles aos quais damos nome de irmãos e irmãs e outras qualificações familiares, permaneçam sem ultraje ou corrupção em seus corpos, como nos diz também a palavra divina: "Se alguém, por ter gostado, dá um segundo beijo..." Portanto, é preciso ser muito exato a respeito do beijo e principalmente na adoração, porque por pouco que manchem nossa mente nos colocam fora da vida eterna.

Indissolubilidade do matrimônio

33. Como temos esperança na vida eterna, desprezamos as coisas da vida presente e até os prazeres da alma, tendo cada um de nós por mulher aquela que tomou conforme as leis estabelecidas por nós e com a finalidade de procriar filhos3. Assim como o lavrador, jogada a semente na terra, espera a colheita e não continua semeando, do mesmo modo, para nós, a medida do desejo é a procriação de fïlhos . E até é fácil encontrar muitos dentre nós, homens e mulheres, que chegaram celibatários à velhice, com a esperança de um relacionamento mais íntimo com Deus. Se o viver na virgindade e castração aproxima mais de Deus e só o pensamento e o desejo separa, se fugimos dos pensamentos, quanto mais não recusaremos as obras? Nossa religião não se mede pelos discursos cuidadosos, mas pela demonstração e ensinamento de obras: ou se permanece como nasceu, ou não se contrai mais do que um matrimônio, pois o segundo é um adultério decente. A Escritura diz: "Quem deixa sua mulher e casa com outra, comete adultério", não permitindo deixar aquela cuja virgindade desfez, nem casar-se novamente. Quem se separa de sua primeira mulher, mesmo quando morreu, é adúltero dissimulado, transgredindo a mão de Deus, pois no princípio Deus formou um só homem e uma só mulher, desfazendo a comunidade da carne com a carne, segundo a unidade para a união dos sexos.

34. Nós que somos assim (por que devo falar o que não pode ser dito?), temos que ouvir o provérbio: "A prostituta para a casta". Com efeito, os que fazem mercado de prostituição e constroem para os jovens prostíbulos para todo prazer vergonhoso; os que não perdoam nem aos homens, cometendo atos torpes homens com homens; os que ultrajam de mil modos os corpos mais respeitáveis e mais formosos, desonrando a beleza feita por Deus (pois a beleza não nasce espantaneamente da terra, mas é enviada pela mão e desígnio de Deus); esses nos atiram na cara aquilo de que têm consciência, o que eles chamam de deuses, adúlteros e pederastas insultando aos virgens e monógamos. Eles que vivem como peixes (pois devoram quem lhes cai na boca, o mais forte atacando o mais fraco - isso sim é alimentar-se de carnes humanas - e que, tendo leis estabelecidas por vossos antecessores após maduro exame para toda a justiça, violentam-se os homens contra elas, de modo que não são suficientes os governadores mandados por vós para os julgamentos); esses, dizíamos, acusam os que não podem deixar de se apresentar aos que os golpeiam nem de abençoar os que os amaldiçoam. Para nós não basta ser justos - a justiça consiste em dar o mesmo aos iguais - mas nos é proposto que sejamos bons e pacientes.

III PARTE: OS CRISTÃOS NÃO SÃO ANTROPÓFAGOS

35. Quem, em plena razão, poderia dizer que, sendo assim, somos assassinos? Não é possível saciar-se de carne humana, se antes não matamos alguém. Se eles mentem quanto ao primeiro ponto, mentem também quanto ao segundo. Com efeito, se lhes é perguntado se viram o que dizem, não existe ninguém tão sem-vergonha que diga ter visto. Entretanto, temos escravos, alguns mais outros menos, para os quais não é possível ocultarnos. No entanto, nenhum deles chegou a caluniar-nos com semelhantes coisas. De fato, os que sabem que não suportamos ver uma execução com justiça, como vão nos acusar de matar e comer homens? Quem de vós não se entusiasma em ver os espetáculos de gladiadores ou de feras, principalmente os que são organizados por vós? Nós, porém, que consideramos que ver matar está próximo do próprio matar, nos abstemos de tais espetáculos. Portanto, como podemos matar os que não queremos sequer ver para não contrair mancha ou impureza em nós? Afirmamos que as mulheres que tentam o aborto cometem homicídio e terão que dar contas a Deus por ele 4; então, por que iríamos matar alguém? Não se pode pensar que aquele que a mulher leva no ventre é um ser vivente e objeto, conseqüentemente, da providência de Deus e em seguida matar aquele que já tem anos de vida; não expor o nascido, crendo que expor os filhos equivale a matá-los, e tirar a vida ao que já foi criado. Não! Nós somos em tudo e sempre iguais e concordes com nós mesmos, pois servimos à razão e não a violentamos.

" Princípio de moral e de não-violência ao ser indefeso de extrema atualidade. Atitude corajosa concepção avançada da natureza do feto como ser vivo, objeto dos cuidados de Deus, quando o direito romano da época não o considerava como ser vivo e não se lhe reconhecia direito de existência.

36. Além disso, quem crê na ressurreição quererá oferecer-se como sepultura dos corpos que hão de ressuscitar? Não é possível alguém acreditar que nossos corpos ressuscitarão e, ao mesmo tempo, os coma, como se não devessem ressuscitar; pensar que a terra devolverá seus próprios mortos e, ao mesmo tempo, pensar que aqueles que engoliu não reclamarão. É mais verossímil o contrário, aqueles que pensam que não se terá de dar conta desta vida, tanto faz se é boa ou má, e que não haverá ressurreição, mas que julgam que com o corpo perece também a alma e esta como que se apaga; é natural, dizíamos, que esses não se abstenham de nenhum atrevimento, crêem que nada ficará sem ser examinado diante de Deus e que juntamente com a alma será castigado o corpo que cooperou com seus impulsos e desejos irracionais, quanto a esses não há razão para que cometam o mais leve pecado. Se para alguém parece pura charlatanice que um corpo apodrecido, desfeito e desaparecido torne a organizar-se, não poderia por parte daqueles que não crêem na ressurreição imputar-nos maldade, mas ingenuidade. De fato, se nos enganamos a nós mesmos com essas razões, não causamos prejuízo a ninguém. Entretanto, não somos apenas nós que admitimos a ressurreição dos corpos, mas muitos filósofos também estão conosco. Contudo, seria ocioso demonstrar-vos isso agora, a não ser que introduzíssemos raciocínios estranhos ao nosso objetivo, falando do inteligível, do sensível, da constituição de um e de outro, que o incorporal é anterior aos corpos, que inteligível precede o sensível, embora não seja isso o que primeiro encontramos, pois os corpos são constituídos de elementos incorpóreos, conforme a acumulação do inteligível, e o sensível é constituído de elementos inteligíveis. Segundo a doutrina de Pitágoras e de Platão, nada impede que, realizada a dissolução dos corpos, voltem depois a organizar-se com os mesmos elementos dos quais eram constituídos no princípio.

37. Reservemos, porém, para outra ocasião o discurso sobre a ressurreição. Quanto a vós que, em tudo e por tudo, por natureza e educação, sois bons, moderados, humanos e dignos do império, inclinai vossa imperial cabeça diante de quem desfez todas as acusações e demonstrou que somos piedosos, modestos e puros em nossas almas. Quais são os que merecem, com mais justiça, conseguir o que pedem senão nós que rogamos por vosso império, para que o herdeis, como é de estrita justiça, de pai para filho, que cresça e acresça, através da submissão de todos os homens? Isso também redunda em proveito nosso, para que, levando uma vida tranqüila e pacífica, cumpramos animadamente tudo quanto nos é mandado.

3Explicação de um princípio de "moral matrimonial" que vai fazer muita história e mantido até hoje por parte da Igreja oficial: fim primeiro e último do matrimônio é a procriação; todo ato conjugal, toda união sexual que não esteja em função da procriação é pecaminosa.

Petição em Favor dos Cristãos - XIII a XXIX
Por Bispo Atenágoras de Atenas
Tradução: Ivo Storniolo, Euclides M. Balancin
Fonte: Padres Apostólicos, Volume I, Coleção Patrística. Ed. Paulus


13. Contudo, já que aqueles que nos acusam de ateísmo - vulgo que não sabe sequer em sonho que é Deus, tão ignorantes e alheios que são à contemplação tanto da razão teológica como da física, que medem a religião por lei de sacrifícios - nos reprovam por não termos os mesmos deuses que as cidades, considerai, vos peço, ó imperadores, um e outro ponto do modo que segue, e, antes de tudo, a reprovação por não sacrificar. O Artífice e Pai deste universo não tem necessidade nem de sangue nem de gordura, nem de perfume de flores e incensos, já que ele é o perfume perfeito; nada lhe falta, e de nada necessita. Para ele o máximo sacrifício é que reconheçamos quem estendeu e deu força esférica aos céus e assentou a terra como centro, que reuniu as águas em mares e separou a luz das trevas, quem adornou o éter com astros e fez que a terra produzisse sementes, quem criou os animais e plasmou o homem. Considerando, pois, Deus como artífice que contém tudo e que olha tudo com a ciência e a arte com que dirige tudo, e levantando as nossas mãos puras para ele, que necessidade há de catástrofes?

"Os homens tratam de dobrá-los com sacrifícios e suaves súplicas, com libação e gordura, suplicando-lhes quando alguém comete transgressão e pecado". Que falta me fazem os holocaustos de que Deus não necessita? E que falta me faz apresentar oferendas, quando se deve ofere cer-lhe sacrifícios incruentos, que é culto racional?

14. Sobre o fato de não nos aproximarmos ou termos como deuses os mesmos que as cidades têm, é palavra totalmente idiota; mas nem aqueles que nos acusam de ateísmo por não considerarmos como deuses aqueles aos quais de modo vão se aproximam, concordam entre si a respeito dos deuses. Os atenienses estabelecem como deuses Celeu e Metanira; os lacedemônios estabelecem Menelau, e a ele sacrificam e celebram festas; os troianos, que não podem sequer ouvir seu nome, estabelecem Heitor; os habitantes de Queos estabelecem Aristeu, que identificam com Zeus e Apolo; os tássios estabelecem Teágenes, que cometeu homicídio nos jogos olímpicos; os habitantes de Samos estabelecem Lisandro, depois de tantas mortes e tantos males; os cilícios consideram Medéia e Níobe; os sículos consideram Filipe, filho de Butacides; os amatúsios consideram Onesilau; os cartagineses consideram Amílcar. O dia acabaria se eu tivesse que enumerar toda a multidão. Se eles entre si não estão de acordo sobre seus próprios deuses, por que nos acusam de não coincidir com eles? Quanto aos egípcios, a coisa chega ao ridículo. Em suas grandes reuniões, eles batem no peito nos templos, como pelos mortos, e lhes oferecem sacrifícios como a deuses; e ninguém estranha que introduzam animais como deuses, raspem a cabeça quando morrem, os enterrem nos templos e organizem lutos públicos. Se nós, portanto, por não praticar a religião como eles, somos ímpios, todas as cidades e todas as nações são ímpias, pois não são todos que têm os mesmos deuses.

15. Aceitemos, porém, que todos admitissem os mesmos deuses. E daí? Se o vulgo, incapaz de distinguir entre matéria e Deus, e de compreender a diferença que existe de uma para outro, recorre aos ídolos feitos de matéria, deveremos também nós adorar as estátuas para agradá-los? Nós, que distinguimos e separamos o incriado do criado, o ser do não-ser, o inteligível do sensível, e que damos nome conveniente a cada uma dessas coisas? Com efeito, se a matéria e Deus são a mesma coisa, e se trata apenas de dois nomes para a mesma realidade, não aceitando como deuses as pedras, a madeira, o ouro e a prata, cometemos uma impiedade; contudo, se existe imensa distância entre um e outro, como do artista para os instrumentos de sua arte, por que nos acusam? Como o oleiro e o barro, o barro é a matéria e o oleiro é o artista, assim Deus é o artífice, e a matéria lhe obedece em vista da arte. Mas como o barro sem a ação do artista não pode por si mesmo converter-se em vasos, também a matéria, capaz de qualquer forma, não teria recebido em distinção nem figura nem ornato sem a ação do Deus artífice. Ora, nós não consideramos o vaso mais digno de honra do que o seu fabricante, nem as taças de ouro mais dignas de honra do que aquele que as fundiu, mas, se vemos nelas alguma habilidade artística, louvamos o artista e é este que colhe o fruto da glória dos vasos. Do mesmo modo, tratando-se de Deus e da matéria, não é esta que recebe a glória e a justa honra pela ordenação do mundo, mas Deus, artífice da matéria. Assim, se considerássemos como deuses as formas da matéria, daríamos prova de não ter o sentido do Deus verdadeiro, equiparando o dissolúvel e corruptível ao eterno.

16. Certamente o mundo é belo, abarca tudo com a sua grandeza, pela disposição dos astros da ecléptica e os do setentrião, e por sua forma esférica; contudo, não é a ele, mas ao seu artífice que se deve adorar. Com efeito, nem mesmo vossos súditos que recorrem a vós, seus donos e senhores, dos quais podem conseguir o que necessitam, vos deixam de honrar para deter-se na magnificência de vossa moradia; de passagem, eles olham vosso palácio imperial e admiram sua bela feitura; contudo, a glória e a honra eles as tributam inteiramente a vós. E de se notar que vós, os reis, construís para vós mesmos vossas régias moradas; o mundo, porém, não foi feito porque Deus necessitasse dele, pois Deus é tudo para si mesmo, luz inacessível, mundo perfeito, espírito, poder, verbo. Portanto, se o mundo é um instrumento harmonioso que se move conforme um ritmo, eu não adoro o instrumento, mas a quem lhe dá harmonia, o faz emitir os sons e entoa o canto afinado. Nem mesmo nos jogos públicos os atletas deixam de lado os tocadores de cítaras e coroam as cítaras deles. Se o mundo é, como diz Platão, uma obra de Deus, admirando sua beleza, eu me dirijo ao artista. Se é essência e corpo, como querem os peripatéticos, não vamos deixar de adorar a Deus, causa do movimento desse corpo, para cair nos elementos míseros e fracos, preferindo em nossas adorações a matéria passível ao éter que, segundo eles, é impassível. E se existe quem entende as partes do mundo como potências de Deus, não vamos prestar honras às potências, mas ao criador e dono delas. Não peço à matéria o que ela não tem, nem abandono a Deus para servir aos elementos, que podem apenas aquilo que lhes é ordenado. Se é certo que são formosas à vista por perícia do artífice, nem por isso deixam de ser perecíveis por natureza da matéria. O próprio Platão confirma meu raciocínio. Ele diz: "O que chamamos céu e mundo, embora participe de muitos e afortunados bens da parte do Pai, contudo, também tem a comunicação do corpo e, por isso, é impossível que esteja isento de toda mudança". Se, embora admirando o céu e os elementos por causa da arte que neles resplandece, não os adoro como a deuses, pois conheço a razão de dissolução que pesa sobre eles, como chamarei deuses aos que eu sei que têm homens como artífices?

17. Peço-vos considereis brevemente este ponto2. (E preciso que fazendo a nossa defesa, como estou, eu apresenteargumentos mais precisos, tanto sobre os nomes, para demonstrar que são recentes, como sobre as imagens, para ver que procedem, como se diz, de ontem e anteontem; e isso vós o sabeis melhor do que ninguém, pois sois versados nos antigos a respeito de todo assunto e em grau superior a todos). Portanto, digo que Orfeu, Homero e Hesíodo são os que estabeleceramas famílias e deram os nomes aos que por eles são chamados deuses. O próprio Heródoto o confirma: "Considero Hesíodo e Homero quatrocentos anos mais antigos do que eu, não mais, e foram eles que estabeleceram a Teogonia para os gregos, que deram suas denominações aos deuses, distribuindo suas honras e ofícios e explicando suas formas." Quanto às suas imagens, enquanto não existiam a pintura, a plástica e a escultura, não eram sequer concebíveis. Foi na época de Sáurio de Samos, de Cráton de Sicião, de Cleantes de Corinto e de uma moça coríntia que foi inventada a representação das figuras, quando Sáurio delineou um cavalo ao sol; a pintura foi quando Cráton recobriu de cor, em uma tábua branca, as figuras de um homem e de uma mulher. A fabricação de bonecos foi inventada pela moça: enamorada por um homem, delineou, enquanto dormia, a figura dele na parede; depois, o seu pai, satisfeito com a exata semelhança (sabe-se que ele trabalhava com argila), a esculpiu, enchendo o contorno de barro. A imagem ainda é conservada em Corinto. A esses sucederam Dédalo, Teodoro e Smilis, que inventaram a escultura e a plástica. Na verdade, as imagens e fabricação dos ídolos têm tão pouco tempo que é possível indicar o artífice de cada deus. Assim, foi Endoio, discípulo de Dédalo, que fabricou a estátua de Ártemis em Éfeso, a de Atenas (ou melhor, de Atela, pois assim a chamam os que falam misteriosamente... falo, portanto, da antiga estátua de oliveira), e até da Sentada; Apolo Pítio é obra de Teodoro e de Télecles; Délio e Ártemis são arte de Tecteu e de Angelião; a Hera de Argos e a de Samos saíram das mãos de Smilis; os demais ídolos são de Fídias; a segunda Afrodite é obra de Praxíteles; o Asclépio de Epidauro é obra de Fídias. Numa palavra, nenhum dos ídolos pode escapar de ser fabricado por homens. Ora, se são deuses, como não existiam desde o princípio? Como são mais recentes que aqueles que os fabricaram? Que necessidade tinham, para nascer, dos homens e da arte? Tudo isso, porém, é apenas terra, pedras, matéria e arte supérflua.

18. Há aqueles que dizem que isso são apenas estátuas, mas é aos deuses que elas se referem, que as procissões que a elas se fazem e os sacrifícios que se lhes oferecem terminam nos deuses e a eles se dirigem, que não existe, enfim, outro meio de aproximar-se dos deuses sem este: "os deuses são difíceis de aparecer claramente". E que isso seja assim, apresentam como prova as atividades de alguns ídolos. Se vos agrada, examinemos o poder que existe em seus nomes. Antes de iniciar o meu discurso, eu vos rogo, ó máximos imperadores, que me perdoeis se apresento apenas raciocínios verdadeiros. O meu propósito não é refutar os ídolos, e sim desfazer as calúnias contra nós e oferecer-vos a razão de nossa religião. Ora, vós, por vós mesmos, poderíeis examinar o império celeste. Com efeito, como a vós, pai e filho, vos foi posto tudo na mão ao receber o império de cima: "Porque a alma do rei está nas mãos de Deus", diz o Espírito profético, do mesmo modo está submetido a um só Deus e ao Verbo que dele procede seu filho concebido como seu inseparável. Antes de tudo, eu vos peço, portanto, que considereis este ponto. Os deuses não existiram, conforme dizem, desde um princípio, mas cada um deles nasceu do mesmo modo que nascemos. Nisso todos concordam, pois Homero diz: "Ao Oceano, origem dos deuses, e à mãe Tétis".

Orfeu, que foi o primeiro a inventar os seus nomes e explicou suas genealogias, que contou as façanhas de cada um, e que se acredita entre o vulgo ser o mais veraz teólogo, a quem geralmente Homero segue mais do que ninguém em assunto de deuses, Orfeu, como dizia, também estabelece a primeira origem deles na água: "O Oceano, que é a origem de todos." Com efeito, segundo ele, a água foi o princípio de tudo e da água formou-se um lodo e de ambos foi gerado um animal, um dragão que tinha unidas uma cabeça de leão e outra de touro, e entre as duas, um rosto de deus, cujo nome é Héracles e Crono. Héracles gerou um enorme ovo que, cheio da força daquele que o havia gerado, rompeu-se em dois por atrito. A parte superior transformou-se no Céu, a debaixo na Terra, e surgiu um deus de duplo corpo. O Céu, unido com a Terra, gerou as mulheres Cloto, Láquesis e Atropo, os homens centímanos: Coto, Giges, Briareu, e os ciclopes Brontes, Estetopes e Arges. Mas como ficou sabendo que seria derrubado de seu império por seus próprios filhos, acorrentou-os e atirou-os na profundeza do Tártaro. Irritada com isso, a Terra gerou os titãs: "A augusta Gaia gerou os filhos de Urano que chamam pelo sobrenome de titãs, pois eles se vingaram do grande Urano estrelado".

19. Tal é o princípio da gênese, não só daqueles que eles consideram deuses, mas do universo todo. Considerai, portanto, este ponto: cada um desses aos quais se atribui a divindade, como princípio, também é forçoso que seja corruptível. De fato, se nasceram não existindo, como dizem os que teologizam sobre eles, não existem, porque uma coisa ou é incriada e, por conclusão, eterna, ou é criada e, por conseguinte, corruptível. Não falo diferentemente dos filósofos: "O que é que é sempre e não tem princípio? O que é que começa e não é nunca? Platão, discorrendo sobre o inteligível e o sensível, ensina que aquilo que é sempre, o inteligível, é o incriado; e aquilo que não é, o sensível, criado, que começa a ser e deixa de ser. Por isso, também os estóicos dizem que tudo há de perecer numa conflagração, e voltar a ser de novo, readquirindo princípio. Ora, se, conforme eles, existem duas causas, a eficiente, que é aquela que manda, como a providência, e a passiva, que é aquela que muda, como matéria, e é impossível que, mesmo governado pela providência, o mundo permaneça em um ser, desde o momento que tem princípio, como permanecerá a constituição desses que não existem por natureza, mas que nascem? Em que são superiores à matéria deuses que têm a sua constituição a partir da água? Mas nem mesmo a água, segundo eles, é princípio de tudo. (Com efeito, o que é que poderia constituir-se de elementos simples e uniformes? Além disso, a matéria sempre necessita de artífices e o artífice necessita da matéria. De fato, como poderiam ser feitas as imagens sem matéria ou sem artífice?) Não há razão alguma para que a matéria seja mais antiga do que Deus, pois é forçoso que a causa eficiente seja anterior ao que tem princípio.

20. Ora, se o absurdo de sua teologia ficasse na afirmação de que os deuses nascem e se constituem da água, uma vez que demonstrei que não existe nada criado que não seja também dissolúvel, poderia passar às outras acusações que nos fazem; de uma parte, porém, descreveram os corpos dos deuses: um Héracles, o qual dizem que era um dragão retorcido; os deuses de cem mãos; a filha de Zeus, que ele teve com sua mãe Rea, também chamada Deméter, que tinha dois olhos no lugar natural e outros dois na fronte, além de chifres e a face de animal na parte posterior do pescoço, com o que, espantada com aquele monstro de filha, Rea fugiu sem dar-lhe o peito. É daí que misticamente se chama Atela, ao passo que comumente se lhe dá o nome de Perséfone e Coré, que não é a mesma que Atenas, à qual também se chama Core, por causa de sua virgindade. Por outro lado, também nos contaram suas façanhas exatamente conforme eles pensam: Cronos, que cortou o membro viril de seu pai e ele próprio o atirou de seu carro, e que matava seus filhos, devorando os varões. Zeus, que amarrou seu pai e o atirou na profundeza do Tártaro, como já fizera Urano com seus filhos, que lutou contra os titãs pela supremacia e perseguiu sua mãe Rea, que recusava unir-se com ele, convertendo-se ela em dragão, ele também em dragão e, amarrando-o com o chamado nó de Héracles, finalmente uniu-se com ela (o símbolo da figura da união é o bastão de Hermes). Depois Urano também se uniu com sua filha Perséfone, forçandoa sob a forma de dragão, e dela nasceu o filho Dioniso. Tudo isso me força a dizer o seguinte: o que há de importante ou de útil nessa história, para que acreditemos que Cronos, Zeus, Coré e os outros sejam deuses? As configurações de seus corpos? Contudo, que homem discreto e formado na contemplação filosófica pode acreditar que um deus tenha gerado uma víbora? Assim diz Orfeu: "Fanes, porém, espantosa à vista; de sua cabeça pendem os cabelos e o seu rosto é belo de se ver, mas nas partes restantes ela é dragão espantoso desde a altura do pescoço..."

Quem poderá admitir que o próprio Fanes, que é o deus primogênito (pois este é o que saiu do ovo derramado), tenha corpo ou figura de dragão ou que tenha sido devorado por Zeus, a fim de que este se tornasse imenso? Com efeito, se em nada se diferenciam dos mais vis animais (e é evidente que a divindade deve diferenciar-se de todo terreno e até daquilo que é separado da matéria), não são deuses. Por que aos que nascem com forma semelhante à dos animais, têm forma de animais e aspecto horrível?

21. Na verdade, se dissessem apenas que seus deuses são carnais, que têm sangue, esperma, paixões de ira e desejo, já seria o bastante para qualificar todos esses relatos de charlatanice e coisa ridícula; de fato, em Deus não há ira, desejo, instinto ou sêmen gerador. Podem ser de carne, mas superiores ao fastio e à colera, e não vejamos Atenas "irritada contra Zeus Pai, pois uma cólera feroz a arrebatara", e não contemplemos Hera, a quem "a cólera não lhe cabia no peito e disse"; também superiores à tristeza: "Que dor! Estou vendo com meus olhos o homem verdadeiramente querido perseguido em torno da muralha, e meu coração se entristece". De minha parte, considero como homens deseducados e torpes aqueles que cedem à cólera e à tristeza. Com efeito, quando o "pai de homens e deuses" se lamenta por seu filho: "Ai de mim! Pois Sarpedon, o mais querido dos homens, foi decretado pelo destino que ele seja domado por Pátroclo, filho de Menécio" e, com todos os seus lamentos, é incapaz de livrá-lo do perigo: "Sarpedon, filho de Zeus, e este nem a seu filho socorre".

Quem não chamará de ignorantes aqueles que se mostram amadores dos deuses com tais fábulas, quando, na realidade, são ateus? Podem ser carnais, mas que Afrodite não seja ferida nem no corpo por Diomedes: "Feriu-me o filho de Tideu, o soberbo Diomedes", nem por Ares na alma: "Por ser coxo, Afrodite, a filha de Zeus, sempre me despreza e ama o horrível Hares". Nem Hares pelo próprio Diomedes: "E lhe arrancou a bela pele". Ares, o espantoso nas batalhas e aliado de Zeus contra os titãs, aparece mais fraco que Diomedes: "Ia furioso, como quando Ares brande a sua lança". Cala-te, Homero, pois Deus não se enfurece; tu és aquele que me apresentas Deus como manchado de sangue e funesto para os mortais: "Ares, Ares, destruição de mortais, manchado de sangue", e nos contas o seu adultério e acorrentamento: "Os dois, tendo subido ao leito, adormeceram, mas ao redor deles estenderam-se as hábeis correntes do engenhoso Héfesto, e já não era possível mover os membros".

Como não rejeitar todo esse interminável charlatanismo sobre os deuses? Urano foi castrado, Cronos foi acorrentado e jogado no Tártaro, os titãs se rebelam, Estígia morre no decorrer da batalha (até como mortais nos apresentam os deuses), uns se enamoram pelos outros e também se enamoram pelos homens: "Éneas, que foi concebido pela divina Afrodite nos braços de Asquises, nas quebradas do Ida, uma deusa deitada com um mortal". Os deuses, porém, não amam, nem têm paixões, porque se são deuses não são afetados pelo desejo... E se Deus toma carne, segundo a divina economia, torna-se escravo do desejo?

"Com efeito, jamais o amor de deusa ou de mulher domou o meu coração dentro do peito em torno derramado, nem quando amei a esposa de Ixião; nem quando amei Dânae, a de belos tornozelos, a de Acrísio; nem quando amei a filha do ilustre Fênix, nem quando amei Sêmele ou Alcmena em Tebas, nem quando amei Deméter, a rainha de belas tranças, nem quando amei a gloriosa Seto, nem a ti mesma". Se um ser é criado, ele é corruptível, e nada tem de Deus. E chegam a servir os homens como diaristas: "O palácios de Admeto, em que eu tive que suportar e aceitar a mesa de diarista sendo um deus." Também são boiadeiros: "Vindo eu a esta terra, apascentei os bois de meu hóspede e salvei esta casa". Portanto, Admeto é superior ao deus. Ó adivinho e sábio, que predizes o futuro para os outros! Tu não foste capaz de adivinhar a morte do teu amado, mas com a tua própria mão mataste o teu amigo. E Esquilo censura Apolo como falso adivinho: "Eu acreditava que a boca divina de Febo era infalível, pois dela brota a arte da adivinhação; e ele próprio, que entoava o hino, presente ao convite e que me predissera isso, foi ele que matou o meu filho".

22. Talvez se diga que tudo isso são fantasias poéticas, e que existe uma explicação física para tudo isso. Como diz Empédocles: "Esplêndido Zeus, e Hera que dá a vida, Aidoneu e Néstis, que banha de lágrimas os olhos mortais". Contudo, se Zeus é o fogo, Hera a terra, Aidoneu o ar e Néstis a água, e tudo isso são elementos-fogo, água, ar -, nenhum deles é Deus: nem Zeus, nem Hera, nem Aidoneu, pois a constituição e origem de todos provém da matéria separada por Deus: "Fogo, água e terra, a benigna altura do ar, e a amizade entre eles".

Aquele que não pode permanecer sem a amizade, pois está confundido pela discórdia, quem poderá dizer algo de Deus? Conforme Empédocles, a amizade é o que manda, e os compostos são o mandado, e o que manda é o principal. De modo que, se julgamos ser uma e a mesma a potência do que manda e do mandado, não nos damos conta de estar tributando honra igual à matéria corruptível do ser mutante e a Deus incriado, eterno e sempre concorde consigo mesmo.

Segundo os estóicos, Zeus é a substância fervente; Hera, que é o ar, pois o próprio nome concorda com o som, enlaça-se consigo mesmo; Posêidon é a bebida. Outros dão outras explicações naturais. Com efeito, uns dizem que Zeus é o ar de dupla natureza, hermafrodita; outros dizem que ele é a ocasião que muda o tempo em boa temperatura e que, por isso, foi o único que escapou de Cronos. Contudo, é preciso dizer contra os estóicos: se considerais o Deus dupremo como um só, incriado e eterno, e que são compostas as coisas onde se processa a mudança da matéria, e afirmais que o espírito de Deus, que penetra através da matéria, recebe um ou outro nome conforme sua mudança, então as formas da matéria se converterão em corpo de Deus e, corrompendo-se os elementos pela conflagração, forçosamente também os nomes se corromperão junto com as formas, permanecendo unicamente o espírito de Deus. Entretanto, quem é que considerará como deuses corpos corruptíveis e mutáveis conforme a matéria?

Quanto aos que dizem que Cronos é o tempo e Rea a terra; que esta concebe de Cronos e gera e que, por isso, é chamada mãe de todos; que ele gera e devora; que a mutilação de seus órgãos sexuais é a união do macho e da fêmea que corta e joga o sêmen na matriz e gera o homem que tem dentro o desejo, isto é, Afrodite; que a loucura de Cronos é o giro do tempo, consumindo o animado e o inanimado; que as correntes e o Tártaro são o tempo que muda e se torna invisível pelas estações; contra esses dizemos: se Cronos é o tempo, então muda; se é a estação, gira; se é as trevas, o gelo ou sua substância úmida, nada disso permanece; a divindade, porém, é imortal, imóvel e imutável. Portanto, nem Cronos, nem o ídolo que o representa, é deus. Quanto a Zeus, se ele é o ar gerado de Cronos", cujo elemento masculino é Zeus e o feminino Hera (daí que ela seja sua esposa e irmã), é mutável; se ele é a estação, gira; o divino, porém, não muda, nem decai.

Contudo, para que continuar importunando-vos com novas explicações, se vós sabeis melhor as explicações que deram todos aqueles que sobre isso especularam? O que entenderam sobre os deuses aqueles que, por exemplo, escreveram sobre Atena, dizendo que ela é a inteligência que tudo penetra? Ou sobre Ísis, que chamam de natureza da eternidade, da qual todos nasceram e pela qual todos existem? Ou sobre Osíris, seu irmão, morto por Tifão, perto de Pelúsio, cujos membros ela vai buscar junto com o seu filho Horo e, tendo-os encontrado em um sepulcro,que até hoje se chama tumba de Osíris? Com efeito, resolvendo para cima e para baixo as formas da matéria, o que fazem é desviar-se de Deus, que se contempla pela razão, e divinizar os elementos e suas partes, pondo-lhes diversidade de nomes. Por exemplo: a semeadura de trigo, Osíris (do qual dizem que nos mistérios se clama a Ísis por causa do achado dos membros ou dos frutos: "Encontra mos, nos alegramos"); o fruto da vinha, Dioniso; a própria vinha Sêmele, raio, ao calor do sol. Na verdade, os que explicam alegoricamente os mitos, divinizando os ele mentos, nos dão qualquer coisa, menos explicações do divino, pois não se dão conta de que com aquilo que tentam defender seus deuses, confirmam ainda mais os raciocínios contra eles. O que é que Europa e o touro, o cisne e Leda têm a ver com a terra e o ar, para que nos venham dizer que o abominável tratamento de Zeus para com elas representa a união da terra e do ar? Desviando-se da grandeza de Deus e incapazes de remontar pelo raciocínio, pois não sentem simpatia pelo lugar celeste, se consomem e se afundam nas formas da matéria, divinizam as mudanças dos elementos, tão absurdo como alguém confundir o navio em que viaja com o piloto que o dirige. Mas como o navio nada vale, mesmo com todos os seus apetrechos, se não tem piloto, igualmente de nada vale a ordem dos elementos sem a providência de Deus. De fato, nem o navio navegará por si mesmo, nem os elementos se movimentarão sem um criador.

23. Vós, porém, que superais a todos em inteligência, poderíeis objetar: Então por que alguns ídolos agem, se não existem os deuses em cuja honra erguemos as imagens? Não é verossímil que estátuas inanimadas e imóveis tenham por si mesmas alguma força sem que alguém as mova. Desde já, nós mesmos não negamos que em determinados lugares, cidades e povoados aconteçam algumas operações em nome dos ídolos; entretanto, porque alguns tenham recebido proveito e outros prejuízo, não vamos considerar deuses aqueles que agiram em um ou outro sentido, mas investigamos cuidadosamente o motivo de crerdes que os ídolos têm alguma força e quais são os que agem, usurpando seus nomes. Antes de tudo, porém, já que quais são os que agem nos ídolos e que não são deuses, é preciso trazer como testemunhas também alguns filósofos. Tales, como dizem os que conhecem a fundo suas doutrinas, foi o primeiro que estabeleceu a divisão entre Deus, demônios e heróis. Por Deus, ele entende a mente do mundo; por demônios, as substâncias animadas; por heróis, as almas separadas dos homens, bons as boas, maus as más. Platão, que em outros pontos se mostra reservado, também distingue entre o Deus incriado, os astros fixos ou errantes, criados pelo Incriado, para enfeitar o céu, e os demônios. Ele recusa falar desses demônios, mas quer que se acredite nos que falaram sobre eles: "Falar da multidão de demônios e conhecer as suas origens é tarefa que ultrapassa nossas forças, mas deve-se acreditar nos que falaram anteriormente, já que, como dizem, são descendentes dos próprios deuses, e é de se supor que conheçam exatamente seus ascendentes. Portanto, é impossível não crer nos filhos de Deus, mesmo quando falam sem provas verossímeis ou necessárias, mas, seguindo o costume, deve-se crer neles como em pessoas que nos certificam estar nos contando a história de sua própria família. Dessa forma, seguindo a eles, sirva isso também para nós e digamos que a origem desses deuses é a seguinte: Da terra e do céu nasceram dois filhos: o Oceano e Tétis; desses nasceram Forco, Cronos, Rea e todo o seu séquito; de Cronos e Rea nasceram Zeus e Hera e todos os que sabemos que se dizem seus irmãos, e, por fim, os outros descendentes desses".

Entretanto, Platão, que compreendeu o Deus eterno apenas pela inteligência e razão exeqüível; ele, que explicou os atributos que lhe convêm: seu ser real, sua unidade de natureza, o bem que dele se derrama, que é a verdade; ele, que falou da "primeira potência", e disse: "Em torno do rei de todas as coisas está tudo, por causa dele tudo existe e ele é a causa de tudo"; e da segunda e terceira: "O segundo em torno do segundo, e o terceiro em torno do terceiro"; Platão pode considerar empresa superior às suas forças investigar a verdade sobre os que se dizem ter nascido de coisas sensíveis do céu e da terra? Não se pode dizer tal coisa. A verdade é que, como ele entendia ser impossível os deuses gerarem e conceberem, pois o que nasce tem conseqüentemente fim, mais impossível ainda seria mudar a convicção do vulgo, que aceita os mitos sem exame ou prova. Por esse motivo, disse que estava acima de suas forças conhecer e explicar a gênese da multidão dos demônios, pois não podia compreender, nem explicar como os demônios possam ter nascimento. A outra passagem sua, em que diz: "Zeus, o grande guia no céu, lançase à marcha conduzindo o seu carro, e atrás dele segue o exército dos deuses e demônios", não deve ser entendida de Zeus, o assim chamado filho de Crono, pois com o seu nome quer-se significar o Criador do universo. O próprio Platão deixa isso bem claro. Não tendo outro termo para significar isso, usou o nome popular como pôde, não como nome próprio de Deus, mas por razão de clareza, já que não era possível representar para todos o Deus verdadeiro. Depois acrescentou-lhe o qualificativo de "grande", para diferenciar o celeste do terreno, o incriado do criado, este mais jovem que o céu e a terra e até mais jovem que os cretenses, que o roubaram para que não fosse devorado por seu pai.

24. Que necessidade há de recordar-vos os poetas e examinar também outras opiniões para vós que examinastes toda a doutrina? É suficiente acrescentar apenas uma consideração. Mesmo quando poetas e filósofos não reconheceram que Deus é um só, mas uns pensaram nos deuses como demônios, outros como matéria, outros como tendo sido homens, haveria motivo para perseguir-nos, a nós que, com o nosso raciocínio distinguimos Deus da matéria e as substâncias de um e da outra? De fato, assim como confessamos Deus, o Filho, que é o seu Verbo, e o Espírito Santo, identificados segundo o poder, mas distintos segundo a ordem: o Pai, o Filho e Espírito, porque o Filho é inteligência, Verbo e sabedoria do Pai, e o Espírito, emanação como luz do fogo, também entendemos que existem outras potências que rodeiam a matéria e a penetram, e uma contrária a Deus. Não porque exista algo contrário a Deus, da mesma forma que a discórdia é contrária à amizade, conforme Empédocles, ou a noite contrária ao dia, entre os fenômenos naturais - se alguma coisa se enfrentasse assim com Deus, cessaria completamente de ser, pois a sua substância seria destruída pela potência e força de Deus -; mas porque o Espírito que rodeia a matéria é contrário à sua bondade, atributo que lhe é próprio e que coexiste com ele como o calor com o fogo, sem o qual não pode existir-não que seja parte sua, mas é acompanhamento necessário, identificado e compenetrado, como o vermelho com o fogo e o azul com o céu -; Espésito, dizíamos, criado certamente espírito, por Deus, como foram por ele criados os demais anjos, e ao qual foi confiada a administração da matéria e das formas da matéria. Com efeito, a substância desses anjos foi criada por Deus para providência das coisas por ele ordenadas, de modo que Deus conservaria a providência universal e geral do universo - o domínio e o poder sobre tudo dependeria dele, e ele dirigiria isso sozinho, indeclinavelmente, como um navio, com o timão da sua sabedoria-; mas os anjos por ele ordenados se encarregariam da providência particular. Do mesmo modo, porém, que os homens têm livre-arbítrio podem optar pela virtude e pela maldade - pois se não estivesse em seu poder a maldade e a virtude, não honraríeis os bons nem castigaríeis os maus, quando uns se mostram diligentes e outros desleais naquilo que lhes confiais -, assim tam bém os anjos. Uns, que foram imediatamente criados livres por Deus, permaneceram naquilo que Deus os criara e ordenara; outros se orgulharam tanto de sua natureza, como do império que exerciam, isto é, esse que é príncipe da matéria e das suas formas, e os outros encarregados desse primeiro firmamento-e deveis saber que não afirmamos nada sem testemunhas; expressamos apenas o que foi dito pelos profetas -; estes, por terem caído em desejo pelas virgens e mostrando-se inferiores à carne; aquele, por ter sido negligente e mau na administração que lhe fora confiada. Dos que tiveram relação com virgens nasceram gigantes. Não vos maravilheis, se em parte os poetas também falam dos gigantes, pois a sabedoria humana e a divina distam entre si assim como a verdade dista do verossímil. Uma é celeste e outra é terrena e, segundo o príncipe da matéria, "sabemos dizer muitas mentiras semelhantes à verdade".

25. Portanto, esses anjos caídos do céu, que rondam em torno do ar e da terra, e que já não são capazes de subir ao supraceleste, e as almas dos gigantes são os demônios, que andam errantes ao redor do mundo e produzem movimentos semelhantes; os demônios às substâncias que receberam, os anjos aos desejos que sentiram. Quanto ao príncipe da matéria, como se pode ver pela experiência, ele governa e administra de modo contrário à bondade de Deus: "Muitas vezes, uma preocupação atravessou a minha alma. Se é o acaso, se é demônio que domina o humano, pois contra a esperança, contra a justiça, alguns são arrancados de suas casas, sem Deus, e outros são levados à felicidade." Se o ser feliz ou desgraçado contra a esperança e a justiça deixa mudo Eurípedes, de quem será uma administração das coisas terrenas, diante da qual se pode dizer: "Vendo tudo isso, como diremos que a raça dos deuses existe ou obedeceremos às leis?" Isso também levou Aristóteles a dizer que as partes inferiores do céu não são governadas pela providência, mas a verdade é que a providência eterna de Deus permanece para nós de modo igual: "A terra, queira ou não queira, por força, produzindo erva, engorda os meus rebanhos", e a providência particular chega de fato e não em aparência para os que são dignos, e os outros são providos conforme a constituição comum das coisas, por lei da razão. O que acontece é que os movimentos demoníacos do espírito contrário e suas operações produzem esses impulsos desordenados que vemos arrastar os homens, uns de um modo, outros de outro, alguns individualmente, outros por nações, alguns parcialmente, outros em comum, segundo a razão da matéria e da simpatia com o divino; movimentos do interior, como do exterior, que obrigaram alguns, cujas opiniões não são desprezíveis, a pensar que todo este universo não está organizado com ordem, mas que tudo anda revirado por um acaso irracional. Eles ignoram que, quanto à constituição do universo, não existe nada desordenado, nem descuidado, mas cada parte sua foi feita com razão e, por isso, nenhuma transgride a ordem que lhe foi marcada. Quanto ao homem, se se olha para o seu Criador, também foi feito ordenadamente: a natureza de sua origem, que tem uma só e comum razão; a organização de sua formação, que não pode transgredir a lei que a rege; e o termo de sua vida, que permanece igual e comum para todos, embora, segundo a razão própria de cada um e a ação do príncipe da matéria que o domina e dos demônios que o acompanham, cada um se dirija e se mova de modo diverso, apesar de todos terem em si o raciocínio comum.

26. Aqueles que os arrastam aos ídolos são esses demônios dos quais falamos, os que andam em torno do sangue das vítimas e o lambem; mas os deuses que agradam o vulgo e dão o seu nome às estátuas foram apenas homens, como se pode averiguar pelas histórias que deles tratam. A prova de que são os demônios que usurpam seus nomes está na operação que cada um exerce. De fato, aqueles que cultuam Rea, mutilam o próprio membro viril; outros, os de Ártemis, fazem cortes ou incisões em si mesmos; a de Tauros mata estrangeiros. Deixo de falar sobre os que se torturam com punhais e correias de ossos, e tantas outras espécies de demônios. Não é próprio de Deus incitar a atos contra a natureza: "Quando um demônio quer fazer mal a um homem, primeiro lhe prejudica a inteligência." Deus, porém, que é absolutamente bom, é eternamente benéfico.

Que sejam uns que agem e outros em cuja honra se erguem as estátuas, temos uma prova definitiva em Tróia e Pário. A primeira tem estátuas de Nerilino, contemporâneo nosso; Páris tem estátuas de Alexandre e Proteu. Há ainda na ágora ou praça pública o sepulcro e a estátua de Alexandre. Ora, as outras estátuas de Nerilino servem de ornamento público, se é que com tais coisas se orna uma cidade. Crê-se, porém, que uma delas dá oráculos e realiza curas e, por isso, os troianos lhe oferecem sacrifícios, a ungem e a coroam de ouro. Quanto às estátuas de Alexandre e Proteu (não ignorais que este se atirou ao fogo em Olímpia), diz-se também que uma emite oráculos, e a estátua de Alexandre - "Páris malfadado, brava figura, mulherengo" -também são oferecidos sacrifícios e celebradas festas, como a deus propício. De fato, são Nerilino, Proteu e Alexandre que realizam esses prodígios nas estátuas ou é a constituição da matéria? Mas a matéria é puro bronze. Que é que o bronze pode por si mesmo, se se pode transformá-lo em outra figura, como fez Amásis, segundo Heródoto, com a bacia para os pés? E o que é que Nerilino, Proteu e Alexandre têm a ver com os enfermos? O que se diz que a estátua realiza agora, o fazia quando Nerilino vivia e até quando estava enfermo.

27. O que pensar, então? Primeiramente, os movimentos irracionais e fantásticos da alma sobre as aparições arrancam da matéria algumas vezes uma imagem, outras vezes outras imagens, e outras são formadas e geradas por eles mesmos. E isso padece a alma principalmente quando recebe o espírito material, com ele, e já não olha para cima, para o celeste e seu Criador, mas para baixo, para o terreno e, para fazê-lo de modo geral, quando se converte em pura carne e sangue e não em espírito limpo. Esses movimentos irracionais e fantásticos da alma geram imagens de frenética idolatria; e quando a alma, delicada e fácil de conduzir, que não ouviu nem tem experiência de sólidas doutrinas, que não contemplou a verdade nem compreendeu o Pai e Criador do universo, se imprime em si essas falsas opiniões sobre si mesma, os demônios que rondam a matéria, gulosos como são de gordura e sangue das vítimas e enganadores dos homens, apoderando-se desses movimentos de falsa opinião das almas do vulgo, fazem que fantasias se infiltrem neles, como se viessem das imagens cujos nomes usurpam, e são eles que colhem a glória do que a alma por si mesma, imortal como é, e se move racionalmente, ora para predizer o futuro, ora para curar o presente.

28. Talvez seja necessário, conforme anteriormente indicado, dizer algo também sobre os nomes. Heródoto e Alexandre, filho de Filipe, na carta à sua mãe-diz-se que tanto um como o outro conversaram com os sacerdotes em Heliópolis, Mênfis e Tebas -dizem ter sabido deles que seus deuses foram homens. Heródoto diz: "Tais demonstraram que eram aqueles que as estátuas representavam, mas muito diferentes dos deuses; antes desses homens, os deuses mandaram no Egito, vivendo junto aos humanos, e era sempre um deles que retinha o poder, e o último rei foi Horo, filho de Osíris, a quem os gregos chamam de Apolo. Este, tendo destronado Tifão, foi o último que reinou no Egito. Osíris, em grego, é Dioniso".

Assim, portanto, tanto os outros como o último, foram reis do Egito, e os nomes dos deuses vieram dos egípcios para os gregos. Apolo é filho de Dioniso e de Ísis. O próprio Heródoto diz: "Dizem que Apolo e Ártemis são filhos de Ísis e que Leto foi sua nutriz e salvadora". Daí se vê que os primeiros reis, de origem celeste como eram, seja por ignorância da verdadeira piedade para com a divindade, seja por gratidão para com o seu poder, foram tidos, como deuses junto com suas mulheres. "Agora todos os egípcios sacrificam bois puros, assim como os bezerros; as vacas, porém, não lhes é lícito sacrificá-las, mas estão sacrificadas a Isis. Com efeito, a estátua de Ísis, que representa numa mulher, tem chifres, da maneira como os gregos pintam Io". E o que se poderia crer melhor ao dizer isso, senão naqueles que por sucessão de família, o filho do pai, herdam o sacerdócio e juntamente a história? De fato, não é verossímil que os guardiães dos templos mintam, que tenham interesse em exaltar seus ídolos, ao apresentá-los como homens.

Se Heródoto disse que os egípcios falam de seus deuses como de homens, quando o próprio Heródoto diz: "Não estou disposto a divulgar os relatos divinos que escutei", não há a mais leve razão para não crer nele, como se fosse um inventor de mitos. Mas como Alexandre e Hermes, o chamado Trismegisto, e tantos outros mais, não fazendo a enumeração de todos, que uniram suas próprias famílias com os deuses, já não há razão para não pensar que, sendo homens, foram tidos como deuses. Que eles foram homens, o manifestam os mais eruditos entre os egípcios, os quais, ao chamar de deuses o éter, a terra, o sol e a lua, consideram os demais como homens mortais e os templos como seus sepulcros; isso manifesta também Apolodoro em seu tratado sobre os deuses. Além disso, Heródoto chama de mistérios os sofrimentos deles: "Já narrei anteriormente como celebram a festa em honra de Ísis na cidade de Busíris. Todos, homens e mulheres, se golpeiam depois do sacrifício, e a fé que milhares de pessoas ali depositam. Todavia, não é piedoso que eu lhes diga a maneira como se golpeiam". Se são deuses, são imortais; mas se se golpeiam e seus sofrimentos são mistérios, são homens. O próprio Heródoto diz: "Em Sais, no templo de Atenas, por detrás e seguindo ao longo da parede, está o sepulcro do deus, cujo nome não considero piedoso pronunciar na presente ocasião. Ali há também, junto ao sepulcro, um lago com bordas de pedra, bem trabalhado e circular, ao que me parece com a mesma extensão do que em Delos se chama Trocóides. Nesse lago, durante a noite, fazem-se as representações de seus sofrimentos, que os egípcios chamam de mistérios". Não só se expõe o sepulcro de Osíris, mas também a sua múmia: "Quando se lhes leva um cadáver, mostramse aos portadores modelos de mortos em madeira, imitados pela pintura; e dizem que a mais exata delas é a do deus, cujo nome não considero piedoso pronunciar na presente ocasião.

29. Também os sábios gregos, poetas e historiadores, contam a respeito de Héracles: "Cruel! Não respeitou a ira dos deuses, nem a mesa que lhe pusera, e depois matou seu próprio hóspede", isto é, Ifito. Sendo assim, é natural que fosse louco, natural que acendesse uma fogueira e se queimasse vivo. De Asclépio, Hesíodo conta que: "o pai dos homens e dos deuses se irritou, e acertando-o do Olimpo com raio fuliginoso, matou Letoida, perturbando o coração de Tebo". E Píndaro diz: "Mas até a sabedoria é atada pelo lucro. Também ele foi desviado pelo ouro que apareceu em sua mão por doce recompensa; mas o filho de Cronos, disparando com suas mãos, arrebatou-lhe velozmente o alento do peito, e o ardente raio feriu o insensato".

Portanto, ou eram deuses e não se comportavam como homens em relação ao ouro: "Ouro, o mais belo presente para mortais, prazer que nem uma mãe ou os filhos ofereceu". A divindade não tem necessidade, e está acima do desejo. Também não morreram. Ou, sendo homens, foram maus por ignorância e se deixaram dominar pelo dinheiro. Para que falar amplamente, recordando Cástor e Pólux ou Anfiaseu, os quais, sendo, como se diz, homens de ontem ou ante-ontem, são considerados deuses? A própria Ino, depois de sua loucura e o que nela sofreu, dizem que se transfomou em deusa: "aqueles que caminham errantes pelo Ponto, a chamam Leucotéia", assim como seu filho: "será chamado augusto Palêmon pelos marinheiros".

25/08/2012

A demolidora obra da maçonaria eclesiástica e laica



Nos últimos dias, em pequenos avisos recebidos, tenho sido instado a escrever sobre o futuro da Igreja. Aproveito então colocar abaixo parte das visões tidas pela grande mísitica Anna Catharina Emmerich, relativas ao calvário final da Igreja e a sua reconstrução rumo a Jerusalém Celeste. Algumas explicações serão dadas ao texto, que infelizmente recebi traduzido do espanhol por um programa de computador e nem sempre consegui dar a fidelidade devida. Desconheço a fonte, a autoria e o remetente.

"A demolidora obra da maçonaria eclesiástica e laica nas Visões e Revelações à Venerável Ana Catharina Emmerich Tomada do Livro 3, Cap.XXV "Visões do Anticristo e do triunfo da Igreja".
Introdução.
Entre o cúmulo de visões de acontecimentos passados e presentes, em alguns dos quais intervém misteriosamente Ana Catarina, alude-se reiteradas vezes à luta dos poderes das trevas contra os filhos da luz. Algumas podem ser consideradas proféticas, porque se referem a certos acontecimentos ocorridos com posterioridade à morte da vidente e a nossa época (então final da guerra de 1939). Entre outras, aplanasse quadros que julgamos apocalípticos, como os que descrevem a desolação da terra, a apostasia das massas, as tribulações dos cristãos sob o reinado do Anticristo e o Triunfo glorioso da Igreja de Cristo.
A visão da besta "do mar" é semelhante à consignada no Apocalipse, com o adicionado, sobre o texto canónico, de que o monstro tem fila de peixe e várias cabeças que formam como uma coroa em torno da maior. As notas nas páginas contribuem a identificar algumas destas cenas com as de São João, cujo maravilhoso livro era desconhecido pela estigmatizada de Dülmen (Região da Alemanha onde nasceu e morreu Ana Catarina).

1. Maquinações dos malvados contra a Igreja. (Oitava de Natal de 1819)
Vi à Igreja de São Pedro e a uma grande multidão de homens afanados em destruí-la, enquanto outros trabalhavam em restaurá-la. Os trabalhadores estavam espalhados por todo mundo e me admirava a conformidade de seus trabalhos. Os obreiros que tratavam de destruir o templo, arrancavam pedaços do mesmo; entre estes distingui a muitos hereges e apóstatas. Trabalhavam de acordo a certas regras os que levavam mantos brancos, com bolsos, bordados com faixas azuis e planas sujeitas à cintura. Estavam vestidos com toda classe de trajes; entre eles tinha homens altos e corpulentos, com uniformes e estrelas; mas estes não trabalhavam, senão que indicavam nos muros, com a plana, onde e como tinham de demolir.
Vi com espanto que entre eles tinha sacerdotes católicos. Às vezes, quando não sabiam como demolir, acercavam-se a um dos seus, que tinha um grande livro, no qual parece que estava indicado como estava feito o edifício e a maneira de derrubá-lo. Depois assinalavam com a plana uma parte dele, para que fora destruída, a qual, efetivamente se derrubava. Os que derrubavam o edifício faziam calma e seguramente, mas com timidez, secretamente, postos como em espreita.
Vi ao Papa em oração rodeado de falsos amigos, que muitas vezes faziam o contrário do que se lhes mandava. Vi a um homem malvado, negro e de baixa estatura, trabalhar muito ativamente contra a Igreja. Enquanto o templo era destruído por estes em alguma parte, reedificando outros por outra parte, mas sem energia nem vigor. Vi também muitos eclesiásticos a quem conhecia entre eles o Vigário Geral, cuja vista me causou muita alegria. Passou sem turvar-se por entre os demolidores e dispôs o necessário para a conservação e restauração do templo.
Esta frase é profética e se refere à situação deste papa e dos últimos. Ela na verdade quase não conseguem mais trabalha, porque imobilizados por um segundo escalão desobediente, que muitas vezes faz o contrário do que o papa quer, e ainda por cima usa malignamente o nome dele.
Vi também a meu confessor levar uma grande pedra, dando um bom rodeio. Vi outros sacerdotes, preguiçosos, rezar as horas com seu breviário e levar, muito de vez em quando, alguma pedrinha sob os hábitos ou alongar-se a outros. Parecia que nenhum tinha confiança nem gosto no trabalho, já que trabalhavam sem direção e sem saber o que faziam.
Aquilo era aflitivo. Já estava destruída a parte anterior da Igreja e não ficava em pé mais do que o sacrário. Eu estava muito triste, pensando onde se acharia aquele homem com veste vermelha e bandeira branca, que se me tinha representado outras vezes sobre a mesma Igreja, salvando-a da destruição.

2. A Santíssima Virgem protege a Igreja.
Então vi a uma grande Senhora, cheia de majestade, que vinha pela grande vaga que há adiante do templo. Tinha um manto estendido, sujeito com ambos os braços e se movia impassivelmente no ar. Deteve-se no alto da cúpula e estendeu seu manto, que brilhava como o ouro, sobretudo o recinto da igreja.
Os demolidores deixaram de trabalhar naquele momento. Quiseram prosseguir sua obra de destruição, mas não puderam acercar-se ao espaço protegido pelo largo manto. Enquanto os que trabalham em reedificar a igreja, mostravam extraordinária atividade. Vieram muitos homens escuros, anciões e impedidos e muitos jovens vigorosos; mulheres e meninos, sacerdotes e seculares, e muito cedo esteve quase do tudo restaurada a Igreja.
Vi então vir um novo pontífice em procissão. O Papa era bem mais jovem e enérgico que o anterior (B). Foi recebido com grande solenidade. Parecia que ia consagrar a igreja, mas ouvi uma voz que dizia que o templo não precisava nova consagração, pois a parte principal dele, o tabernáculo, não tinha sido destruída. Devia celebrar-se uma dupla festa em toda a Igreja: um jubileu universal e a restauração da Igreja.
– Mais uma constatação atual, pois seguramente o Papa Bento XVI está bem fisicamente se comparado aos últimos dias de seu antecessor. Esta visão do Tabernáculo não caído, certamente quer significar que embora todos os esforços dos demolidores eles não conseguirão derrubar todos os sacrários da terra.
Antes que o Papa começasse a festa que tinha preparado aos seus e estes lançaram da assembleia, sem contradição nenhuma, a uma multidão de eclesiásticos, uns de elevado poder, outros de pouca significação, os quais saíram murmurando, cheios de cólera. O Pontífice tomou ao seu serviço a outros eclesiásticos e a outros seculares. Depois começou a grande solenidade na Igreja de São Pedro. Os que trabalhavam com mantos brancos mantiveram-se silenciosos, circunspetos e tímidos, olhando se algum os observava.
– Terá ela visto a reunião de Aparecida? Não está dito que eles ficarão furiosos com o Santo Padre? Acaso o Papa não está desagradando aos seus inimigos, por trocar alguns cargos por pessoas de confiança? Tudo então se confirma como verdadeira profecia.

3. O Arcanjo São Miguel luta pelo Triunfo da Igreja. (30 de Dezembro de 1819)
Vi novamente a Igreja de São Pedro com sua grande cúpula. Sobre ela resplandecia o Arcângelo São Miguel vestido de cor vermelha, tendo uma grande bandeira de combate nas mãos. A terra era um imenso campo de batalha. Os verdes e azuis lutavam contra os brancos e estes sobre os quais havia uma espada de fogo parecia que iam sucumbir; nem todos sabiam por que causa combatiam.
A Igreja era de cor sangrenta como o vestido do Arcanjo. Ouvi que me diziam: "Terás um batismo de sangue" . Quanto mais se prolongava o combate, mais se apagava a viva cor vermelho da Igreja e se voltava mais transparente. O Arcanjo desceu e se acercou aos alvos. O vi adiante de todos. Estes cobraram grande valor, sem saber de onde lhes vinha.
– Certamente que estas visões se referem aos acontecimentos de um futuro bem próximo, onde novamente haverá martírios em massa. Por uma lado a Igreja está já hoje sendo balizada com sangue, porque nos últimos tempos têm se acentuado os assassinatos de padres e fiéis católicos.
O Anjo derrotou aos inimigos, os quais fugiram em todas as direções. A espada de fogo que estava sobre os alvos, desapareceu. No meio do combate aumentavam as filas dos alvos: grupos de adversários passavam a eles e uma vez passaram em grande número. Sobre o campo de batalha tinha no espaço, legiões de santos que faziam sinais com as mãos, diferentes uns de outros, mas animados do mesmo espírito.

4. Vê a São Francisco de Assis e Santa Juana de Chantal. (Domingo de infra oitava da Santíssima Trinidade, 1820)
Para consolo meu vi quadros da vida dos dois santos: São Francisco de Sais e Santa Juana de Chantal. Diziam que os tempos que corremos são muito tristes; mas que depois de muitos desastres, virá um tempo suave e aprazível, em que os homens estarão muito unidos uns com outros e se amarão muito; então florescerão muitos mosteiros no verdadeiro sentido da palavra. Vi também uma imagem destes longínquos tempos, a qual não posso descrever; daí se afastavam as trevas da noite e surgiam a luz e o amor. Vi toda classe de quadros relativos ao Renascimento das ordens religiosas.
Os tempos do Anticristo não estão tão próximos como alguns crêem. Têm de vir precursores do mesmo. Vi em algumas cidades mestres de cujas escolas poderão sair esses precursores.

5. Vê a Igreja de São Pedro em perigo. (28 de Agosto de 1820)
Vi uma imagem da Igreja de São Pedro, onde me parecia que o tempo boiava sobre a terra e que muitos corriam pressurosos a pôr-se em baixo dele para transportá-lo, grandes e pequenos, sacerdotes e seculares, mulheres e meninos e ainda anciões impedidos. Eu sentia grande angústia e inquietude, pois estava vendo que a igreja ameaçava ruínas por todas as partes. Mas todas aquelas gentes se puseram em baixo dela sustentando-a com seus ombros; quando isto o faziam, todos tinham a mesma estatura.
Cada um estava em seu posto: os sacerdotes em baixo dos altares; os leigos em baixo das colunas e as mulheres à entrada. Era tão grande o peso que todos suportavam que cri que seriam esmagados. Sobre a Igreja aparecia o céu aberto e os coros dos santos a sustentavam com suas orações e seus méritos e ajudavam aos que a sustentavam sobre seus ombros. Eu estava flutuando entre uns e outros. Vi que os que a levavam se moviam para diante e que uma fila de casas e palácios que havia defronte caíam por terra, como as espigas de um campo, ao passar sobre eles a igreja e que a mesma igreja foi posta ali sobre a terra.
Então tive outra visão. Vi que a Santíssima Virgem estava sobre a Igreja e ao redor dela os apóstolos e bispos. Abaixo vi grandes procissões e solenidades. Vi que todos os maus pastores da igreja, que tinham crido que podiam fazer algo com suas próprias forças, sem receber a virtude de Cristo, dos copos de seus santos predecessores e da igreja, foram lançados e substituídos por outros. Vi que desde o alto recebiam bênçãos e que se faziam grandes mudanças. Vi ao Papa que dirigia todas estas coisas. Vi elevar-se a dignidades, a homens muito pobres e a jovens.
OBS: Recorde-se que esta visão tem quase dois séculos. Abreviaram-se os tempos. Quando Ana Catarina fala do Anticristo o faz sempre como de uma pessoa e não de uma sociedade ou estado anticristão. Só num mundo anticristão poderá imperar o Anticristo. No mesmo sentido fala Santa Hildegarda em seu livro Scivias.

6. Vê uma Igreja falsa na contra-mão da Igreja de Roma. (12 de Setembro de 1820)
Vi construir uma igreja curiosa, falsa e perversa. Tinha no coro três divisões, cada uma de várias arquibancadas, umas mais altas do que as outras. Em baixo se estendia uma escura extensão cheia de trevas. Sobre a primeira destas divisões vi que arrastavam um assento, na segunda uma grande xícara cheia de água; sobre a mais alta tinha uma mesa. Não vi nenhum anjo presente na construção; mas estava a espécie mais ardente e curiosa de múltiplos espíritos imundos, destes que pesteiam os ares, que transportavam toda classe de objetos que depositavam debaixo daquele teto, e ali abaixo, certas pessoas envoltas numa espécie de mantas ou capas eclesiásticas, levavam todas essas coisas afora.
Nada vinha do alto naquela igreja; tudo provia da terra e da escuridão, e os espíritos imundos o traziam e preparavam tudo. Só a água parecia ter em si mesma força saudável e em certo modo santificante. Vi trazer depois para dentro dessa igreja uma grande quantidade de instrumentos. Muitas pessoas e também meninos levavam utensílios e instrumentos da mais variada espécie para fazer e produzir alguma coisa; mas tudo era escuro, pervertido, privado de vitalidade e não se via mais do que separação e divisão.
Perto desta vi outra igreja luminosa, plena de graças do alto; vi aos anjos subir e descer e vi ali vida e crescimento, ainda que também dissipação e negligência. Apesar de tudo era uma árvore cheia de seiva e de força vital em comparação da pseudo-igreja, que parecia um sarcófago de relíquias mortas e de figuras. Uma igreja era como uma ave que voa e se remonta nos ares; a outra como um barrilete feito de papel pelos meninos, cheio de nodos, de enfeites e de bocados de papel de cores na fila, que se arrasta sobre um campo árido talher de estopa, em vez de remontar-se aos ares.
Tenho visto que muitas das coisas reunidas naquela igreja estavam amontoadas na contra-mão da igreja vivente: assim vi dardos e flechas. Cada um se empenhava em levar aí dentro alguma coisa, como bengalas, varas, pompas de água, garrotes de toda classe, bonecos e espelhos. Ali tinha trombetas, chifres, foles e toda classe de objetos de toda classe e maneira. Sob a abóbada da sacristia se afanavam por fazer pão; mas não fermentou e ficou tudo abandonado. Vi àqueles homens com as mantas levar lenha adiante das arquibancadas sobre as quais estava o púlpito e acender fogo e soprar com os foles e com a boca e afanar-se muito; mas não saía de ali mais do que fumaça de uma escuridão horrível.
Então fizeram uma abertura por acima e colocaram um tubo; mas aquele fogo não quis prender e se fez tão denso de fumaça que terminou por sufocar. Outros sopravam nas trombetas e clarines e se esforçavam de tal modo que parecia lhes saíam aos olhos pelas órbitas; mas tudo ficou ali abandonado no solo e depois desapareceu sob terra; de maneira que tudo era morto e fictício e vã obra humana.
Esta igreja é em verdade feita pelos homens, em conformidade com a nova moda, como o é a nova igreja, não católica, de Roma, que é também dessa espécie.
– Não é preciso ter muito conhecimento para entender que ela está aqui se referindo a esta falsa igreja moderna, voltada para o homem, que os inimigos de Deus estão construindo. Uma falsa igreja social, que nada tem a ver com o Santo Padre e a Igreja de Roma.

7. Vê a obra dos espíritos maus na falsa igreja. (12 de Novembro de 1820)
Viajei por um país escuro e frio e cheguei a uma grande cidade. Ali dentro vi de novo a estranha grande fábrica da igreja; mas tenho visto que ali não há nada de santo, senão inumeráveis espíritos planetários (segundo Ana, estes são espíritos imundos, provenientes das classes mais baixas de anjos e de pouco poder, não tão culpados pela queda) que trabalhavam em torno dela. Vi tudo isto como se fosse real, de modo parecido, fazer-se uma obra eclesiástica católica de comum acordo entre os anjos, os santos e os cristãos; mas aqui as formas empregadas eram mecânicas, e as ajudas e os meios de outra espécie.
Vi subir e baixar e enviar raios e luz por muitos espíritos planetários cobre aquela gente que trabalhava. Tudo se fazia e resultava segundo a pura razão humana. Vi lá acima, nas altas regiões, como um espírito fazia linhas e desenhava figuras e como depois aqui na terra se executava, porque via que um abria os alicerces e fazia aberturas ou planos. Tenho visto que a ação destes espíritos planetários, que trabalham para si e para essa grande fábrica, como estendiam seu influxo maléfico às mais remotas comarcas.
Tudo aquilo que parecia necessário ou só útil à fabricação e existência desta igreja, vi excitá-lo e pôr-lo por obra nos mais apartados lugares e distâncias e vi porem-se de acordo homens e coisas, ensinos e opiniões para cooperar à esta obra. Tinha em todo esse quadro um pouco de admiravelmente egoístico, de orgulhosamente seguro e violento; e que tudo teve sucesso o vi num quadro múltiplo de coisas; mas não vi sequer um só anjo ou um santo coincidindo à obra. O quadro que vi era grandioso e perverso.
Vi também bem mais longe e por trás daquele assento ou trono, um povo feroz armado de picaretas, e um rosto feio que sorria e dizia: "fabrica do modo mais sólido que puderes; nós a destruiremos". Penetrei ademais numa sala grande daquela cidade onde se celebrava uma cerimonia odiosa, uma horrível e falsa comédia. Tudo estava pintado de negro. Um foi posto dentro de um caixão e depois ressuscitou.
Ele estava presente em pessoa e levava no peito uma estrela. Parecia que isto significava uma ameaça de que assim sucederia. Vi dentro ao diabo em mil formas e figuras. Tudo era densa e escura noite: aquilo era horrível.

8. Vê novamente a igreja de São Pedro. (10 de Setembro de 1822)
Vi a Igreja de São Pedro do tudo destruída, exceto o coro e o altar maior. São Miguel, armado e cingido, desceu à Igreja e com sua espada impediu que entrassem nela muitos maus pastores, e os impeliu para um ângulo escuro, onde se sentaram olhando-se uns a outros. Tudo o que tinha sido destruído da igreja foi reconstruído em poucos momentos de sorte que pudesse celebrar-se o culto divino. Vieram sacerdotes e leigos de todo mundo trazendo pedras para reedificar os muros, já que os alicerces não tinham podido ser destruídos pelos demolidores.

9. Vê em êxtase à Igreja abandonada e afligida.
Vi a Igreja inteiramente abandonada por completo e só. Parecia que todos fugissem dela. Tudo é contenda em torno dela; pois de todos os lados vejo grandes misérias, ódio, traição e engano, inquietude, falta de auxílio e cegueira absoluta. De um lugar escuro vejo saírem mensageiros anunciando por toda parte más novas, que causam amargura nos corações dos que as ouvem, e acendem neles a cólera e o ódio.
Eu rogo com muito fervor pelos oprimidos. Sobre os lugares onde alguns fazem oração vejo descer luzes, e sobre todos os demais, negras trevas. Este estado de coisas é horrível. Roguei a Deus que tenha misericórdia. ·Oh cidade!... (Roma) ·Oh cidade!... ·Que grande calamidade te ameaça!... A tempestade está próxima; prepara-te, pois. Confio, no entanto, em que tens de permanecer firme.

10. Sobrevivência da Igreja e indignidade dos cristãos. (4 de Outubro de 1822)
Quando esta noite vi a São Francisco levando sobre seus ombros a igreja, segundo a visão que teve o Papa, vi que um homem de baixa estatura em cujo rosto tinha um pouco de judeu, levava a costas a Igreja de São Pedro, o qual me pareceu muito perigoso. Na parte norte, sobre a Igreja, estava Maria protegendo-a sob seu manto. Dir-se-ia que aquele homem ia cair. Parecia-me que o conhecia. Aqueles doze a quem sempre vejo como novos apóstolos vinham socorrer-lhe, mas demasiado devagar.
Já ia cair, quando por fim chegaram todos e se puseram em baixo dela; também ajudaram muitos anjos. Tratava-se de salvar só o solo e a parte posterior da igreja, pois tudo o demais o tinham destruído pelas seitas e ainda os mesmos eclesiásticos. Aqueles levavam à igreja a outro lugar e parecia que a seu passo vinham por terra muitos palácios como se fossem campos de lavoura. Vendo em ruína à Igreja de São Pedro e os muitos eclesiásticos que tinham trabalhado em destruí-la sem que nenhum quisesse dizer adiante dos demais o que tinha feito, senti tal tristeza que tive de clamar em alta voz pedindo a Jesus misericórdia.
– Como se sabe, existem estes artífices do mal infiltrados nos escalões elevados da Igreja, conforme o denunciam inumeráveis profecias e também o livro do Apocalipse de São João. Eles trabalham de forma solerte e bandida, escondidos por trás de vestes pomposas, mas na realidade são soldados de satanás, que não têm coragem de se declarar publicamente. Mas a revelação do 3º Segrêdo de Fátima virá colocá-los a nu.
Então vi adiante de mim a meu Celestial esposo em figura de um mancebo, que falou longo tempo comigo. Disse-me que esta translação da Igreja significava que na aparência tinha de cair em terra por completo, mas que descansava nestas colunas e que delas tinha de surgir de novo; que ainda que não ficasse mais do que um só cristão católico no mundo, ela podia vencer, pois não está fundada na razão nem no conselho dos homens.
Depois me mostrou que na Igreja nunca tinham faltado fiéis que fizessem oração e padecessem por ela. Mostrou-me ademais o que Ele tinha padecido pela Igreja, a virtude que tinha comunicado aos méritos e trabalhos dos mártires e que tudo o voltaria a padecer de novo se fora possível. Também me mostrou em inumeráveis cenas a miserável conduta dos cristãos e dos eclesiásticos, em círculos cada vez maiores, em todo mundo e em minha pátria, e me exortou a orar com perseverança e a padecer por eles.
Havia uma grandeza e tristeza incompreensíveis nesta cena, que não posso descrever. Também se me deu a entender que, já quase não restavam mais cristãos verdadeiros, bem como entendi que muitos judeus que agora existem, são fariseus e ainda piores do que os fariseus do tempo de Jesus. Só o povo de Judit na África está composto de antigos verdadeiros judeus.
Esta visão me afligiu muito
Inocêncio III aprovou o Instituto de São Francisco a raiz de ter visto num sonho misterioso como o santo sustentava em seus ombros à Igreja de São João de Latrão que estava a ponto de desaprumar-se.
Desta Judit se fala extensamente no capítulo Visões de uma comunidade hebréia em Abissínia.

11. Visão da besta do mar e do Cordeiro de Deus. (Agosto a Outubro de 1820)
Esta visão, segundo diz Brentano em suas anotações, está cheia de interrupções, porque Ana Catarina via as coisas em tal forma que lhe era muito difícil descrevê-las depois ordenadamente. Nota também que a visão tem muitas formas de semelhança com as revelações de São João, que ela não tinha lido antes.
Vejo aos novos mártires, não de agora, senão de tempos futuros. Vejo sua aflição e vejo que se precipitam os fatos. Vi às sociedades secretas trabalhar e combater cada vez com maior intensidade para destruir à grande Igreja; e vi entre esta gente a um horrível animal, saído do mar.
O monstro tinha escamas como de peixe, juba como de um leão e muitas cabeças ao redor de uma maior do que as outras, arrepiada, formando uma coroa. Suas fauces eram grandes e vermelhas. Estava manchado como um tigre e andava confiadamente entre aqueles sectários destruidores. Muitas vezes estava no meio deles, enquanto trabalhavam, e também eles iam procurá-lo na caverna onde costumava esconder-se.
Nos artigos sobre as trevas, mostramos também as visões de uma outra pessoa, que apontavam na mesma direção. Que a fera se esconde muito bem em algum subterrâneo, de onde maquina a destruição. Só os seus mais diretos colaboradores a visitam, entretanto não está longe o dia em que a apresentarão a mundo como salvador.
Enquanto estas coisas sucediam, vi aqui e lá, no mundo inteiro, muitos bons e piedosos homens, especialmente eclesiásticos, atormentados, encarcerados e oprimidos, e tive o sentimento interior de que um dia teria novos mártires. Quando a Igreja estava em grande parte destruída, de tal modo que não ficava mais do que o coro e o altar maior vi a estes destruidores, juntamente com a besta, entrarem na Igreja.
Ali encontraram a uma Senhora grande e magnífica, que parecia estar em fita, pois caminhava lentamente. Os inimigos ficaram muito admirados e espantados, e a besta não pôde dar um passo mais. Estendeu furiosamente o pescoço para a Senhora, como se quisesse engoli-la (7), mas ela se voltou e caiu prostrada sobre seu rosto.
Vi então à besta fugir de novo para o mar e aos inimigos correr, confundidos e desconcertados, atropelando-se uns a outros: porque vi que, em torno da Igreja, vinham desde longe e se aproximavam grandes círculos, na terra e no céu. O primeiro círculo estava formado de jovens e de donzelas; o segundo, de pessoas casadas de todos os estados, entre eles reis e rainhas; o terceiro, de pessoas pertencentes às ordens religiosas; o quarto, de guerreiros, adiante dos quais vi a um ginete sobre um cavalo branco. O último círculo estava composto de lavradores e gente da comarca, muitos deles assinalados com uma cruz vermelha na testa. Enquanto se acercavam, os prisioneiros e oprimidos foram liberados e se juntaram com eles.
"E vi uma besta que subia do mar, a qual tinha sete cabeças e dez cornos, e sobre os cornos dez diademas e sobre as cabeças nomes de blasfémias. E a besta que vi era semelhante a um leopardo e as patas como de urso e a boca como de leão" (Ap.13, 1-2).
Os destruidores e conjurados foram jogados de todos os pontos, reunidos adiante daqueles círculos, e se encontravam, sem saber como, juntos num esquadrão, envolvidos em confusão e trevas. Não sabiam nem o que tinham feito nem o que deviam fazer e com a cabeça baixa se precipitaram uns contra outros, como os vejo fazer com frequência. Quando todos estiveram reunidos confusamente, os vi abandonar a obra de destruição e perderem-se desorientados entre os diversos círculos.
Não restam dúvidas de que uma nova Torre de Babel acontecerá. Eles hoje estão edificando este monstro em lugar da Igreja e é como a antiga Babel. No momento oportuno Deus semeará a discórdia no meio deles, de modo que não conseguirão concretizar seus maléficos objetivos.
Vi depois à Igreja, de novo, rapidamente restaurada, com maior esplendor que antes, pois as gentes de todos os círculos, de uma extremidade à outra do mundo, atingiam-se umas a outras as pedras para reedificá-la. Quando esses círculos se aproximavam, o primeiro ou o mais interno se colocava por trás dos outros. Parecia que se distribuíam entre eles as obras diversas de oração e como se o círculo dos guerreiros começasse obras de guerra.
Neste círculo me pareciam confundidos amigos e inimigos de todos os povos. Eram verdadeiros soldados de nossa espécie e cor. Este círculo, no entanto, não estava do tudo fechado, senão que para o Setentrião tinha uma mancha ampla e escura, como uma abertura, como um abismo. Este abismo se estendia para abaixo, nas trevas, precisamente como nos umbrais do Paraíso, naquele ponto onde Adão, arrojado, saiu afora.
Parecia-me como se lá abaixo se estendesse um escuro e tenebroso lugar. Vi como se porções deste círculo ficassem atrás e não quisessem avançar e estes se mantivessem estreitados entre si e tristes os rostos, olhando-se uns a outros. Em todos estes círculos vi a muitos que serão mártires de Jesus Cristo, já que tinha também muitos maus e por esta causa teria outra divisão.
Vi que a Igreja tinha sido do tudo restaurada, e sobre ela o Cordeiro de Deus, em cima do morro, e em torno dele, um círculo de virgens com palmas nas mãos, e os cinco círculos dos esquadros celestes, como os da terra. Os círculos celestes tinham avançado juntamente com os terrestres e faziam de comum acordo. Em torno do Cordeiro estavam as quatro imagens apocalípticas dos animais sagrados.

12. Vê as abominações da Franco Maçonaria.
Esta igreja maldita é pura imundícia, é com origem nas trevas. Quase nenhum dos seus conhece as trevas nas quais trabalha. Tudo é nela vã escuridão; seus escarpados muros nada contêm; o altar que usam, é uma cadeira. Numa mesa há uma caveira coberta, entre duas luzes; às vezes a descobrem. Em suas "consagrações" usam de mulheres nuas. Aqui está o mal sem mistura de bem; esta é a comunhão da gente não santa. Eu não posso declarar com palavras quão abomináveis são, e quão perniciosos e vãos as tentativas desta associação, desconhecidos em grande parte por seus mesmos adeptos.
Realmente hoje se sabe que são bem poucos os maçons e sabem, com toda profundidade, dos reais objetivos de sua entidade. Milhões de incautos são cooptados para a maçonaria, mas desconhecem o que está por trás disso, coisa somente permitida aos altos iniciados. É por isso que tantas pessoas defendem a maçonaria e pertencendo a ela se julgam no direito de permanecer católicos. São verdadeiros "bois de piranha", pois no final o projeto prevê a eliminação destes, depois que a fera tiver alcançado o poder. Serão então mortos ou exilados.
Querem fazer-se todos um só corpo com algo que não é Jesus Cristo. Tendo eu apartado a um deles, encheram-se de furor contra mim. Quando a ciência se divorciou da fé, surgiu esta igreja sem Salvador, sem crença; esta comunhão de santos sem fé; esta anti-igreja, cujo centro é a maldade, o erro, a mentira, a hipocrisia, a fraqueza e a astúcia. Nasceu assim um corpo, uma comunidade fora do corpo de Jesus Cristo, ou seja, fora da Igreja; uma igreja falsa sem Salvador, cujo mistério é não ter mistério algum.
O Papa Pio VII condenou a seita secreta dos Carbonários, nome com que se designavam os maçons "it alia" em Setembro de 1821. (Permanece, pois em vigor a condenação dos católicos que se filiarem à maçonaria, e isso em todos os lugares do mundo).
Diferente em cada lugar, temporal, infinita, cortesã, egoísta, danosa e que apesar das obras boas de que se aprecia, conduz finalmente ao abismo da miséria. O maior perigo que oferece em sua aparente inocuidade. Em todas partes fazem e desejam coisas diferentes; em muitas fazem discretamente; em outras preparam ruínas sem que sejam conhecidos, senão de poucos, seus malvados planos. Assim coincidem todos com suas obras num centro que é o mau, e fazem e trabalham fora de Cristo, porque nele unicamente é santificada toda vida.

13. Os trabalhos das seitas. (Festa da Candelária)
Nestes dias vi muitas maravilhas da Igreja. A Igreja de São Pedro estava quase destruída pelas seitas; mas os trabalhos destas foram aniquilados e todos seus pertences, mantos e utensílios, queimados num lugar imundo pela mão do verdugo. Tinha ali cabelo de cavalo que exalava tal fedor, que me causou muito dano. Nesta visão se me apresentou a Mãe de Deus exercitando seu poder a favor da Igreja. Desde então minha devoção a Maria é cada vez maior.
Este ato de queimar as nossas imagens e objetos sagrados de culto, está também relatada no livro O Eclipse do Sol. Quando tais fogueiras forem acesas, o cheiro de fumo atingirá aos céus, e isso acenderá p fogo da divina Ira. Neste momento acredito que mais de metade da humanidade irá perder a vida, e isso em poucos minutos.

14. Visão da época do Anticristo.
Depois de ter visto a cessação do santo sacrifício da Missa, na época do Anticristo (11), continuou narrando o seguinte:
Vi um grande quadro eclesiástico, mas não sou capaz de reproduzir todo o conjunto. Vi a Igreja de São Pedro e em torno dela muitos campos, jardins, vizinhanças e bosques. Vi muitas pessoas contemporâneas nossas de todas as partes do mundo e muitíssimas outras que conheço pessoalmente ou por meio das visões, que entravam na Igreja, e parte delas passeavam com indiferença indo a outros postos diversos. Tinha dentro uma grande solenidade e sobre ela se via uma nuvem luminosa da qual desciam apóstolos e bispos santos, que se reuniam em coro sobre o altar. Entre eles vi a Agustinho e Ambrosio e a todos aqueles que fizeram muito pela exaltação da Igreja. Tinha uma grande solenidade e se celebrou a Missa.
E eu vi no meio da igreja um grande Cristo aberto de cujo lado mais longo pendiam três selos; de cada um dos mais estreitos dois sós estava aberto mais bem para a parte anterior da igreja, que no centro da mesma. Vi também em cima ao evangelista João e soube que eram as revelações que teve na ilha de Patmos. Aquele livro estava apoiado sobre um átrio no coro. Alguma coisa tinha tido lugar antes que este livro tivesse sido aberto, mas esqueci o que foi. É uma verdade, lástima que aqui tenha um aviso em minha visão. O Papa não estava na igreja. Estava escondido. Creio que aquelas gentes que tinha na igreja não sabiam onde estava ele. Não sei já se ele estava em oração, ou tivesse morto.
"Vi na mão direita do que estava sentado no trono, um livro escrito por dentro e por fora, selado com sete selos". (Ap. 5, 1)"
Este acontecimento, que lamenta não recordar, tivesse-nos dado uma pauta para interpretar alguns capítulos do Apocalipse.
Vi pelos demais que todas aquelas gentes tinham que pôr a mão sobre certa passagem no livro dos evangelhos, estes eram eclesiásticos ou leigos, e que entre muitos deles desceu uma luz, como um sinal que os santos apóstolos e bispos lhes participavam. Vi também que muitos faziam este ato superficialmente.
Fora da igreja vi aproximar-se a muitos judeus que queriam entrar, mas não o podiam fazer ainda. Ao fim chegou toda inteira a multidão que ao princípio não tinha podido entrar adentro. Era um povo inumerável. Então vi de improviso aquele livro ser tocado por um contato sobrenatural e fechar-se em seguida. Isto me fez lembrar como uma vez no convento, de noite, o demônio me apagou a luz e me fechou o livro.
Isso aponta para a conversão do povo judeu que finalmente aceitará a Jesus como Messias, entretanto isso acontecerá somente depois daquele esperado episódio do encontro do cálice e da Missa do Calvário.
Em torno de ali, mas na distância vi uma horrível e sangrenta batalha e vi uma gigantesca luta do lado do Setentrião e do lado do Ocidente. Este foi um quadro grande e muito sério. Sinto ter esquecido aquele lugar do livro sobre o qual os homens deviam pôr os dedos.

15. Vê os estragos que causam os inimigos à Igreja e à futura restauração por meio de Maria. (Páscoa de 1820)
Quando Ana Catarina teve esta visão, o guia lhe disse que abarcava sete espaços determinados de tempo; não pôde depois, ao relatar, fixar os limites de cada tempo nem dizer qual desses tempos correspondiam a ditos acontecimentos.
Vi à terra como numa superfície redonda, coberta de escuridão e trevas. Tudo estava corrompido e a ponto de perecer. Isto o vi muito detalhadamente em todas as criaturas, nas árvores, nos arbustos, nas plantas, nas flores, nos campos. Parecia como se as águas dos ribeiros das fontes, rios e mares fossem sorvidas e voltassem a sua origem. Fui pela terra desolada e vi aos rios como linhas delgadas, aos mares como negros abismos no meio dos quais só tinha algumas grotas com água.
Este fato é realmente espantoso e está relatado no artigo "O Caos", que já está no site. Num determinado momento todos os elementos que compõe a natureza se irão desagregar, descumprindo a ordem natural. Isso virá para esmagar a ciência arrogante, para que entenda finalmente que existe um Senhor e Criador de tudo. Então sim, se verá sim, a água como que espirrando para fora da terra e subindo para as nuvens. E rios e lagos inteiros serão sugados num abrir e fechar de olhos. Um horror!
Tudo o demais era lodo espesso e escuro onde via toda sorte de animal monstruoso e peixes lutando com a morte. Vi tanta distância ao redor que pude distinguir com toda clareza as orlas do mar onde em outra ocasião eu tinha visto que São Clemente foi submerso. Vi também lugares e multidão de gentes tristes e turvadas e muitas ruínas.
À medida que cresciam a secura e a desolação da terra, aumentavam-se as obras tenebrosas dos homens. Vi muitas maldades, em particular reconheci a Roma e vi a opressão que padecia a igreja e sua decadência no interno e no externo. Vi grandes exércitos que se dirigiam a um mesmo ponto desde várias regiões e todos estavam empenhados em lutas e batalhas. No meio deles vi uma grande mancha negra a maneira de um enorme buraco e em torno dele os combatentes eram cada vez menos, como se caíssem naquele abismo como se ninguém os visse cair.
É um fato admitido que os judeus, constituídos já em nação reconhecerão finalmente que Jesus Cristo é finalmente Messias ao que desconheceram por tanto tempo e entrarão nas igrejas católicas. Alguns colocam este fato durante o tempo da pregação de Elias e Enoc. Entre outros muitos textos sobre a conversa dos judeus veja-se especialmente no Cap. 11 da Epístola de São Paulo aos Romanos.
São Clemente I, romano, governou as igrejas por nove anos; foi martirizado no Quersoneso Taurico, precipitando-se no Mar Morto o ano 100.
Durante essa luta vi no meio de tanta ruína e corrupção a doze homens, em diferentes comarcas. Sem conhecer nem ter notícias os uns dos outros, receber como torrentes de água viva que deriva da vida eterna. Vi que todos eles trabalhavam no mesmo, em diferentes lugares e que não sabiam de onde lhes vinham os dons necessários, pois quando acabavam uma missão lhes encomendavam outra.
Eram doze e nenhum deles passava dos quarenta anos. Três eram sacerdotes e algum outro queria sê-lo. Vi também que algumas vezes eu tinha contato com algum deles, como se lhe conhecesse ou estivesse cerca dele. Em seus trajes não tinha nada de particular; cada um deles vestia segundo o uso atual de seu país. Vi que obtivessem de Deus o que se tinha perdido e como em todas as partes faziam o bem. Todos eram católicos.
No meio da tenebrosa corrupção vi falsos profetas e outras pessoas que trabalham contra os escritos destes doze apóstolos, os quais desapareciam com frequência no meio do tumulto e depois saíam outra vez mais resplandecentes que antes. Vi umas mulheres que estavam como em êxtases e junto a elas homens que as magnetizavam. Elas prediziam o futuro; mas a mim me causava aversão e horror, pareceu-me ver aquela mulher de Münster e pensei dentro de mim, com inquietude que ao menos o pai Limberg, não estaria junto a elas.
Quando as filas dos que combatiam em torno daquele negro abismo se aclararam mais e mais, e no meio do combate desapareceu toda uma cidade, aqueles doze homens apóstolos aumentaram muito o número dos que brigavam a seu lado e desde a outra cidade (a verdadeira cidade de Deus, Roma) saiu um cone de luz que penetrou no escuro disco. Vi por acima da igreja, humilhada e menoscabada, uma formosíssima Senhora com um manto azul celeste muito estendido e com uma coroa de estrelas na cabeça.
Dela procedia a luz que penetrava cada vez mais na escuridão, e ali onde chegava essa luz, tudo era renovado e tudo voltava a prosperar. Os novos apóstolos entraram todos naquela luz. Eu cria ter visto a mim mesma com outros a quem conhecia, que estávamos diante, no alto. Numa grande cidade vi uma igreja, a menor entre outras, que chegava a ser a primeira. Os novos apóstolos foram alumiados pela luz. Creio ter visto com eles à cabeça, a outros que não conheço.
Tudo voltou a florescer de novo. Vi um novo Papa muito severo. O abismo se fazia cada vez mais estreito: fez-se tão pequeno que podia ser coberto com um balde de água. Finalmente vi três exércitos ou comunidades que se uniam à luz. Tinha entre eles pessoas boas e ilustradas, as quais entraram na igreja. Tudo se tinha renovado e estava florescente. Vi que se edificaram igrejas e mosteiros.
Para mim isso significa finalmente a união das três grandes Igrejas, a Católica a Ortodoxa e a Protestante, que se vergarão unidas diante de Jesus que chega, para for um só rebanho e um só pastor.
Durante aquela tenebrosa aridez, fui transportada a um prado cheio de verdor e de cândidas flores que outras vezes tinha tido que recordar depois. Encontrei um valado de espinhas, com o qual me tinha lacerado e arranhado muito durante aqueles tempos ocorridos. Agora estava tudo florido e penetrei nele alegremente.

16. As chagas do Senhor derramam bênçãos sobre a Igreja e o mundo.
O arcanjo São Miguel desceu da igreja e vi sobre ela, no céu, uma grande cruz luminosa, da qual pendia o Salvador. De suas chagas desciam sobre o mundo faixas de luz que se difundiam por toda parte. As chagas eram vermelhas e como brilhantes portas, e o centro delas, dourado como o sol. Não levava a coroa de espinhas, mas das feridas de sua cabeça saíam raios horizontais de luz que alumiavam o mundo. Os raios que saíam das mãos e dos pés eram como o arco íris e se dividiam em raios muito finos, e, muitos, iam alumiar aldeias, cidades e casas pelo mundo inteiro.
Vi estes raios em muitos lugares ao mesmo tempo, perto e longe, descer sobre toda classe de moribundos e atrair com violência às almas, as quais, por um destas cores do arco íris, corriam-se para as chagas do Salvador. Os raios da ferida do custado desciam sobre a igreja que estava em baixo, como uma torrente larga e caudalosa. Desta sorte resplandecia a igreja e por este torrente de luz entravam a maior parte das almas no Senhor.
Certamente aqui se pode entender a verdadeira avalanche de almas que na última década entrou no Céu, tendo em vista as orações e também ao nosso Movimento, especialmente formado por Deus para este fim. De fato, elas têm subido diariamente aos céus em verdadeiras torrentes.
Vi oscilar no céu um coração vermelho e brilhante unido com a cruz por uma faixa luminosa que dele saía para a ferida do custado do Salvador. Outra faixa luminosa, que partia também do coração, estendia-se sobre a igreja e sobre muitas comarcas. Estes raios de luz atraíam a muitas almas ao coração e passando através dele iam pela faixa de luz que o unia com a cruz e entravam no custado de Jesus. Se me disse que este coração era o de Maria.
Além dos raios luminosos, pendiam das chagas umas escalas, algumas das quais não chegavam a terra. Estas escalas eram umas trinta, diferentes todas entre si: tinha-as largas e estreitas, umas com degraus juntos e outras com degraus separados, umas isoladas, outras juntas e agrupadas. Suas cores eram os mesmos do lugar de purificação, escuros, claros, cinzas, cada vez mais vivos à medida que se subia nelas.
Por estas escalas vi subir trabalhosamente a muitas almas. Umas iam rapidamente, como se tivesse quem as ajudasse a estar com firmeza; outras se empurravam umas a outras e caíam nos degraus inferiores; algumas caíam na escuridão mais profunda. Aquela trabalhosa subida parecia mais comovedora quando se a comparava com a alegre entrada das que eram atraídas a modo de absorção. As que subiam sem retroceder com passo firme parecia que estavam mais unidas com a igreja que com as outras que se detinham ou esperavam ou ficavam sós.
Por trás da cruz, muito adentro, lá no céu, vi muitas imagens da obra da Redenção no caminho da divina graça, através da história do mundo até seu cumprimento na Redenção. Eu não me detive em nenhum ponto; percorri a faixa luminosa vendo-a toda.

17. Vê a proximidade do reino de Deus.
Quando teve cessado o combate na terra, a igreja e o anjo se tornaram brancos e resplandecentes, e o anjo desapareceu. Também desapareceu a cruz, e no lugar que ela ocupava apareceu uma Senhora alta e resplandecente, em cima da igreja, estendendo sobre ela seu dourado e brilhante manto. Em baixo na igreja se ouviram vozes de mútua humilhação e reconciliação.
Vi então os bispos e pastores acercar-se e mudar seus livros (mudar sua doutrina, sua falsa teologia). As seitas reconheceram à igreja por sua admirável vitória e pela luz da revelação que tinham visto resplandecer nela. Quando vi essa união, senti profundamente a proximidade do reino de Deus. Vi um resplendor e uma vida superior em toda a natureza e um santo impulsiono em todos os homens, como quando se aproximava o nascimento de Jesus, e de tal maneira senti a proximidade do reino de Deus, que me vi obrigada a sair a seu encontro. (Nesta parte da visão, orava em alta voz).
Da vinda de Maria tive um vivíssimo pressentimento. Vi a sua estirpe enobrecer-se à medida que se ia acercando a esta flor. Vi a Virgem Maria: como a vi, não poderia dizê-lo. Da mesma maneira sinto a proximidade do reino de Deus. Só posso comparar aquele sentir com este modo de ver. O reino de Deus o vi acercar-se e se cumprindo o anseio de muitos fiéis atraídos pela fé humilde e o ardentíssimo amor.
Vi aparecer na terra muitos rebanhos pequenos e luminosos de cordeiros, apascentados por pastores; vi que estes eram verdadeiros pastores daquele que, como Cordeiro, deu seu sangue por nós; e vi que um amor infinito e uma virtude divina reinava entre os homens. Perto de mim vi pastores, de quem eu sabia que não pensavam em nada disto, e desejei vivamente que acordassem de seu sonho.

18. Vê a Igreja de Roma. (27 de Dezembro de 1820)
Vejo à Igreja Romana resplandecente como o sol. Dela saíam raios a torrentes que se dilatavam pelo mundo inteiro. Foi-me dito que isto se referia à revelação de São João, mediante os quais alguns cristãos deviam receber parte dessa luz e que esta recairia por inteiro a favor da igreja. Vi a respeito disto um quadro muito preciso, mas não o posso expressar com palavras.

19. Vê a Igreja depois do combate.
Vi à igreja depois do anterior combate resplandecente como o sol. Nela se celebrava uma grande solenidade e vi que entravam muitas procissões. Vi um novo Papa muito severo e rigoroso. Antes de começar a festa tinha despedido a muitos bispos e pastores, porque eram maus. Vi que coincidiram à celebração desta festa os santos Apóstolos especialmente.
Então vi muito próximo o cumprimento destas palavras: "Senhor, vinga a nos o teu reino". Aprecia-me ver descer do alto, luminosos jardins celestiais e unir-se com lugares inflamados da terra e tudo ali submergir-se na luz primitiva. Os inimigos, que tinham fugido do combate, não foram perseguidos, mas se dispersaram.

20. Visão da Jerusalém celestial.
Vi nas brilhantes ruas da cidade de Deus muitos palácios e jardins resplandecentes, nos quais tinha inumeráveis coortes de santos, que discorriam louvando a Deus e derramando suas graças sobre os homens. Na celestial Jerusalém não há nenhuma igreja: o mesmo Cristo é a igreja. Maria reina na cidade de Deus, e sobre ela estão Cristo e a Santíssima Trinidad. Desde Ela desce sobre Maria celestial orvalho, que se difunde sobre toda a santa cidade.
Vi embaixo da cidade de Deus, à igreja de São Pedro e me regozijei porque, apesar da negligência dos homens ela recebe sempre do céu a verdadeira luz. Vi os caminhos que vão à Jerusalém celestial e aos santos pastores que conduziam a ela às melhores almas de seu rebanho. Estes caminhos não estavam muito cheios.
Vi também o caminho por onde eu tenho de ir à cidade de Deus, e vi, como desde o centro de um amplo círculo, a todos aqueles a quem de algum modo tinha eu ajudado. Vi a todos os meninos e aos pobres a quem tinha cozido algum vestido e me admirei e me alegrei especialmente ao ver as diversas maneiras em que os tinha cortado.
Depois vi todas as cenas de minha vida em que tinha sido útil a algum, já com meu exemplo, ou com auxílios, orações e trabalhos. Vi o proveito que de aqui se tinha seguido em forma de jardins nascidos de minhas próprias obras. Estes jardins tinham sido cultivados de diferente modo por seus diferentes modos; alguns os tinham deixado perder-se. Vi que sorte coube a cada uma daquelas almas em quem eu tinha causado alguma impressão.
Comentário final:
Lendo o relato destas visões, tenho a certeza de que Anna Catharina Emmerich é tão perseguida e odiada, até por gente que se diz católico, porque na verdade ela incomoda muito ao demônio. De fato, ele não quer que o mundo saiba da vitória da Igreja e da mudança radical que haverá na terra, depois que ele for expulso daqui, e para sempre.
Estas visões tidas há quase dois séculos, compõem um dos mais claros exemplos da ação de Deus em favor dos homens. Isso porque através delas nos é dado saber um pouco do futuro esplendor da Igreja católica, depois que Deus tiver submetido aos pés de Jesus todos os poderes que ousaram algum dia desafiá-la. Porque é eterna a frase: as portas do inferno não irão prevalecer contra ela.


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